Às vésperas dos 80 anos, João Bosco emociona ao falar de música, memória e desejo de viver
Às vésperas dos 80 anos, cantor falou sobre memória, desejo pela música e o show especial no Teatro Guararapes, em 30 de maio
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Prestes a completar 80 anos em 2026, João Bosco segue movido pela mesma paixão que transformou um garoto do interior de Minas Gerais em um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira.
Em coletiva realizada na tarde desta quinta-feira (14/05), o artista falou sobre memória, ancestralidade, perdas, desejo e a emoção de voltar ao Recife com o espetáculo “João Bosco Quarteto”, marcado para o dia 30 de maio, no Teatro Guararapes.
O show celebra mais de cinco décadas de carreira e promete revisitar diferentes fases da trajetória do cantor, misturando clássicos que atravessaram gerações com canções mais recentes, como as do álbum Boca Cheia de Frutas, lançado em 2024 e apontado pela crítica como um dos trabalhos mais importantes do ano.
Durante a conversa com jornalistas, João Bosco relembrou o início de tudo: um violão verde, presente de uma de suas irmãs.
“Ela tocava piano e percebeu que eu gostava de ficar mexendo no violão verde. Eu ficava colocando os dedos e ela viu que eu tinha interesse. Minha vida musical começou ali”, contou o cantor, emocionado.
O instrumento foi determinante para aproximá-lo de referências que marcariam sua identidade artística, como Dorival Caymmi. “Depois mudei para o nylon e fui me apaixonando cada vez mais pela música”, lembrou.
Ao falar sobre os quase 53 anos de carreira, João Bosco afirmou que cada apresentação funciona como uma espécie de reencontro com a própria história.
“Costumo dizer que o show é sempre uma coisa retrospectiva. Ainda mais depois de três anos sem ir ao Recife. O público quer acompanhar músicas que tenham história, que tenham começo, meio e atualidade”, explicou.
Segundo ele, o repertório da apresentação no Recife vai passear por diferentes fases da carreira. “O show vai do princípio, passando pelo meio e chegando no ‘Boca Cheia de Frutas’. É uma forma de revisitar tudo isso junto com o público.”
Além da memória afetiva, João Bosco também destacou o peso das ancestralidades e da conexão espiritual presentes em sua obra mais recente. O artista revelou que o álbum Boca Cheia de Frutas nasceu inspirado no idioma yanomami e nas reflexões dos povos originários.
“É bonito cantar essas canções. Trazer as crianças yanomami, trazer essas raízes. Eu acho que um show sempre passa por ancestralidades. Eu sempre estive ligado nessas fontes”, afirmou.
O cantor também aproveitou para demonstrar carinho especial por Pernambuco e pela música produzida no estado. “Sou fascinado por Pernambuco”, disse, citando admiração profunda por Lenine e relembrando uma gravação realizada ao lado de Sivuca em Limoeiro.
“Estamos tentando uma parceria com Lenine e Chico César. Já começamos, mas ainda não conseguimos concluir.”
Mesmo às vésperas dos 80 anos, João Bosco afirma que segue movido pelo desejo de continuar criando. Para ele, essa é a palavra-chave da longevidade artística.
“O que eu sinto nos 80 é uma questão física às vezes. A gente cansa mais facilmente. Mas o que está dentro não sente isso. O fundamental é o desejo. O desejo é o segredo de tudo”, declarou.
“Eu tenho um desejo enorme pela música. Eu pego o violão não necessariamente para compor, mas para tocar músicas de pessoas que admiro. E, de repente, nasce uma ideia.”
Reflexivo, o cantor também falou sobre perdas, amadurecimento e afeto. “Às vezes as perdas são maiores que as conquistas. Mas a vida é o que interessa. Perdoar é uma forma de amor”, disse.
Com repertório que deve incluir clássicos como “O Bêbado e a Equilibrista”, “Kid Cavaquinho”, “O Mestre Sala dos Mares” e “Bijuterias”, o espetáculo “João Bosco Quarteto” promete transformar o Teatro Guararapes em uma grande celebração da memória da MPB — conduzida por um artista que segue encontrando novos caminhos sem perder a ligação com suas origens.