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Lucia Tolentino retoma trajetória após AVC e apresenta exposição que celebra recomeço e leveza

Após perder fala e movimentos, Lucia Tolentino reencontra na pintura um caminho de expressão e apresenta "A Cor da Leveza" no dia 9 de abril

Por Alice Lins Publicado em 08/04/2026 às 17:00

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Quando a palavra falha, o corpo aprende outros caminhos para existir. No caso da artista plástica Lucia Tolentino, foi a cor que permaneceu: intensa, vibrante e cheia de significado. Mais de duas décadas após um AVC isquêmico que comprometeu a fala e os movimentos do braço direito, ela se prepara para abrir a terceira exposição desde o episódio, marcada para o dia 9 de abril, com o título "A Cor da Leveza".

A história da artista atravessa dor, silêncio e reconstrução, mas também revela um percurso marcado por escolhas. Antes do AVC, Lucia já explorava a criatividade, ainda que de forma mais contida. Segundo as filhas, Silvia Cavalcanti e Analice Uchoa, esse movimento ganhou outra dimensão com o tempo.

"Quando mamãe se aposentou, passou a se dedicar mais à criatividade. Começou com arranjos de flores e depois experimentou a pintura em acrílico. Eram obras bonitas, mas ainda muito preocupadas com forma e função, um pouco 'dentro da caixa'", relembram.

A ruptura veio com o AVC, descrito pela família como avassalador. Durante um longo período, a artista enfrentou limitações severas: "Foi um período muito duro, durante um ano, ela só conseguia dizer 'ma, ma, ma…'".

O retorno à pintura, no entanto, não foi imediato e esteve longe de ser simples. Houve resistência, momentos de frustração profunda e um sentimento constante de inadequação diante do que surgia nas telas, já que o resultado era muito diferente do que ela estava acostumada a produzir antes do AVC.

Cada tentativa vinha acompanhada de dúvidas e inseguranças, tornando o processo ainda mais desafiador emocionalmente, até que, aos poucos, ela começou a ressignificar esse novo jeito de criar.

"A gente começou a incentivá-la a voltar a pintar. Ela resistiu muito no início. E quando voltou, o que surgia na tela era algo muito diferente e, para ela, imperfeito. Mas ela não desistiu. E, aos poucos, a arte dela foi se transformando. Ficou mais solta, mais viva, mais alegre. Foi ali que percebi que a pintura não era só uma atividade, era o caminho de reconstrução dela", afirmam as filhas.

O processo de reaprender a pintar com a mão esquerda exigiu persistência diante de desafios diários, marcados por limitações físicas, frustrações constantes e a necessidade de reconstruir, do zero, uma habilidade que antes era natural. Cada traço carregava não apenas a tentativa de acertar, mas também o peso da comparação com o que ela já havia produzido no passado. Ainda assim, Lúcia seguiu em frente.

"Mesmo diante da frustração diária, ela continuou. O que antes parecia imperfeito acabou se tornando uma nova linguagem. E essa nova forma de pintar trouxe uma liberdade que certamente não existia antes, menos presa à técnica, mais conectada à emoção", dizem.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Lucia Tolentino, artista plástica - Divulgação/Arquivo Pessoal

A trajetória, no entanto, não foi linear e foi marcada por altos e baixos ao longo do caminho. Tiveram momentos em que a própria família duvidou da retomada artística, especialmente diante das dificuldades iniciais e da resistência de Lúcia em voltar a pintar.

A comparação com o que ela produzia antes do AVC também pesava, trazendo incertezas sobre até onde ela conseguiria ir. Ainda assim, mesmo em meio às dúvidas, havia sinais de persistência que indicavam que, de alguma forma, ela continuaria tentando.

"Isso acontecia principalmente no início, quando ela resistia a voltar e quando a comparação com o que fazia antes pesava muito. Mas, ao mesmo tempo, havia algo nela que nunca deixou de tentar", relembram.

Para as filhas, o impacto do AVC foi profundo e transformador, alterando completamente a rotina da família e a forma como enxergavam a vida. A experiência trouxe desafios intensos, mas também abriu espaço para reflexões e aprendizados ao longo do tempo.

