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Santanna, o Cantador: o menino de Juazeiro que fez do Recife seu coração nordestino

Santanna relembra origens em Juazeiro do Norte, paixão pelo Recife e legado construído no forró nordestino ao longo da carreira

Por Catêrine Costa Publicado em 06/06/2026 às 8:00

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Por trás da voz marcante, dos versos emocionados e da defesa apaixonada da cultura popular nordestina, existe um menino de Juazeiro do Norte que cresceu sonhando com o Recife sem sequer saber "para que lado ficava”. Décadas depois, esse mesmo menino se transformou em Santanna, o Cantador — um dos nomes mais respeitados do forró tradicional e um artista que carrega no peito o orgulho de ser nordestino.

"Fui adotado por Recife, sou cidadão do Recife, graças a Deus”, resume o cantor, com a emoção de quem construiu uma relação afetiva profunda com a capital pernambucana. Torcedor declarado do Sport Club do Recife e do Icasa de Juazeiro do Norte, Santanna diz que seu coração sempre esteve dividido entre suas origens cearenses e a conexão cultural com Pernambuco.

Créditos: Renato Ramos/ JC imagem
Santanna, O Cantador - Créditos: Renato Ramos/ JC imagem

Filho de pernambucano do município de Exu, terra de Luiz Gonzaga, o cantor relembra que Juazeiro do Norte sempre teve forte ligação cultural com Pernambuco. “O nosso sotaque é de Pernambuco, a cultura popular é de Pernambuco. É ciranda, maracatu, reisado, banda de pífanos. A gente sempre teve a frente voltada para o Recife”, afirma.

Essa identificação atravessou gerações. Santanna conta que, ainda jovem, quando os moradores de Juazeiro começavam a pensar em vestibular e futuro, o destino quase sempre era Recife. Atualmente, ele se emociona ao falar da cidade que o acolheu.

“O Recife é tão abençoado que o São João do Recife acontece dentro de um sítio, no Sítio Trindade. Tem coisa mais bonita e homogênea do que isso?”, diz.

O palco do Sítio Trindade e a relação com o público

A relação entre Santanna e o Sítio Trindade se tornou praticamente institucional ao longo dos anos. O cantor lembra que foi convidado ainda na gestão do ex-prefeito João Paulo para se apresentar no tradicional polo junino e, desde então, virou presença aguardada pelo público.

“Já falam logo: ‘Santanna no Sítio Trindade’. Isso virou uma tradição”, comenta.

Mais do que subir ao palco, Santanna vive cada apresentação como uma experiência emocional única. Para ele, mesmo cantando as mesmas músicas há anos, o sentimento nunca se repete.

“Você canta a mesma música, mas é outro sentimento, outra emoção. É como o pôr do sol: nenhum é igual ao outro”, define.

A conexão com o público, segundo ele, é o que dá sentido à carreira construída ao longo de décadas. “Ver nos olhos das pessoas a lágrima, o sorriso, elas cantando junto… isso não tem preço”, afirma.

Durante os shows, o artista também costuma recitar versos e poesias. E se impressiona ao perceber que muitos fãs acompanham cada palavra.

“Cantar o refrão é normal, mas recitar os versos junto comigo… isso me emociona muito”, conta.

Créditos: Renato Ramos/ JC imagem
Santanna, O Cantador - Créditos: Renato Ramos/ JC imagem

O aluno de Luiz Gonzaga

Santanna faz questão de se definir como um “cantor popular” e “brincante da cultura popular”. O forró que ele defende é o forró tradicional, inspirado diretamente em Luiz Gonzaga.

“Sou aluno e seguidor de Luiz Gonzaga e me sinto muito feliz por isso”, diz.

Ao longo da conversa, ele reforça diversas vezes a importância da valorização da cultura nordestina e do protagonismo do povo da região.

“Nós nordestinos temos que ser protagonistas da nossa história. Temos uma cultura que não existe em nenhum lugar do mundo, só aqui”, defende.

