"Tarifa dos EUA pode reduzir exportações e pressionar empregos no Brasil", alerta economista
À Rádio Jornal, Edgar Leonardo analisou os impactos da proposta americana e afirmou que a medida pode prejudicar as economias dos dois países
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As audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para discutir a proposta de novas tarifas sobre produtos brasileiros seguem mobilizando representantes da indústria e autoridades dos dois países.
A medida prevê uma sobretaxa de 25% sobre exportações do Brasil e, em alguns casos, a taxação pode chegar a 37,5% caso seja somada a outra tarifa de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado.
Em meio ao debate, o economista Edgar Leonardo afirmou que a medida pode provocar impactos significativos na economia brasileira. A avaliação foi feita nesta terça-feira (7), durante entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal.
"Quando a gente tem uma tarifa desse tipo, a gente vai ter um impacto direto nas exportações brasileiras para os Estados Unidos. Esse impacto vai causar uma redução, pelo menos no curto prazo, do volume desses produtos exportados para os Estados Unidos, porque proporcionalmente vai ter um valor mais elevado para o comprador norte-americano", afirmou.
Segundo o economista, a redução das exportações diminui a entrada de dólares no país e pode afetar diretamente o mercado de trabalho.
"A gente tem uma redução da entrada de dólares na economia brasileira e um impacto, sim, no que diz respeito à pressão sobre empregos dessas empresas e também dos setores que fazem parte de todo o contexto das exportações."
Além do agronegócio, Edgar Leonardo ressaltou que a proposta também atinge produtos industrializados, ampliando seus efeitos sobre diferentes segmentos da economia.
Confira a entrevista completa:
Impactos também para os Estados Unidos
Durante a entrevista, o economista destacou que a taxação também pode gerar prejuízos para empresas americanas que dependem de matérias-primas e insumos brasileiros. Nos últimos dias, gigantes como Coca-Cola, Tesla e eBay apresentaram manifestações ao governo dos Estados Unidos pedindo mudanças na proposta, alegando aumento de custos e prejuízos às cadeias produtivas.
"A gente tem insumos brasileiros que vão para os Estados Unidos. Então, isso vai gerar um impacto na indústria americana e também um impacto inflacionário. Por isso empresas de grande porte estão tentando impedir a aplicação dessas tarifas."
Ele lembrou ainda que os Estados Unidos compram produtos brasileiros utilizados em diferentes processos industriais, tornando a relação comercial estratégica para ambos os países.
Decisão técnica, mas com influência política
Questionado sobre a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas audiências promovidas pelo USTR, Edgar Leonardo avaliou que, apesar da repercussão política, a decisão americana tende a ser baseada principalmente em critérios técnicos.
"A discussão é técnica, diferente da outra tarifa que foi imposta. Essa tem todo um processo, tem defesa e discussão. Mas também não podemos esquecer que existem lobbies fortes nos Estados Unidos pressionando pela manutenção dessas tarifas."
O economista explicou que setores da siderurgia, do etanol e da produção agrícola norte-americana defendem a adoção das medidas por considerarem que enfrentam concorrência internacional.
Ao mesmo tempo, ele acredita que o Brasil poderia fortalecer sua atuação institucional para defender os interesses do setor produtivo.
"O lobby, quando é feito dentro dos critérios da legalidade, não é corrupção. É um instrumento legítimo de defesa de interesses. O Brasil precisa atuar de forma mais organizada para defender sua economia."
Para Edgar Leonardo, embora o tema tenha ganhado espaço no debate político brasileiro, o foco deveria estar na preservação da relação comercial entre os dois países.
"Isso não é interesse de Flávio Bolsonaro nem do presidente Lula. É interesse da economia brasileira no médio e longo prazo. A gente poderia estar atuando de forma mais organizada e estratégica, porque essa parceria comercial foi construída ao longo de décadas."
A decisão do governo americano sobre a adoção das novas tarifas deve ser anunciada nos próximos dias, após a conclusão das audiências públicas conduzidas pelo USTR.
Caso a proposta seja aprovada, cerca de 4,1 mil produtos brasileiros poderão ser atingidos pelas novas alíquotas, segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI).