Empreendedorismo no luto: como o atendimento humanizado fortalece pequenos negócios no setor funerário
Em meio à dor e à burocracia, pequenas funerárias se destacam pela empatia, flexibilidade financeira e apoio psicológico.
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“Eu fiquei tão aliviada, Ernani, assim, por saber que ela tava entendendo o processo que eu tava passando. Eu disse: ‘Nossa, Lorena, você pode resolver pra mim?’ Ela disse: ‘Não se preocupe, Viviane, eu resolvo’. Eu me sentia acolhida. Ela teve a sensibilidade de me ouvir, ela teve a sensibilidade de entender o que eu tava passando (...) a empatia”.
A fala acima é de Viviane de Paula. Mãe de Ernani Tavares. Um dos autores desta matéria.
Nesse depoimento, ela relembrava quando não falava apenas como cliente, falava como irmã. Na conversa referenciada (e delicada), ela negociava os trâmites do velório do irmão: Érico Tavares. Ele deixou a família precocemente aos 42 anos de idade.
A dor era deles. E a urgência também. Isso porque, quando alguém morre, a família quase nunca tem tempo para entender o que está sentindo. Antes disso é preciso resolver documentos, velório, flores, pagamento, despedida.
E foi nesse momento onde o luto e a burocracia caminham juntos, que um pequeno negócio funerário revelou o valor de uma simples palavra: acolhimento. A mãe de Ernani precisava de uma coroa de flores para o velório do tio.
Ela tinha procurado em outros locais, mas encontrou preços altos e pouca flexibilidade. Foi quando lembrou de uma amiga, Lorena Milena Gomes, gerente da Funerária Santa Marta, em Santo Amaro, no Recife. A resposta que veio do outro lado não foi apenas uma venda. E sim, uma solução.
“Eu pedi uma coroa de flores porque eu tava solicitando em outro local e tava muito caro. E não tinha nenhuma maneira de pagar mais fácil. Aí eu lembrei de uma pessoa que tem uma funerária, liguei pra ela e ela me deu condições facilitadoras. Ela me facilitou muito com maneiras de pagar e fui muito bem acolhida”, relembra Viviane.
João Carneiro também é autor desta reportagem. E, diferente da situação vivida por Ernani e a família, ele não teve o mesmo acolhimento na despedida do pai.
O provedor da casa partiu quando João tinha 11 anos de idade. Naquele momento, ele e a mãe foram colocados diante de uma realidade dura: preços tabelados, cobranças imediatas e nenhuma condição especial que levasse em conta a dor vivida naquele momento.
A despedida que deveria ter sido um momento de cuidado e respeito, acabou se tornando também uma preocupação financeira. O velório só foi possível porque amigos de trabalho se mobilizaram para ajudar a custear tudo.
A diferença dos casos está nos detalhes. No preço. No prazo. Na confiança. Na possibilidade de resolver primeiro e pagar depois. Na escuta de quem entendeu que, naquele momento, a família estava lidando com muito mais do que uma transação financeira.
É nesse ponto que uma pequena funerária deixa de ser vista apenas como empresa e passa a ser percebida como apoio. Mas para quem empreende nesse setor, o desafio é justamente equilibrar duas realidades: a necessidade de manter um negócio funcionando e o cuidado com famílias que chegam fragilizadas pela perda.
A história de acolhimento de pequenas funerárias às famílias em luto e os desafios enfrentados por esses segmentos empresarias podem ser conferidos na reportagem a seguir: