Dos beats e bits, o som do Recife: O nascimento do brega funk nos computadores da periferia
Contato das periferias a computadores cumpriu papel fundamental na formação de um dos ritmos que já virou símbolo da capital pernambucana.
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Na era do digital, o som da periferia recifense também ficou mais eletrônico. Com seus vocais distorcidos e beats frenéticos, o brega funk conquistou muito mais que a capital pernambucana. Músicas de nomes como Anderson Neiff, MC Troia, MC Thammy, Lomma e Dadá Boladão ganharam o Brasil e influenciaram também a cena musical além de Pernambuco, de Pedro Sampaio a Kevin O Chris.
Se hoje o mundo inteiro dança o Passinho do Jamal da Capital, é porque produtores musicais modelaram o brega funk, em vários casos, a partir de computadores nas comunidades do Recife, sem nunca terem pisado em uma escola formal de música. Em meio ao crescente acesso à tecnologia, eles criaram um novo jeito de fazer música a partir de teclados, mouses e monitores, que tornam o sonho de viver da arte mais próximo.
Revolução sonora e eletrônica
Em meados dos anos 2000, artistas como Shevchenko, Elloco e MC Tocha surgem dos bailes de corredor e de galera do Recife, inspirados pelo funk de outros estados. Diante da perseguição policial e da violência nos eventos, nomes como MC Leozinho recalculam a rota. Inicia-se uma aproximação com o brega romântico pernambucano, que já dispunha de uma estrutura mais favorável para tirar o sustento da música, com espaço para performances na TV e em casas de shows.
Musicalmente, o diálogo entre a cena dos bailes e o brega se inicia por volta de 2009, com faixas como “Dois Corações”, parceria de Leozinho com DJ Serginho, ainda com instrumentos musicais tradicionais. GG Albuquerque, jornalista e pesquisador da música das periferias brasileiras, aponta que faixas como “Melô do Amigo Safado”, de MC Metal e Cego, introduzem elementos definidores do brega funk: as sonoridades eletrônicas e os instrumentos virtuais. “São MCs cantando brega romântico e combinando os instrumentos do gênero com alguns elementos da batida eletrônica do funk”, define.
Isso ocorre, a princípio, por meio do teclado, que pode reproduzir os sons de instrumentos como baixo e bateria. Mas a grande virada desponta com as DAWs (Digital Audio Workstations, ou Estações de Trabalho de Áudio Digital).
Trata-se de programas bastante completos de edição e mixagem com instrumentos virtuais, como o Ableton e o FL Studio. “Essas ferramentas têm outra lógica de composição. Você não cria pelos parâmetros tradicionais de melodia, harmonia e ritmo. Foram feitas para pessoas que não são músicos”, destaca GG. “É uma lógica mais gamificada [semelhante a videogames], se aproxima até da lógica de edição de vídeo. Isso muda muito a forma de pensar o que é compor”.
As DAWs expandem possibilidades criativas e materiais, aproximando talentos promissores da periferia com a prática da produção musical sem a necessidade de uma gravadora. Elas permitem inovações sonoras que não costumavam ser abraçadas pelos grandes estúdios musicais e que antes não poderiam ser efetivadas sem o acesso a um estúdio profissional, que é bastante custoso. Cria-se uma lógica paralela ao grande mercado fonográfico, sintoma de uma transformação social mais profunda que ocorria no país.
“Não podemos dissociar isso da transformação socioeconômica do Brasil. O uso de softwares de produção têm um aumento a partir dos anos 2000, que é também quando as classes C, D e E passam a ter acesso a smartphones e computadores”, pontua GG. Foi o período do boom das lan houses e de programas estatais de incentivo fiscal que fomentavam o acesso de pessoas com menor poder aquisitivo a computadores.
Uma escola de música diferenciada
O acesso ao digital foi fundamental para jovens como Caio Moraes de Santana, do Alto da Mandu, bairro da zona norte recifense. O garoto que começou a fazer música com flauta e violão na juventude hoje é amplamente conhecido na cena local como Marley no Beat. Com mais de 26 mil ouvintes no Spotify, o produtor musical ressalta o brega funk como parte importante da sua identidade como recifense. “Sempre gostei muito de escutar outros tipos de música, só que o brega funk é o ritmo da cidade onde eu moro, o Recife. Por onde eu passava, eu escutava. Por isso decidi seguir esse rumo”, aponta.
