Existe fórmula para criar um hino inesquecível da Copa? Produtor musical explica por que algumas músicas atravessam gerações
De "Waka Waka" a "Wavin’ Flag", refrões simples, emoção coletiva e repetição ajudam a transformar canções em símbolos afetivos do futebol
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Poucos elementos conseguem despertar tanta memória afetiva durante uma Copa do Mundo quanto suas músicas oficiais. Mais do que trilhas promocionais, os hinos dos Mundiais acabam associados a gols históricos, reuniões em família, tardes diante da televisão e momentos que permanecem vivos por décadas. Talvez por isso algumas canções sigam presentes no imaginário popular mesmo muitos anos depois do torneio, enquanto outras desaparecem rapidamente após o fim da competição.
Entre os casos mais emblemáticos está “Waka Waka (This Time for Africa)”, de Shakira em parceria com o grupo Freshlyground, música oficial da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. A faixa se transformou em um fenômeno global, acumulando bilhões de visualizações no YouTube e permanecendo até hoje entre os maiores hinos da história do torneio.
Parte desse impacto está diretamente ligada ao contexto histórico daquela edição, a primeira Copa disputada em solo africano. O refrão simples, a repetição constante e a forte presença da música nas transmissões ajudaram a transformar a faixa em um símbolo imediato daquele período.
Outro exemplo marcante é “Wavin’ Flag”, do cantor K’NAAN. Mesmo sem ter sido oficialmente escolhida pela FIFA como música do Mundial, a faixa acabou entrando para a memória coletiva de milhões de pessoas durante a Copa de 2010. Impulsionada pela campanha global da Coca-Cola, a música foi executada de forma massiva em comerciais, transmissões, estádios e ações promocionais ao redor do mundo.
O resultado foi um efeito raro: para muitas pessoas, “Wavin’ Flag” se tornou tão representativa daquela Copa quanto o próprio torneio.
Para o DJ e produtor musical Diego Spy, conhecido artisticamente como JESTFLY, existe uma construção emocional específica por trás das músicas que conseguem sobreviver ao tempo e ultrapassar o futebol.
“A música da Copa precisa ser entendida rápido porque ela disputa atenção com o jogo, com a emoção do torcedor e com toda a atmosfera do evento. Os hinos que marcam geração normalmente têm refrões muito simples, repetição forte e uma sensação imediata de pertencimento. A pessoa escuta aquilo durante um mês inteiro ligada à televisão, à torcida, à família e aos momentos emocionais daquele período. Depois de anos, basta tocar o refrão que ela volta automaticamente para aquela época”, analisa.
Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o debate sobre os próximos hinos já começa a ganhar força. A FIFA confirmou “Dai Dai”, parceria entre Shakira e Burna Boy, como uma das músicas oficiais desta edição, além de outras faixas que irão compor o álbum do torneio.
A estratégia para 2026 também marca uma mudança importante em relação às edições anteriores. Em vez de apostar em apenas uma música dominante durante toda a competição, a entidade pretende trabalhar múltiplos lançamentos ao longo do campeonato, acompanhando o novo comportamento de consumo musical impulsionado pelas plataformas digitais e pelas redes sociais.
Segundo Diego Spy, essa fragmentação pode mudar a forma como as próximas gerações irão construir suas memórias afetivas em relação às Copas do Mundo.
“Antigamente existia praticamente um único hino dominando o torneio inteiro. Hoje a internet fragmenta muito mais o consumo de música. Mesmo assim, quando uma canção consegue se conectar emocionalmente com o futebol e com a experiência coletiva das pessoas, ela ultrapassa o campeonato. O hino da Copa fica porque ele acaba organizando emocionalmente uma época inteira na memória das pessoas”, conclui.