"O forró não vai parar": a história de Almir Rouche com a cultura junina
Cantor relembra origens, fala da influência de Luiz Gonzaga e celebra a força renovada do forró após mais de duas décadas de carreira junina.
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Embora seja amplamente associado ao Carnaval pernambucano, Almir Rouche encontrou nas festas juninas um espaço igualmente importante para sua expressão artística.
Há mais de duas décadas, o cantor construiu uma trajetória sólida no São João, impulsionado por memórias de infância, pela admiração aos mestres da cultura nordestina e pela vontade de preservar tradições que atravessam gerações.
A relação mais intensa com o ciclo junino começou oficialmente em 2002, quando idealizou o projeto “São João na Roça”.
O trabalho nasceu quase por acaso, durante uma visita ao estúdio de um amigo, mas rapidamente ganhou forma a partir de um repertório que o artista carregava consigo havia anos.
“Eu já tinha esse repertório na cabeça. Nos anos 1990, fazia muito São João da TV Jornal, na Rua do Lima, e sempre fui muito solicitado para os festejos juninos. Aquilo foi despertando em mim a vontade de fazer um trabalho voltado para essa cultura”, relembra.
O projeto acabou se transformando em um dos marcos de sua carreira e recebeu o nome de uma canção composta em homenagem a Luiz Gonzaga.
A música nasceu de uma frustração que Almir carrega até hoje: nunca ter conhecido pessoalmente o Rei do Baião.
Quando Gonzaga morreu, em agosto de 1989, o cantor estava apenas iniciando sua trajetória profissional. O desencontro marcou profundamente sua formação artística.
“Eu via Gonzaga através das pesquisas, do rádio e das referências que chegavam até mim. Não ter conhecido ele foi uma grande frustração”, conta.
Foi justamente dessa ausência que surgiu “São João na Roça”, composição inspirada também pelas lembranças da infância no interior, observando os avós trabalhando na terra. A música mistura memória afetiva, religiosidade e a celebração da cultura popular nordestina.
Embora tenha nascido em Igarassu e mantido fortes raízes na Região Metropolitana, Almir construiu boa parte da carreira no Recife, cidade onde vive há cerca de 25 anos e da qual recebeu o título de cidadão recifense.
Ao longo dessa trajetória, recebeu incentivo de amigos da comunicação e do meio cultural para investir no repertório junino. O desafio era encontrar uma identidade própria em um momento em que o forró passava por transformações.
“Diziam para mim: ‘Você faz muito bem o São João’. Eu tinha receio porque não dominava todas as músicas que estavam na moda naquele momento. Então fui estudar, pesquisar, compor e criar meu próprio caminho”, recorda.
Entre o frevo e o forró
Acostumado a comandar multidões tanto no Carnaval quanto no São João, o artista destaca que as duas festas exigem preparações completamente diferentes.
Para ele, a principal diferença está na intensidade.
Enquanto o Carnaval concentra dezenas de apresentações em poucas semanas, exigindo grande desgaste físico e emocional, o São João acontece de forma mais espaçada, permitindo ao artista vivenciar cada etapa da temporada.
“O Carnaval é muito intenso. Em cerca de um mês e meio, faço entre 35 e 40 shows. Já o São João começa em maio e vai até julho em alguns lugares. Tem um ritmo diferente”, explica.
Se o Carnaval exige energia constante, o São João oferece outro tipo de experiência. Além dos shows, há a convivência com os costumes, a gastronomia e as manifestações culturais que fazem parte da festa.
“É uma época que faz você entrar magrinho e sair mais fofinho. Não tem como resistir à canjica, ao pé de moleque, ao milho, às comidas típicas. É uma celebração completa”, brinca.
O que emociona depois de tantos anos
Mesmo após décadas de carreira, Almir afirma que o São João continua despertando emoções difíceis de traduzir.
O que mais chama sua atenção não é apenas a música, mas a presença das famílias reunidas diante dos palcos.
“Você olha e vê pai, mãe, criança, todo mundo junto. Vê as roupas de matuto, as quadrilhas, a tradição sendo passada para as novas gerações. Isso me emociona muito.”
A ligação com as quadrilhas juninas também é antiga. Durante anos, o cantor acompanhou de perto festivais e competições em Pernambuco, observando o crescimento de movimentos que hoje mobilizam milhares de pessoas em todo o Estado.
Mas a emoção também vem da memória dos artistas que ajudaram a construir a identidade musical nordestina.
Ao citar nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca, Almir destaca a importância de reconhecer aqueles que abriram caminhos para as novas gerações.
O futuro do forró
Ao contrário de quem vê a modernização do gênero com desconfiança, Almir faz questão de reconhecer a contribuição dos grupos que popularizaram o chamado forró estilizado nos anos 1990.
Segundo ele, bandas como Mastruz com Leite e Cavalo de Pau tiveram papel fundamental para manter a sanfona viva em um período em que muitos jovens já não demonstravam interesse pelo instrumento.
“Tinha uma época em que muita gente achava que sanfona era instrumento de velho. Essas bandas ajudaram a formar uma geração inteira de sanfoneiros. A gente precisa reconhecer isso.”
Para o cantor, o cenário atual do forró é promissor. Ele enxerga uma nova geração de compositores, intérpretes e instrumentistas capazes de manter viva a tradição sem deixar de dialogar com o presente.
Entre os nomes que admira estão artistas como Fábio Leandro, Maciel Melo e Santanna, que, segundo ele, representam a força poética da música nordestina.
“Eu acho que o forró está muito bem representado. Tem muita gente boa fazendo música de qualidade e levando nossa cultura para todos os cantos.”
De olho na estrada
Em 2026, Almir segue com a agenda cheia durante o período junino, percorrendo cidades do Agreste e do Sertão pernambucano.
E garante que o público pode esperar exatamente aquilo que se tornou sua marca registrada: muito forró, celebração e respeito às tradições.
“Onde tiver uma fogueirinha, um palco e um arrasta-pé, a gente vai estar por lá.”