Marley é parte de uma geração de artistas que nasce da junção entre criatividade e ferramentas acessíveis. Sua formação não consistiu em cursos pagos ou instrução formal, mas sim em programas online, tutoriais gratuitos do Youtube, e diálogos com quem, assim como ele, também estavam aprendendo. “A tecnologia democratizou o acesso à produção musical. Vários jovens com talento, que não tinham condições de ir para um estúdio, que era muito caro, produziam no computador da sua casa ou no celular, de forma independente, e compartilhavam suas músicas na internet”, observa o músico.
No terreno do brega funk, as controladoras e programas de produção ofertam possibilidades quase infinitas para a criatividade dos artistas do ritmo, que está em constante transformação. Se esse estilo musical já surgiu bebendo de várias fontes, como funk, ragga caribenho e tecnomelody, a cartela de referências hoje é ainda mais ampla. No trabalho de Marley, elas se estendem do afrobeat ao rock.
“O brega funk evoluiu muito. No começo era tudo mais simples, tinha a sua sonoridade original, de ‘lata’. Hoje em dia já tem vários outros elementos e sons, como o ‘chicote’”, aponta o artista. “O gênero passou a experimentar e dialogar com a música eletrônica, funk, trap e outros estilos, criando novas possibilidades sem perder sua essência”.
É nessa mistura que beatmakers como JS O Mão de Ouro, Dany Bala, Mano Cheffe e John Johnis seguem ampliando as fronteiras do gênero, e novos artistas não param de surgir. Um dos fenômenos recentes é o MC e produtor Gordinho Bolado. Natural de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, ele já acumula mais de 202 milhões de visualizações no YouTube.
Trocas, influências e criatividade sem limites
A riqueza sonora do brega funk é resultado direto do mix de influências na produção. As DAWs e a dinâmica da internet permitem a troca de ideias e o compartilhamento online de efeitos de voz e instrumentos. “Você tem um artista numa periferia de Pernambuco, no Ibura ou no Alto José do Pinho, utilizando o software que é usado também por alguém na periferia de Lagos, na Nigéria, na zona rural do Mali [na África] ou por alguém que produz reggaeton em Porto Rico. Tudo é muito compartilhado”, revela GG Albuquerque.
É por meio de muita inventividade que as mentes por trás das batidas driblam os limites impostos pelas ferramentas virtuais. “Essas novas musicalidades não são fruto determinista dessas novas tecnologias. Os artistas vão pôr sua personalidade e elementos próprios de suas experimentações artísticas dentro desses programas”, ressalta o especialista. Um exemplo é o já citado som da ‘lata’, presente em hits como “Tudo OK” (2019), de JS o Mão de Ouro, Mila e Thiaguinho MT, que não existia nos programas e foi criado por produtores.
Para Marley, o caminhar da tecnologia segue beneficiando o brega funk. “Vejo um grande avanço na distribuição digital nas redes sociais, que permitem que um produtor independente lance sua música e alcance pessoas no mundo inteiro sem depender das grandes gravadoras”, disse. Porém, um cenário onde tudo pode ser compartilhado também traz seus desafios. “Hoje é muito fácil copiar uma música sem autorização e distribuir na internet sem dar os créditos. Por isso é importante que os artistas conheçam seus direitos autorais e procurem registrar suas obras”, pontua o beatmaker.
A relação entre tecnologia e brega funk também atravessa um dos principais debates éticos do momento: a inteligência artificial (IA). Ela está presente em aplicativos de produção musical como o Moises, apontado por Marley como um importante aliado para quem começa a produzir brega funk. Porém, também representa uma ameaça à propriedade intelectual, por conta do uso não autorizado de músicas por parte de mega empresas para treinar IAs generativas, que podem ser usadas para construir, até mesmo, músicas do zero.
“A IA é uma ferramenta e deve ser usada para potencializar a criatividade, não para substituir o artista. Ela pode ajudar o processo e acelerar algumas etapas da produção, mas a identidade, a sensibilidade e a vivência de quem cria continua sendo fundamental”, comenta o produtor. E essas três palavras parecem ser, de fato, as corretas para definir o brega funk. Um ritmo nascido de um mundo em transformação, e definido não só pela pegada digital, mas, acima de tudo, pela potência criativa das periferias.