"Ver uma pessoa que você ama tanto, que sempre foi tão ativa, tão comunicativa, passar por uma limitação tão grande, mexe profundamente, inclusive com a sua relação com o conceito de proteção divina. Em muitos momentos, foi revoltante. A pergunta vinha com força: por que logo ela, meu Deus?", dizem Silvia e Analice. "Acho que aos poucos essa jornada foi se transmutando em um processo de aprendizado profundo. Aprendizado sobre resiliência, superação, paciência, presença e, principalmente, sobre ressignificar o sentido da vida".

Hoje, as obras de Lucia comunicam aquilo que palavras não alcançam, traduzindo em cores e formas sentimentos, vivências e percepções que vão além da linguagem verbal e tocam diretamente quem observa.

"As telas dela transmitem leveza, alegria, energia, uma vibração muito positiva. Elas dizem sobre superação, mas sem peso. Falam sobre escolher a leveza mesmo diante das dificuldades. É uma comunicação que vai além da palavra", explicam.

Acompanhar o processo criativo da artista também exige sensibilidade e respeito ao tempo, já que a produção acontece de forma própria, guiada pelo ritmo do corpo e pelas emoções de cada fase.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Lucia Tolentino, artista plástica - Divulgação/Arquivo Pessoal

"É incrivelmente inspirador. Ela pinta com uma liberdade muito grande, sem a preocupação de seguir regras. É um processo mais intuitivo, espiritual, emocional. Mas é importante dizer que a pintura não acontece de forma constante. Existem períodos em que ela simplesmente não pinta. E isso, claro, nos preocupa, mas aprendemos a não pressionar, a respeitar o tempo dela", expõem. "Cada dia é uma conquista. A cabeça dela é extremamente lúcida, mas o corpo impõe limites; e existe uma luta diária para não deixar a peteca cair".

A carreira ganhou projeção internacional com a primeira exposição após o AVC, realizada na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O momento marcou uma virada importante na trajetória da artista, ao levar a própria história e as obras para um público global, ampliando o reconhecimento para além do círculo próximo e mostrando que a arte dela era capaz de emocionar pessoas em diferentes contextos e culturas.

"Foi transformador. Quando o curador viu os quadros dela e a convidou para expor na ONU, foi um marco. Ali ela percebeu que o reconhecimento não vinha só da família e dos amigos, o trabalho dela tocava pessoas de fora, em outro contexto. Isso deu um novo impulso, uma confiança enorme", revelam as filhas.

Anos depois, já no Brasil, a exposição "A Cor da Voz" marcou uma fase de transição, em que a pintura assumia papel central como forma de comunicação. Agora, com "A Cor da Leveza", a proposta é diferente: "Não é mais só sobre reconstrução, é sobre escolha. Sobre como ela decidiu viver e se expressar", resumem.

O público, segundo elas, pode esperar uma experiência sensorial: "Pode esperar sentir. As obras dela transmitem otimismo, energia, alegria, uma luz muito própria. É uma exposição que convida à leveza, a olhar a vida com mais suavidade, mesmo diante dos desafios".

Mais que uma obra específica, é o conjunto que emociona. "Cada tela carrega essa transformação. Mas especialmente aquelas mais abstratas, mais soltas, porque mostram claramente essa nova fase dela". E, se fosse preciso definir a trajetória da artista em uma palavra, a resposta é direta: "Transmutação".

Ao olhar para tudo o que foi vivido, a imagem que permanece é de uma mulher que ressignificou a própria existência. "Lúcia é a pessoa profundamente gentil, empática e generosa de sempre. Uma mulher forte, resiliente, mas que também sabe valorizar o lento, o encontro, as relações. Hoje, mais do que nunca, ela é a própria expressão da leveza que transmite nas telas", finalizam.

A exposição ocorre no dia 9 de abril, a partir das 18h, na Adroaldo Tapetes, localizada na zona sul do Recife - Avenida Domingos Ferreira, 2343. O espaço vai receber o público para apresentar de perto as obras mais recentes da artista, marcando mais um capítulo da trajetória de reconstrução e expressão por meio da arte.

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