Agenda | Notícia

Adolescentes no Brasil vivem entre ansiedade, pressão e hiperconexão, revela estudo inédito

Levantamento traça panorama da geração e expõe crise emocional, distanciamento familiar e mudanças no consumo

Por Bianca Tavares Publicado em 08/04/2026 às 9:30 | Atualizado em 08/04/2026 às 9:31

Clique aqui e escute a matéria

Não foram os adolescentes que mudaram, o mundo ao redor deles é que se transformou. Essa é a base do estudo conduzido pelo LAB Humanidades, da AlmapBBDO, em parceria com a Netflix, que analisa o comportamento dos jovens brasileiros no século 21.

A pesquisa ouviu 2.800 pessoas em todo o país, sendo 1.600 adolescentes entre 13 e 17 anos e 1.200 adultos, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. O objetivo foi confrontar percepções e entender como diferentes gerações enxergam essa fase da vida.

"Os adolescentes de 2026 foram socializados em um cenário de insegurança política, econômica e emocional, e desenvolveram uma percepção de mundo baseada na impermanência", pontua Rita Almeida, líder do Lab Humanidades, da AlmapBBDO. "Para entender os adolescentes, o estudo buscou compreender um estado de mundo: o momento em que os futuros consumidores e criadores de cultura estão formando suas referências, afetos, crenças e sonhos, em um mundo estruturado pela incerteza."

Camila Cara
Imagem de Rita Almeida (líder do LAB Humanidades da AlmapBBDO) - Camila Cara

Descrença dos adultos amplia distância geracional

Um dos dados que mais chamam atenção é a falta de confiança dos adultos. Apenas 21% acreditam no potencial dos adolescentes para construir um futuro muito positivo, evidenciando um gap geracional relevante.

Essa diferença de percepção também aparece dentro de casa. Enquanto 94% dos pais avaliam a convivência como boa ou ótima, apenas 75% dos adolescentes concordam. Além disso, 30% afirmam que a relação piorou com a chegada da adolescência, e 68% dizem que suas emoções não são levadas a sério.

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, esse cenário exige atenção. "A pesquisa traduz em dados uma realidade silenciosa. Quando vemos que a grande maioria dos pais acredita que os filhos são felizes e que a relação é ótima, mas os jovens relatam invalidação emocional e uma sensação crescente de distância dentro de casa, fica claro que as famílias brasileiras precisam construir novas pontes de diálogo para além do afeto básico."

Saúde mental expõe cenário alarmante

O estudo aponta um quadro de forte vulnerabilidade emocional. A saúde mental aparece como a área mais mal avaliada pelos jovens. Os números reforçam esse alerta: 58% relatam crises de ansiedade ou pânico, 78% já enfrentaram mudanças bruscas de humor e 61% afirmam que a pressão por sucesso gera ansiedade. O medo de não ter estabilidade financeira atinge 83% dos adolescentes.

Em situações mais extremas, 37% dizem já ter tentado se machucar propositalmente e 40% afirmam que já pensaram em tirar a própria vida.

Nesse contexto, surge um dado simbólico da nova geração: 12% dos adolescentes recorrem à internet, incluindo ferramentas como o ChatGPT, para buscar orientação emocional, superando os 10% que fazem terapia com profissionais.

O levantamento também derruba a ideia de que o excesso de conexão é exclusivo dos adolescentes. Hoje, 85% do lazer dos jovens acontece no ambiente online, número próximo aos 81% entre adultos.

Na prática, pais de adolescentes chegam a consumir mais redes sociais e séries do que os próprios filhos. Ainda assim, a preocupação dos adultos se concentra mais na segurança física, citada por 24%, do que nos riscos digitais, mencionados por apenas 12%. Enquanto isso, 18% dos adolescentes relatam já ter sofrido cyberbullying.

Meninas enfrentam mais pressão e menos liberdade

A pesquisa mostra que a adolescência não é vivida da mesma forma por todos. Entre as meninas, os desafios são mais intensos. Cerca de 82% afirmam ter menos liberdade do que os meninos, enquanto 76% dizem que "são cobradas como adultas, mas tratadas como crianças". Essa desigualdade também aparece nas relações afetivas e na validação social.

O impacto emocional é significativo: 75% relatam sentir que suas emoções não são levadas a sério e 68% enfrentam ansiedade ligada à pressão por sucesso.

No campo do consumo, os adolescentes demonstram um comportamento ambivalente. Ao mesmo tempo em que cobram autenticidade das marcas e rejeitam discursos artificiais, suas escolhas seguem padrões tradicionais.

Hoje, 63% não se sentem representados pela publicidade, 64% exigem narrativas genuínas e 57% confiam mais na opinião de amigos do que em campanhas.

Ainda assim, os principais gastos continuam concentrados em roupas e acessórios, com 56%, e em comida e bebida, com 46%, evidenciando um paradoxo entre discurso e prática. Em meio a tantos conflitos, o entretenimento surge como um ponto de conexão dentro das famílias.

Assistir a séries e filmes juntos é uma das atividades mais valorizadas. Cerca de 56% dos pais compartilham esse momento com os filhos, e 94% acreditam que isso ajuda a criar memórias e fortalecer vínculos. Essa percepção também é compartilhada pelos jovens, já que 57% afirmam consumir conteúdo em família.

“O entretenimento ocupa hoje um papel estruturante na vida dos adolescentes — é onde eles processam emoções, constroem identidade e se conectam com o mundo ao seu redor. Entender essa audiência passa por observar não apenas o que eles assistem e consomem, mas o tempo de qualidade com a família e o significado que atribuem às suas histórias favoritas. Esse estudo reforça o poder do conteúdo como um espaço de conexão real, capaz de aproximar gerações e gerar relevância cultural.”, reflete Leo Khede, Diretor Sr. de Publicidade da Netflix para América Latina.

O estudo indica que a adolescência atual é atravessada por transformações estruturais. Entre pressão por desempenho, insegurança e excesso de informação, os jovens constroem suas identidades em um cenário instável.

Mais do que mapear hábitos, o levantamento aponta para uma mudança profunda na forma como essa geração se relaciona com o mundo, com a família e consigo mesma.

Confira aqui o estudo completo!

VEJA TAMBÉM: Cinco sinais de que alguém sente inveja de você

Compartilhe

Tags