Thai de Melo transforma a própria história em cena e emociona com espetáculo que chega ao Recife
A atriz transforma vivências, identidade e comunicação em cena e leva ao Recife um espetáculo marcado por emoção e novas descobertas
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Existem histórias que não seguem linha reta: elas se reinventam no meio do caminho. A de Thai de Melo é uma dessas. Entre recomeços silenciosos, rupturas íntimas e descobertas inesperadas, a comunicadora foi desenhando, pouco a pouco, uma trajetória marcada pela reinvenção. Mais que mudanças externas, esse percurso revela um processo profundo de transformação, autonomia e da coragem de ocupar espaços que, em outro momento, sequer pareciam possíveis.
Ainda assim, essa trajetória não nasceu apenas de escolhas planejadas, mas também de urgências que se impuseram com o tempo. Foi nesse cenário que surgiu a necessidade de assumir o controle da própria vida: não como um ideal distante, mas como uma decisão concreta. A busca pela independência deixou de ser apenas um desejo e passou a ser uma virada de chave, capaz de redefinir não só os caminhos, mas também como ela se reconhece no mundo.
Sem saber exatamente por onde começar, Thai se lançou ao desconhecido. Entre inseguranças e crenças limitantes, o primeiro passo foi, antes de tudo, acreditar que era possível aprender, mesmo quando lhe ensinaram o contrário.
"Comecei a trabalhar aos 30, para assinar o meu próprio cheque, porque eu acho que só com o nosso próprio dinheiro a gente é dona do último 'sim'", revela. "Fui trabalhar, não sabia o que eu queria fazer da vida, nem sabia se sabia fazer alguma coisa, porque uma das coisas que me ensinaram é que eu era burra. Então comecei a procurar alguma coisa e sempre me interessei muito por roupa".
Foi nesse interesse, aparentemente simples, que nasceu um caminho. Mais que moda, Thai buscava uma forma de traduzir quem era, mesmo sem ainda ter todas as respostas. Só que, o que começou como uma tentativa prática, logo ganhou novas camadas. A curiosidade sobre as histórias por trás das roupas levou Thai a criar personagens, narrativas e, sem perceber, um universo para chamar de "seu".
"Quando eu entrei nos provadores que faziam na internet, eu sempre queria saber quem era aquela mulher daquela roupa, aonde ela ia, o que ela falava, o que ela pensava. E aí comecei a fazer uns sketches para bater a cota, e isso acabou tomando uma proporção maior que imaginei", conta Thai.
O crescimento foi natural e quase que inevitável. Entre conteúdos, marcas e reconhecimento, surgiu também um momento decisivo: escrever uma peça de teatro... Mas não foi tão simples assim. Ela conta que, ao ser convidada para uma entrevista em um jornal de São Paulo, se viu diante de uma pergunta sobre os próximos projetos. Sem ter uma resposta naquele momento, acabou dizendo que estava desenvolvendo uma peça de teatro.
A ideia surgiu de forma impulsiva e chegou até a pensar em mencionar algo ligado à moda, mas a resposta já tinha sido dada e, para sustentar a fala, afirmou ainda que se tratava de um monólogo. E foi assim que, com uma resposta improvisada, a vida de Thai ganhou um novo sentido: ela começou a enxergar aquilo como uma possibilidade real e decidiu seguir por esse caminho, mesmo sem saber se teria algum tipo de garantia.
As ideias também foram surgindo: ao perceber o movimento constante de criadores migrando para o digital, ela decidiu fazer o caminho inverso: levar para o teatro uma personagem que nasceu na internet.
"Comecei a achar interessante todo mundo indo para internet e fazer o caminho inverso, que é de adaptar uma pessoa que nasceu na internet para o teatro, o lugar mais analógico que existe. É a reabilitação do analógico, porque até o cinema, quando você vai hoje em dia, ainda tem alguém mexendo no celular. No teatro, realmente, isso não pode existir. E é outra linguagem", completa Thai de Melo.
A escolha pelo palco também se conecta diretamente com a relação que ela possui com a comunicação. Movida pela curiosidade e pelo desejo constante de aprender novas formas de se expressar, Thai mergulhou em um processo que, mesmo que fosse desafiador, se mostrou transformador desde o início.
"Acredito muito na comunicação. Amo aprender formas de me comunicar, novas formas de me comunicar. Então, o processo da peça foi muito bonito, desesperador, mas muito bonito, porque eu nunca tinha subido num palco. Acho que o meu inconsciente, na hora que pôde me pregar uma peça, literalmente, me pregou. Eu acabei mentindo, depois acabei achando interessante e fiz. Foi a coisa mais desesperadora, mais bonita que eu já vivi", afirma.
