Restaurantes sem crianças: debate sobre tendência “adults only” chega à gastronomia

Uma pesquisa aponta que 75% dos consumidores apoiam ambientes gastronômicos sem crianças, gerando discussões sobre hospitalidade e convivência.

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Uma pesquisa recente realizada nos Estados Unidos pela Lightspeed Commerce reacendeu uma discussão global que começa a ecoar no cenário gastronômico brasileiro: a criação de áreas ou horários exclusivos para adultos em restaurantes. De acordo com o levantamento, 75% dos consumidores apoiam algum formato de experiência gastronômica sem a presença de crianças, com destaque para jantares românticos, ambientes noturnos e estabelecimentos focados em coquetelaria.

Para a chef Cândida Batista, que atua em Viena e acumula passagens por cozinhas do circuito Michelin, o tema não deve ser tratado como rejeição, mas como uma reflexão sobre a proposta de cada casa e as diferentes ocasiões de consumo.

O ambiente como parte da experiência gastronômica

Segundo Cândida, a experiência em um restaurante vai além do prato servido à mesa. Elementos como o ritmo do serviço, a iluminação, o som, a privacidade e a expectativa do cliente integram a entrega final do estabelecimento. Em formatos específicos, como menus degustação ou casas com foco em alta gastronomia, a atmosfera do salão assume um peso relevante para o público que busca um momento mais contemplativo.

A chef explica que a discussão envolve a adequação ao conceito do espaço. “Não se trata de rejeitar crianças. A questão é preservar a experiência dos outros clientes. Uma criança que consegue estar à mesa, participar da refeição e entender o ambiente não costuma ser o problema. O incômodo acontece quando a criança fica com iPad em volume alto, circula pelo salão ou não consegue permanecer sentada por muito tempo. Nesse caso, ela não aproveita a experiência e também pode tornar a experiência ao redor desagradável”, afirma.

Alternativas e segmentação no setor

O debate aponta que a criação de experiências segmentadas não significa necessariamente uma proibição absoluta. Alternativas como a definição de horários majoritariamente noturnos, áreas reservadas ou eventos específicos voltados para adultos surgem como caminhos intermediários para os estabelecimentos, evitando medidas radicais de veto a famílias.

No mercado brasileiro, a tendência do modelo “adults only” exige cautela na comunicação para evitar interpretações ligadas à discriminação. Cândida Batista defende que o assunto seja tratado com equilíbrio pelas empresas do setor.

“Hospitalidade também é saber receber públicos diferentes em momentos diferentes. O ponto não é excluir, mas entender que nem toda experiência gastronômica tem a mesma finalidade. Um restaurante familiar, uma trattoria de domingo, um bar de coquetéis e uma casa de menu degustação não entregam a mesma experiência”, avalia a profissional.

Para o setor, o cenário futuro sinaliza para uma definição mais clara das propostas de atendimento, pautada pela transparência com o público. “O restaurante precisa saber qual experiência quer oferecer e comunicar isso com cuidado. Existem espaços em que a presença de crianças faz parte da vida da casa, e existem ocasiões em que o cliente procura silêncio, tempo e intimidade. A gastronomia é feita de comida, mas também de ambiente, intenção e expectativa”, conclui a chef.

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