Milei, Trump, Maduro e mais, como a pressão externa impacta a eleição brasileira
Debate da Rádio Jornal avaliou como tarifaço, vídeo do Departamento de Estado e crise com Buenos Aires podem pesar no voto de outubro
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A campanha eleitoral no Brasil começa oficialmente no domingo (16) e chega em meio a um ambiente de pressão externa. Tarifas americanas sobre produtos brasileiros, um vídeo do Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre "domínio" na América Latina, o visto suspenso da embaixadora brasileira em Washington e a ida e volta de embaixadores entre Brasília e Buenos Aires formam o pano de fundo da disputa.
O quanto isso mexe com o eleitor foi o tema do Debate da Supermanhã desta quarta-feira (12), na Rádio Jornal, que reuniu o doutor em Direito e professor do Centro Universitário Tiradentes Álvaro de Oliveira Azevedo Neto; a doutora em Ciência Política e professora de Relações Internacionais Maria Gabriela Mazarella; e o cônsul honorário de Malta e professor da Universidade do Norte da Flórida, Thales Castro.
A professora Maria Gabriela Mazarella chamou atenção para o vídeo em que o Departamento de Estado dos EUA afirma que o domínio dos norte-americanos na América Latina não será mais questionado, citando a prisão de Nicolás Maduro.
Na esteira da publicação, um deputado americano divulgou uma montagem que coloca o rosto de Lula sobre a imagem de Maduro preso. "Pode ser uma ameaça. Ou, na verdade, uma tentativa de intimidar, porque as nossas eleições estão se aproximando", avaliou.
Para ela, o vocabulário do vídeo reativa a velha imagem da região como quintal dos Estados Unidos e mexe mais com a opinião pública do que a própria discussão tarifária, a menos de dois meses do primeiro turno.
A defesa da soberania, lembraram os debatedores, já virou bandeira de palanque e deve aparecer no guia eleitoral.
Milei, farpas e os embaixadores de volta em casa
O tabuleiro sul-americano entrou na conta pelo mesmo caminho. Javier Milei veio ao Brasil, chamou Lula de ladrão e criticou o ministro Alexandre de Moraes, enquanto o ministro Dario Durigan, em entrevista à Rádio Jornal, devolveu chamando o argentino de "palhaço".
Em seguida, os embaixadores dos dois países foram chamados de volta às respectivas capitais. Álvaro de Oliveira Azevedo Neto lembrou que o Mercosul só saiu do papel com Paraguai e Uruguai funcionando como amortecedores entre Brasília e Buenos Aires. "Brasil e Argentina já são, vamos colocar aqui, frenemies, amigos e inimigos, há muito tempo", disse o professor.
Na avaliação dele, o episódio é menos sobre comércio e mais sobre a tentativa de influenciar qual projeto político brasileiro sai vitorioso nas urnas.
O visto da embaixadora e o impasse do agrément
O caso mais atípico é o da embaixadora Maria Ribeiro Viotti, que teve o visto revogado pelos EUA e continua no cargo. A retaliação veio depois da demora do Itamaraty em conceder o agrément, a autorização para que o indicado de Donald Trump, o deputado Daniel Pérez, assuma a embaixada em Brasília.
A Convenção de Viena de 1961 não fixa prazo para essa resposta, e o rito clássico para quem perde o visto seria a declaração de persona non grata, com 48 a 72 horas para deixar o país. Nada disso aconteceu.
"Está uma coisa tão exótica, um maracatu mal ensaiado, que verdadeiramente a gente está sem entender o contexto", afirmou Thales Castro.
Ele avalia que a liberação do nome do embaixador americano dificilmente sai nas próximas semanas, o que tende a esticar a corda até o período de campanha.
Pix e tarifaço no bolso do eleitor
A base jurídica da sobretaxação é a Seção 301 da lei de comércio dos Estados Unidos, dos anos 1970, e o Pix, lançado em 2021, aparece entre as justificativas. Na leitura de Thales Castro, a alegação não se sustenta do ponto de vista técnico.
na visão do analista o que existe é a perda de espaço de bandeiras de cartão de crédito americanas num mercado em que elas tinham ampla predominância, com efeito direto sobre as maquininhas e sobre o hábito do pagamento instantâneo.
"Toda história de sucesso, ela incomoda. E a arena para a resolução de antagonismos é a arena da política e da interação diplomática", disse o professor.
O sistema (pix) já começa a ser aceito por vizinhos do Mercosul, e o Banco Central estuda ampliar essa integração, movimento lido no programa como possível recado brasileiro em meio à queda de braço.
Para Álvaro de Oliveira Azevedo Neto, o Brasil convive com concessões desde os chamados tratados desiguais, ainda no século 19, mas a diferença agora é a motivação política declarada.
A resposta prática já está em curso, com exportadores atrás de outros compradores enquanto o mercado americano sente falta do café e do açúcar brasileiros. "Não quer brincar comigo, arruma outra pessoa para brincar", resumiu.
Rompimento fora do horizonte
Um ouvinte da Rádio Jornal perguntou no Debate se um rompimento com os Estados Unidos abriria caminho para uma invasão. Thales Castro classificou a hipótese como remota e lembrou que os EUA foram o primeiro país a reconhecer a independência brasileira, em 1824, e que o consulado americano no Recife é de 1815, um dos mais antigos do hemisfério.
"A agenda bilateral é tão densa que você não pode pinçar um determinado item apenas e, para pinçá-lo, implodir toda a ponte", disse, citando agricultura, direitos humanos, comércio exterior, propriedade intelectual e combate ao narcotráfico entre os temas em jogo.
Outro trunfo apareceu por provocação da audiência, com uma pergunta sobre as terras raras. Segundo Thales Castro, o Brasil tem cerca de 22% das reservas provadas de minerais críticos, atrás apenas da China, com algo entre 38% e 42%.
A recomendação feita no programa é que o eleitor acompanhe como os candidatos pretendem regulamentar e explorar essas reservas, tema que já aparece em falas de pré-candidatos.