A influenciadora também destaca o quanto o encontro com o teatro também está ligado ao tempo e à maturidade. Para ela, descobrir o palco aos 40 anos carrega um significado especial, não apenas pela novidade, mas pela consciência que construiu ao longo da vida.
"Teatro é uma coisa muito única e eu descobri agora aos 40 anos, o que eu acho também muito bonito eu ter descoberto isso agora. Talvez, em outro momento, eu não tivesse a maturidade que, pelo menos eu preciso hoje, para existir no ao vivo, para dar conta de tudo isso sozinha no palco. Eu não teria essa maturidade, a vida foi boa comigo", revela.
Com direção de Bruno Guida e produção de Dani Angelotti, o espetáculo se constrói como "autoficção" - definição dada pela própria Thai. Em cena, ela guia o público por uma narrativa que mistura vivências pessoais, provocações e reflexões, equilibrando humor e emoção sempre com cuidado cênico.
Ao longo do espetáculo, temas como maternidade, casamento, carreira, expectativas sociais, traumas, memórias de infância e a influência da internet na formação da identidade contemporânea se entrelaçam de forma sensível e instigante.
Thai de Melo também resgata as origens de forma simbólica e afetiva, levando para o palco não apenas a trajetória pessoal, mas também um pedaço do lugar de onde veio. Em um dos momentos da peça, ao exibir a bandeira de Roraima, ela provoca uma identificação que ultrapassa a cena e toca diretamente no público - especialmente entre aqueles que raramente se veem representados de maneira positiva.
"Durante a peça eu puxo uma faixa de Roraima e eu acho que a coisa mais bonita que aconteceu na primeira temporada foram as mensagens que recebi de pessoas de Roraima dizendo que pela primeira vez elas tinham visto uma notícia boa do Estado. Uma coisa boa, uma pessoa que de certa forma estava enchendo o teatro em São Paulo e isso me emociona muito porque é uma construção de uma autoestima de um Estado. E que realmente o norte, infelizmente, ainda não é visto, então eu realmente fico muito emocionada, muito lisonjada e muito feliz de trazer um pouco do que vivi", expõe a atriz.
Esse sentimento de pertencimento e orgulho aparece também na forma como ela fala sobre a formação cultural, construída a partir de experiências e referências diversas, que hoje atravessam identidade e trabalho artístico. Em conversa com uma amiga recifense, ela refletiu sobre o quanto a origem que ela tem moldou quem ela é - e como isso é transformado no palco.
A repercussão do espetáculo também levanta discussões sobre visibilidade e representação, ainda mais quando se trata de regiões historicamente marginalizadas no cenário midiático brasileiro. Para Thai, esse movimento está diretamente ligado às transformações proporcionadas pela internet, que ampliou o acesso e deu voz a diferentes realidades.
"Eu agradeço muito a internet. E o lado lindo da internet é dar voz a muitas pessoas que em outros momentos jamais teriam uma chance, e hoje, ela, com o próprio celular, mesmo com o algoritmo e com certas coisas, possui uma chance maior que antigamente", comenta.
A comunicadora destaca ainda que esse novo cenário tem permitido uma maior circulação de culturas e identidades dentro do próprio país, criando conexões que antes eram mais difíceis de acontecer.
"Essas pessoas estão dando mais acesso minimamente a ter a exposição dos seus talentos. Eu sou uma apaixonada e eu adoro ver os passinhos do TikTok, conhecer todas as culturas, o frevo, todas as músicas. Eu sou uma fascinada pela internet e eu acho que o Brasil também está se amando muito, porque, através da internet, estamos finalmente conectados, porque não somos um país, somos praticamente um continente", diz Thai.
Às vésperas de subir ao palco na capital pernambucana, Thai de Melo revela que a expectativa para o encontro com o público de Recife é bastante alta e carregada de sensibilidade. Para ela, cada apresentação é única, atravessada pela energia da cidade e pelas trocas que acontecem ao vivo, diante de uma plateia diferente a cada noite.
"Eu posso dizer que eu estou com uma expectativa muito grande, porque cada dia é um dia realmente, assim como a vida. E cada dia que abre a cortina eu sinto a cidade. Isso é a coisa mais interessante de perceber: que existe uma energia única, que me impacta, e existe essa troca. Eu tô muito ansiosa para conhecer o Recife e as pessoas daqui", conclui.
No Recife, o espetáculo "Como É Que Eu Vim Parar Aqui?", com Thai de Melo, será apresentado no Teatro Luiz Mendonça, com classificação indicativa de 14 anos e duração de 55 minutos. As sessões acontecem nos dias 21 e 22 de março, sendo no sábado às 20h e no domingo às 18h, marcando a passagem da turnê pela capital pernambucana.