Para o cantor, a força das festas juninas é justamente o diferencial cultural do Nordeste. “A nossa festa junina se tornou desse tamanho porque é diferente. Só tem aqui”, afirma.

Santanna acredita que a cultura popular nordestina ainda terá o reconhecimento que merece. “Ela ainda vai ter a importância e a grandeza que merece”, projeta.

A música que esperou 30 anos

Entre tantos sucessos da carreira, uma canção ocupa um lugar especial: “Ana Maria”. Santanna revela que ouviu a música pela primeira vez ainda criança, aos 12 anos, em um disco do grupo Os Três do Nordeste.

“Ela me arrebatou”, relembra.

Na época, ele jamais imaginava que aquela se tornaria a música de sua vida. Anos depois, já cantor, gravou a canção e viu o sucesso explodir.

“Descobri que a música escolhe o intérprete. Essa música esperou 30 anos por mim”, diz.

O cantor acredita que algumas canções têm destino certo. Para ele, o sucesso tardio de “Ana Maria” é uma prova disso.

“Ninguém regravou essa música durante todo esse tempo. Aí ela vem comigo e acontece daquela maneira. É um mistério”, afirma.

O mesmo aconteceu com “Tamborete de Forró”, eternizada em sua voz após também ter sido gravada anteriormente por Luiz Gonzaga sem alcançar grande repercussão.

João Gomes e a nova geração do forró

Durante a entrevista, Santanna também falou sobre artistas da nova geração que ajudam a manter o forró vivo e atravessar diferentes públicos. Entre eles, destacou o sucesso de João Gomes, que conseguiu ampliar ainda mais o alcance da música nordestina pelo país.

Para Santanna, o forró continua rompendo barreiras e “furando bolhas”, chegando a públicos cada vez maiores sem perder a essência popular.

“Ele furou a bolha e vive furando bolha por tudo que é lugar”, comentou Santanna, ao se referir ao sucesso de João Gomes e à capacidade do cantor de levar o forró para diferentes públicos pelo Brasil.

Mesmo sendo defensor do forró tradicional inspirado em Luiz Gonzaga, Santanna acredita que a renovação do gênero é importante para manter a cultura popular viva entre as novas gerações.

Poesia, humor e verdade

Além das músicas, Santanna também carrega no palco o humor e a poesia popular nordestina. Durante a entrevista, relembrou versos e histórias curiosas da carreira.

Uma delas aconteceu em um hospital de Caruaru. Enquanto visitava um parente, foi confundido com o cantor Flávio José.

“Eu disse: ‘O senhor está enganado’. E a pessoa respondeu: ‘Tu quer saber mais do que eu?’”, conta aos risos.

Em outra situação, precisou comprar o próprio ingresso para entrar em um show beneficente onde seria a atração principal.

“Eu estava sem a minha indumentária e o bilheteiro não acreditou que eu era eu mesmo”, lembra.

Apesar das histórias engraçadas, Santanna fala da profissão com seriedade e paixão. Diz que nunca soube medir sua importância para a cultura nordestina, mas garante que sempre foi verdadeiro em tudo o que fez.

“Quem tem que dizer se eu tenho importância ou não é o povo”, afirma.

Créditos: Renato Ramos/ JC imagem
Santanna, O Cantador - Créditos: Renato Ramos/ JC imagem

O sonho continua

Aos olhos do público, Santanna se consolidou como uma das grandes vozes do forró tradicional. Mas ele prefere se apresentar de forma simples: “Sou um simples cantor popular”.

A simplicidade, no entanto, não diminui o tamanho do legado construído ao longo da carreira. Entre shows históricos, versos emocionados e defesa incansável da cultura nordestina, Santanna segue acreditando no poder do forró e da identidade cultural do Nordeste.

“Eu respeito muito a minha nação nordestina, meu povo, minha gente. O nordestino tem uma inteligência emocional enorme”, diz.

E é justamente essa conexão com o povo que mantém vivo o sonho do menino de Juazeiro do Norte que um dia desejou pertencer ao Recife.

“Eu continuo acreditando nesse sonho e vou até onde Deus me permitir.”

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