Letras da Feira de Caruaru viram fonte digital e preservam identidade cultural do Agreste
Projeto transforma letreiramentos populares em tipografia contemporânea e reforça memória afetiva e valor cultural
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A estética única da Feira de Caruaru, marcada por cores, texturas e formas de comunicação próprias, agora ganha uma nova leitura no ambiente digital. O projeto Tipos da Feira nasce com a proposta de transformar os letreiramentos populares do local em uma fonte tipográfica que traduz a identidade visual e cultural de um dos espaços mais emblemáticos do Nordeste.
Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro desde 2006, a Feira de Caruaru se tornou o ponto de partida para a pesquisa conduzida pela pernambucana Cecília Távora. A iniciativa mergulha no universo visual da feira para registrar e reinterpretar elementos gráficos presentes no cotidiano de comerciantes, barracas e ambulantes.
O trabalho foi desenvolvido com apoio da pesquisadora em design Fátima Finizola, referência nacional na área tipográfica, além da colaboração de Junitti Júlio, Ythalla Maraysa e Palloma Paulino. Juntos, eles percorreram a feira entre 2024 e 2025, documentando e analisando diferentes estilos de escrita manual encontrados no local.
A partir desse levantamento, surgiu a “Feira Font”, uma tipografia digital construída com base nos traços observados. O conjunto reúne letras, símbolos e variações que mantêm a espontaneidade dos letreiramentos originais, incluindo uma relação mais livre entre maiúsculas e minúsculas, o que amplia as possibilidades de uso sem perder a coerência visual.
Segundo Junitti Júlio, esses elementos fazem parte de um cenário urbano que resiste ao tempo.
“Quando caminhamos pela cidade percebemos essas manualidades que resistem no cenário urbano, seja pela presença do artesanato, seja pelo vínculo afetivo que despertam. Em comércios, barracas e entre ambulantes, persistem placas e sinalizações feitas à mão, com funções informativas e comerciais. Esses elementos, compreendidos como letreiramentos populares, carregam identidade e cultura de forma visual e se inserem em um campo estético recorrente nos estudos sobre paisagem tipográfica e cultura nordestina: o vernacular”, explica.
Mais do que um exercício de design, o projeto também se posiciona como ferramenta de difusão cultural. A proposta é levar essa linguagem visual para além do espaço físico da feira, aproximando o público desse repertório por meio das redes e de plataformas digitais. O perfil @tiposdafeira já reúne parte desse conteúdo e, em breve, um site oficial deve disponibilizar o download da fonte e uma versão digital do fotolivro que documenta o processo.
Para Cecília Távora, a experiência vai além da pesquisa acadêmica e se conecta diretamente com memória e pertencimento. “Quando o Tipos foi aprovado, poder voltar à feira e realizar a pesquisa foi, muitas vezes, sentir o toque dessa autenticidade, do calor humano e da identidade cultural que esses ‘arquivos vivos’ — que são as letras — promovem”, destaca.
Afeto como base do projeto
O nome Tipos da Feira não surge por acaso. Ele reflete a diversidade que define o espaço, reunindo diferentes perfis, vivências e expressões. Assim como a feira é composta por múltiplas experiências, os letreiramentos também carregam essa pluralidade, com traços livres, intuitivos e criativos que constroem uma identidade visual própria.
Ao transformar esse repertório em tipografia, o projeto cria uma ponte entre tradição e contemporaneidade, preservando uma estética popular enquanto amplia seu alcance para novos contextos e gerações.