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Irah Caldeira: a "operária do forró" que transformou cinco reais em combustível para uma carreira de sucesso

Mineira de nascimento e pernambucana por escolha, Irah Caldeira relembra os desafios da carreira e a missão de preservar o forró tradicional.

Por Catêrine Costa Publicado em 03/07/2026 às 19:52

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Quem vê Irah Caldeira no palco dificilmente imagina que a artista precisou atravessar momentos de extrema dificuldade antes de se consolidar como uma das principais vozes do forró tradicional. E

m entrevista concedida ao Social1, em sua casa, para a série especial Acordes Juninos, a cantora abriu as portas da própria história e relembrou os desafios que marcaram sua trajetória.

Mineira de nascimento e pernambucana por escolha — e também por reconhecimento oficial —, Irah construiu uma carreira marcada pela persistência, pela defesa das raízes nordestinas e por uma rotina de trabalho que ela mesma resume em uma definição pouco comum entre artistas.

"Eu nunca me vi como uma artista deslumbrada. Sempre disse que sou uma operária da música".

Créditos: Berg Silva/ JC Imagem
Irah Caldeira - Créditos: Berg Silva/ JC Imagem

A frase sintetiza a maneira como conduz a carreira há mais de duas décadas. Horários rigorosos, disciplina, dedicação aos ensaios e atenção aos mínimos detalhes fazem parte do cotidiano de quem se considera uma eterna aprendiz. Perfeccionista, Irah afirma estar sempre em busca de melhorar o que faz.

Essa inquietação também explica a defesa incondicional que faz do chamado "forró raiz". Para ela, preservar a sonoridade construída pela zabumba, sanfona e triângulo é mais do que uma escolha artística: é uma forma de manter viva a identidade cultural nordestina.

"Se a gente perde essas referências, perde também parte da nossa história."

De Minas Gerais para Pernambuco

Foi justamente essa busca pela essência do forró que mudou completamente sua vida.

Em 1998, ainda morando em Minas Gerais, Irah decidiu viajar ao Recife para pesquisar repertório para seu primeiro trabalho profissional. A ideia inicial era permanecer apenas o tempo suficiente para conhecer compositores locais. Mas a relação com Pernambuco acabou se tornando definitiva.

Durante essa primeira passagem, insistiu em gravar uma composição que nem mesmo seu autor acreditava ter potencial. Enquanto o compositor Acioli Neto sugeria sucessos já conhecidos, ela escolheu confiar na própria intuição e gravou A Natureza das Coisas, canção que mais tarde ficaria conhecida nacionalmente pelo verso "Se avexe não". Atualmente, a música está entre as mais regravadas do forró.

O vínculo afetivo foi oficializado anos depois.

Em 2010, recebeu os títulos de Cidadã Recifense e Cidadã Pernambucana. Mais tarde, também seria homenageada pelos municípios de Tabira e Caruaru.

"Até então era eu escolhendo Pernambuco. Quando recebi esses títulos, senti que Pernambuco estava me escolhendo como filha."

Os cinco reais que mudaram tudo

Entre tantas histórias da carreira, uma permanece viva na memória da cantora.

Na época, mãe de três crianças pequenas, enfrentava uma grave crise financeira. Durante um passeio na praia, os filhos pediram um refrigerante e um picolé. Sem dinheiro, precisou negar.

A situação a abalou profundamente.

Foi então que entrou no mar para tentar aliviar a angústia.

Ao sair da água, uma nota de cinco reais, já gasta e molhada, parou exatamente em sua mão.

Com aquele dinheiro, conseguiu comprar o lanche das crianças.

Mais do que o valor financeiro, porém, Irah guarda o episódio pelo significado.

"Aquilo foi um recado de Deus para mim. Como se dissesse: 'Você nunca estará sozinha. Nunca vai faltar o necessário'".

A partir dali, ela diz ter encontrado forças para continuar acreditando na profissão.

Os frutos vieram com o tempo. Nos dias atuais soma mais de 15 álbuns gravados, mantém uma equipe com mais de 20 profissionais durante o período junino e conseguiu conquistar estabilidade financeira suficiente para comprar imóveis e garantir o futuro da família.

Abrindo espaço para outras mulheres

Construir uma carreira no forró também significou enfrentar um mercado predominantemente masculino.

Irah reconhece que a presença feminina ainda é menor nas grandes programações juninas, mas faz questão de lembrar que outras artistas abriram caminho antes dela.

Ela cita Marinês, Elba Ramalho e Amelinha como referências fundamentais para que mulheres conquistassem espaço no gênero.

"Se meu caminho foi difícil, o delas foi muito mais."

Às novas cantoras, prefere dar um conselho simples.

"Ninguém tem fórmula para o sucesso. Faça aquilo em que acredita, faça com o coração e se dedique de verdade. Assim, lá na frente, você vai olhar para trás com orgulho da própria história."

O São João como missão

Mais do que uma temporada de shows, Irah enxerga o período junino como uma responsabilidade cultural.

Em cada apresentação, procura lembrar ao público que a festa vai além do entretenimento. É uma celebração das tradições, da música e da identidade nordestina.

Créditos: Berg Silva/ JC Imagem
Irah Caldeira - Créditos: Berg Silva/ JC Imagem

Enquanto houver uma sanfona tocando, uma fogueira acesa e bandeirinhas colorindo as ruas, a "operária do forró" seguirá fazendo aquilo que considera seu maior compromisso: manter viva uma herança cultural que, um dia, acolheu uma mineira e a transformou em uma das vozes mais respeitadas do São João pernambucano.

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