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Classificação do PCC e CV como terroristas pelos EUA pode gerar "nuvem de incerteza" no sistema financeiro brasileiro

Professora da ESPM avalia riscos ao sistema financeiro e alerta para possibilidade de ações unilaterais dos EUA

Por Ryann Albuquerque Publicado em 01/06/2026 às 10:45

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A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos colocou em evidência os possíveis impactos da medida para o Brasil.

Anunciada dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL) a Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump e disse ter defendido a iniciativa, a decisão contrariou os esforços diplomáticos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentava barrar a classificação.

Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta segunda-feira (1º), a professora Denilde Holzhacker, do curso de Relações Internacionais da ESPM, afirmou que o principal impacto imediato deve ser sentido no sistema financeiro, e não diretamente pela população.

Impactos da classificação

A medida autoriza o governo americano a sancionar ou congelar qualquer transação financeira que possa ter ligação com os grupos classificados. O temor de Brasília é que isso atinja não apenas empresas diretamente envolvidas com o narcotráfico, mas qualquer instituição que, mesmo sem relação com o crime organizado, acabe sendo investigada de forma preventiva. "O temor do governo brasileiro é que isso possa afetar o sistema financeiro como um todo", afirmou Holzhacker.

Sobre o PIX, a professora esclareceu que o impacto seria indireto. A medida não atinge o sistema de pagamentos instantâneos de forma direta, mas sanções aplicadas a contas específicas podem, por consequência, alcançar transações realizadas por essa via. "Como o PIX hoje é a principal forma de transação no Brasil, é por isso que a preocupação sobre o sistema também o afeta, mas não diretamente."

Para o cidadão sem qualquer relação com o crime organizado, Holzhacker foi direta: "O cidadão não vai ser diretamente afetado." O risco, segundo ela, é indireto – o impacto na credibilidade do sistema financeiro e no chamado risco-Brasil pode contaminar o ambiente de investimentos de forma mais ampla.

A comparação com o México, país que também teve grupos criminosos classificados como terroristas pelos EUA e enfrenta pressão crescente de Washington, serve de parâmetro: mesmo lá, onde a integração financeira com os americanos é muito maior do que no caso brasileiro, o impacto sobre a população em geral foi limitado.

Ações unilaterais e soberania

Um dos pontos mais sensíveis levantados por Holzhacker foi a possibilidade de ações unilaterais por parte dos Estados Unidos. Com a nova classificação, Washington não precisaria mais seguir os mecanismos tradicionais de cooperação bilateral para investigar redes criminosas com ramificações no Brasil. "As medidas passam a ser unilaterais americanas. Elas não passam pela cooperação tradicional. E esse é outro risco importante que, para o governo, tem sido um dos pontos centrais nessa discussão com os Estados Unidos."

Em países da América Central e no México, a classificação de grupos criminosos como terroristas já levou a investigações mais agressivas por parte americana, sem passar pelos canais formais de cooperação policial ou judicial – o que levanta preocupações semelhantes para o Brasil. Para a professora, essa lógica representa uma violação de soberania e um precedente preocupante.

Sobre a declaração do presidente argentino Javier Milei, que afirmou que a decisão de Trump ajudaria a "expulsar" os grupos criminosos da região, Holzhacker foi cautelosa. Para ela, a fala deve ser lida como um movimento político. "Eu leria essa fala do Milei no sentido de que agora ele tem mais um elemento para pressionar o governo brasileiro no controle das fronteiras."

A professora defendeu ainda que a pressão americana pode, por outro lado, acelerar uma integração que já era demandada internamente: a comunicação mais ágil entre o sistema financeiro e o judiciário brasileiro no combate ao crime organizado. "Quanto mais integrado for o processo de investigação em todas as instâncias, isso gera uma força maior para controle e para impedir que esses grupos se expandam."

Ouça ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal

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