"O grande vencedor foi a República Islâmica do Irã", avalia especialista sobre acordo de paz com os Estados Unidos
Monique Sochaczewski afirmou à Rádio Jornal que o cessar-fogo fortaleceu o regime iraniano e expôs limitações da estratégia adotada por Trump
Clique aqui e escute a matéria
O anúncio de um acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito iniciado em fevereiro representa um avanço diplomático importante, mas ainda deixa dúvidas sobre sua efetividade e seus desdobramentos na geopolítica do Oriente Médio.
Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, a professora de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Monique Sochaczewski, avaliou que o entendimento surgiu após uma guerra que já demonstrava sinais de desgaste para Washington.
Segundo ela, o conflito acabou produzindo um efeito contrário ao esperado pelos Estados Unidos e por Israel, fortalecendo politicamente o regime iraniano e ampliando sua capacidade de pressão regional.
“Essa guerra, enfim, a gente sabia que não ia dar certo. O Trump acreditou demais no instinto dele e acabou encontrando uma realidade muito mais complicada”, afirmou.
Regime iraniano sai fortalecido
Para Sochaczewski, embora o país tenha sofrido impactos militares e econômicos, quem saiu fortalecido foi justamente a República Islâmica do Irã, comandada pelos aiatolás.
Segundo a pesquisadora, o governo conseguiu transformar uma situação de fragilidade interna em uma demonstração de força ao utilizar sua influência sobre o Estreito de Ormuz e sua capacidade de pressionar economicamente o restante do mundo.
Ela lembra que, antes da guerra, o regime enfrentava desgaste junto à própria população e atravessava uma grave crise econômica, mas o conflito acabou oferecendo uma sobrevida política à liderança iraniana.
Trump e Netanyahu enfrentam cenário mais difícil
Na avaliação da professora, o acordo também evidencia erros de cálculo da estratégia adotada pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Ela afirma que o republicano acreditou em uma solução rápida para enfraquecer o regime iraniano, mas acabou enfrentando uma guerra assimétrica em que fatores econômicos tiveram peso tão importante quanto o confronto militar.
Monique também avalia que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, saiu enfraquecido politicamente e deve continuar pressionado por sua própria base de apoio.
Países do Golfo devem buscar novas estratégias
Outro efeito apontado pela especialista é a mudança de postura dos países do Golfo, que tiveram infraestrutura estratégica atingida durante o conflito e passaram a questionar o modelo de segurança baseado na proteção americana.
Para a pesquisadora, o cenário que se desenha após o acordo ainda é de incerteza, mas deixa claro que as disputas no Oriente Médio passam por uma reorganização das relações de poder na região.