Durigan diz que governo entregará contas melhores ao próximo presidente e descarta recessão em 2027
Em entrevista ao Passando a Limpo, ministro da Fazenda afirmou que principal desafio da economia é reduzir os juros e negou risco de crise fiscal
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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (27), em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, em entrevista à Rádio Jornal, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrará o mandato com as contas públicas em situação melhor do que a encontrada em 2023. Durigan descartou a possibilidade de uma recessão da economia brasileira em 2027 e defendeu que o principal desafio do País atualmente é reduzir a taxa de juros.
Ao longo de quase uma hora de entrevista, Durigan defendeu a condução da política fiscal da gestão Lula, comentou a trajetória da dívida pública, falou sobre a tributação das compras internacionais, criticou o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos, classificou o presidente da Argentina, Javier Milei, como "palhaço", e comentou a situação do Banco de Brasília (BRB).
Segundo ele, o cenário fiscal deixado para o próximo presidente será mais sólido do que o herdado pelo governo Lula.
"Esse ano não vai ter quebra-quebra, boicote à eleição. Vamos fazer uma transição com respeito às instituições, reforçando e melhorando as contas do País", afirmou.
Ministro descarta recessão e diz que economia continuará crescendo
Um dos principais temas abordados durante a entrevista foi a perspectiva para a economia brasileira nos próximos anos. Durigan rejeitou projeções de que o Brasil possa entrar em recessão em 2027 caso não sejam aprovadas novas medidas de ajuste fiscal.
Segundo o ministro, o crescimento econômico poderá desacelerar em razão da manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado, mas isso não significa uma retração da atividade econômica.
"Não existe essa possibilidade", afirmou ao ser questionado sobre um eventual cenário recessivo.
Ele lembrou que, ainda em 2022, integrantes do governo anterior previam uma deterioração da economia brasileira após a eleição de Lula.
"Em 2022 diziam que o Brasil ia virar a Venezuela, que o risco Brasil ia explodir, que o dólar ia disparar."
Como contraponto, Durigan destacou que o dólar caiu em relação ao início do governo, o risco-país está entre os menores níveis da série recente e o País registra inflação controlada, desemprego em mínima histórica e resultados positivos na balança comercial.
Para o ministro, as previsões mais pessimistas sobre a economia têm caráter eleitoral.
"Não dá para entrar na onda dessas pessoas que dizem que vai virar um apocalipse", disse.
Segundo ele, a expectativa do governo é de crescimento próximo de 2% em 2027, índice inferior ao registrado nos últimos anos, mas ainda positivo.
"Como os juros estão altos, a economia tende a desacelerar. Não é recessão. Falar em recessão é um exagero", destacou.
Durigan chama Milei de "palhaço" e compara Brasil e Argentina
Ao comentar as previsões pessimistas para a economia brasileira, Durigan também criticou declarações do presidente argentino Javier Milei, que esteve no Brasil no fim de semana para participar do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).
"O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou de Brasil, quando o risco país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta", afirmou.
Segundo o ministro, a comparação entre os dois países demonstra que os indicadores econômicos brasileiros apresentam desempenho superior ao argentino.
Além do risco-país inferior, Durigan citou a inflação sob controle, o desemprego em mínima histórica, o fortalecimento da balança comercial, a safra agrícola recorde e a redução do desmatamento como evidências da melhora do cenário econômico nacional.
Para o ministro, esse conjunto de indicadores contradiz avaliações de que a economia brasileira estaria caminhando para uma deterioração semelhante à enfrentada pela Argentina.
Juros são principal desafio da economia, diz Durigan
Embora tenha descartado um cenário de crise fiscal, o ministro reconheceu que o Brasil ainda enfrenta problemas estruturais, especialmente em relação aos juros elevados e ao endividamento público.
"O que é verdade é que os juros do País seguem altos e o endividamento segue alto", disse.
Segundo Durigan, a elevada taxa de juros afeta diretamente empresas, produtores rurais e consumidores que dependem de crédito.
"O empreendedor que vai ao banco pegar crédito vê esses juros e se assusta."
Para reduzir esse custo, o ministro defendeu a continuidade do ajuste fiscal, a redução gradual das despesas obrigatórias e medidas de modernização do Estado.
Ele afirmou que o governo pretende manter a regra fiscal vigente e, se necessário, aperfeiçoá-la para reforçar a confiança do mercado e permitir que o Banco Central reduza os juros.
"O importante é mostrar que o País tem uma trajetória sustentável."
Governo afirma que contas públicas estão equilibradas desde 2024
Durigan também rebateu críticas de que o governo federal estaria promovendo expansão excessiva dos gastos públicos. De acordo com o ministro, o déficit registrado em 2023 decorreu principalmente do pagamento de despesas herdadas da gestão anterior, como precatórios represados e compensações a estados pelas perdas de arrecadação do ICMS.
"O déficit de 2023 foi resultado do pagamento de precatórios que estavam atrasados e da compensação aos governadores."
Segundo o ministro, a partir de 2024 as contas passaram a registrar equilíbrio fiscal.
"Temos um limite de gastos e as contas públicas estão equilibradas desde 2024."
Durigan afirmou ainda que o aumento da arrecadação ocorreu principalmente pela revisão de benefícios tributários concedidos anteriormente.
"O governo arrecada mais hoje porque na gestão anterior deixou de abrir mão de receitas em favor de lobbies e interesses privados."
Ao comentar reportagens que apontam preocupação com o cenário fiscal, o ministro afirmou que o principal problema da economia brasileira não está nas contas públicas.
"O problema do Brasil hoje é a taxa de juros. Ela, sim. Não o resultado fiscal."
Dívida pública exige atenção, mas está sob controle
Durante a entrevista, Durigan também comentou a trajetória da dívida pública. Ele reconheceu que o percentual atual, próximo de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda é elevado para os padrões brasileiros, mas argumentou que permanece inferior ao observado em diversas economias desenvolvidas.
Segundo o ministro, as projeções do Tesouro Nacional indicam estabilização da dívida ao longo dos próximos anos, seguida por uma redução gradual da relação entre dívida e PIB a partir da próxima década.
Ele atribuiu o crescimento do endividamento principalmente ao elevado custo dos juros pagos pelo governo.
"Como já não há déficit primário, o que explica o aumento da dívida hoje é o pagamento dos juros."
Taxa das blusinhas: Governo monitora compras internacionais e não descarta rever tributação
Questionado sobre a chamada "taxa das blusinhas", Durigan afirmou que o governo acompanha mensalmente o comportamento das compras internacionais realizadas por plataformas de comércio eletrônico.
Segundo ele, antes da criação do programa Remessa Conforme havia falta de controle sobre essas importações, com mercadorias entrando no País sem fiscalização adequada e, em muitos casos, sem recolhimento de tributos.
"O que existia era uma completa anarquia."
O ministro explicou que a redução da alíquota para determinados produtos faz parte de um período de monitoramento para avaliar seus efeitos sobre a concorrência com a indústria nacional. Caso sejam identificadas distorções, o governo poderá rever novamente a tributação.
"Estamos acompanhando mês a mês. Se houver falta de isonomia, a alíquota pode ser alterada."
Durigan afirmou que esse tema foi discutido recentemente com representantes do Polo de Confecções de Pernambuco.
Tarifaço, China e BRB
Nos minutos finais da entrevista, o ministro também comentou o aumento das tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos.
Ele classificou como "completo absurdo" o tarifaço anunciado pelo governo norte-americano e criticou setores da oposição brasileira por buscarem apoio internacional para pressionar o governo federal.
"Acho que uma parte da oposição, como não encontra apoio aqui, vai buscar interferência externa."
Segundo Durigan, a relação comercial com a China permanece estratégica para o Brasil e deve ser preservada, especialmente pela importância do mercado chinês para o agronegócio brasileiro.
O ministro também comentou a situação do Banco de Brasília (BRB), afirmando que a União não possui responsabilidade direta sobre a instituição financeira.
Segundo ele, eventuais problemas patrimoniais dizem respeito ao Governo do Distrito Federal, controlador do banco, cabendo ao governo federal apenas colaborar para preservar a estabilidade do sistema financeiro caso necessário.