notícias | Notícia

Luiz Felipe D’Avila diz que ciclo do populismo está perto do fim no Brasil

À Rádio Jornal, cientista político e candidato à Presidência em 2022 disse que polarização vira problema quando trata rivais como inimigos

Por Ryann Albuquerque Publicado em 06/05/2026 às 11:55 | Atualizado em 06/05/2026 às 11:56

Clique aqui e escute a matéria

A polarização política, o desgaste dos discursos populistas e os movimentos do cenário pré-eleitoral brasileiro foram temas da entrevista com Luiz Felipe D’Avila, cientista político, empresário e candidato à Presidência da República pelo Partido Novo nas eleições de 2022, no programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta quarta-feira (06).

Durante a conversa, D’Avila afirmou que a polarização não deve ser vista, por si só, como um problema. Segundo ele, a divergência entre grupos políticos faz parte da democracia. O ponto negativo, na avaliação do cientista político, é quando essa disputa passa a ser conduzida pelo populismo e pela tentativa de transformar adversários em inimigos.

“A polarização é muito saudável para a democracia. O que foi ruim nos últimos anos no Brasil é que a polarização se deu com o populismo”, afirmou.

Confira a entrevista completa:

Populismo 

D’Avila afirmou que a polarização faz parte da natureza da política. Segundo ele, partidos representam diferentes correntes da sociedade, e o confronto entre visões distintas é necessário para o funcionamento da democracia.

Para ele, o problema começa quando o adversário deixa de ser tratado como alguém com quem se deve debater e passa a ser visto como alguém a ser eliminado da disputa pública.

“O seu adversário político não é uma pessoa para ser eliminada. É uma pessoa para você debater, ser respeitada, mas não acabar um com o outro”, disse.

Na avaliação de D’Avila, o populismo agrava esse processo porque tenta se apresentar como a única voz legítima do povo e passa a desqualificar instituições, opositores e qualquer forma de contestação.

O cientista político também defendeu que a política precisa de fiscalização, cobrança, apoio e alternância de poder. Para ele, quando a disputa perde esse sentido, a polarização se transforma em uma força negativa para a democracia.

Espaço para o centro

Ao comentar o cenário pré-eleitoral, D’Avila disse enxergar sinais de cansaço da população com a disputa entre os principais polos políticos. Segundo ele, a rejeição elevada aos nomes mais conhecidos da corrida presidencial pode abrir espaço para uma candidatura de centro. “O povo está cansado dessa polarização”, afirmou.

Para D’Avila, existe uma parcela do eleitorado interessada em sair do que ele chamou de “ciclo vicioso” de uma polarização destrutiva. Nesse contexto, ele defendeu que um candidato de centro pode tentar ocupar esse espaço. “Existe um caminho para que um novo candidato, um candidato de centro, consiga aparecer nessa eleição”, disse.

D’Avila também afirmou acreditar que o ciclo do populismo está próximo do fim. Na avaliação dele, lideranças populistas conseguem identificar problemas reais da sociedade, mas não entregam as soluções prometidas. “Eu acredito que o ciclo do populismo está chegando ao fim, porque o populismo faz um bom diagnóstico do problema, mas ele não entrega o que promete”, declarou.

Alternativas 

Apesar das críticas ao cenário nacional, D’Avila disse ver sinais positivos na política local. Segundo ele, há uma nova geração de governadores e prefeitos mais voltada à gestão com base em dados, evidências e resultados.

Ele citou nomes como Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Eduardo Leite (PSD), Ratinho Júnior (PSD), Mauro Mendes (UB) e Eduardo Riedel (PP) como exemplos de gestores que, na avaliação dele, representam um perfil diferente da política baseada apenas em disputa ideológica.

“Essa turma vem com outro DNA, um DNA de olhar para a política baseada em dado e evidência”, afirmou.

Para D’Avila, esse movimento pode ajudar a reduzir a força da polarização nos próximos anos, especialmente se o debate eleitoral passar a ser mais concentrado em resultados de gestão e políticas públicas.

Lula e Flávio Bolsonaro

Durante a entrevista, D’Avila também fez críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, o PT perdeu conexão com mudanças recentes da sociedade, especialmente em temas como empreendedorismo, trabalho por aplicativo, endividamento e segurança pública.

Ao comentar a relação do governo com motoristas de aplicativo, o cientista político afirmou que a tentativa de organizar a categoria por uma lógica sindical mostra uma visão antiga sobre o mundo do trabalho.

Ele também criticou declarações atribuídas a Lula sobre endividamento e segurança pública. Para D’Avila, esses são dois temas centrais para a população brasileira. “Duas bandeiras fundamentais que hoje tiram o sono do brasileiro, que são a segurança pública e a inadimplência, estão sendo tratadas da forma mais leviana possível”, disse.

Sobre o campo bolsonarista, D’Avila avaliou que Flávio Bolsonaro tem tentado se apresentar como uma figura mais moderada. Segundo ele, o senador busca reduzir rejeições e se colocar como uma alternativa competitiva em uma eventual disputa presidencial.

Na avaliação do cientista político, esse movimento indica uma tentativa de afastamento da imagem mais radical associada ao bolsonarismo. “Ele está saindo desse estigma do populismo para mostrar que é um líder confiável, que sabe dialogar”, afirmou.

Partido Novo 

Questionado sobre o Partido Novo, legenda pela qual disputou a Presidência da República nas eleições de 2022, D’Avila afirmou que o partido amadureceu nos últimos anos. Ele também elogiou a possível candidatura do governador de Minas Gerais, Romeu Zema. “Vejo a candidatura de Romeu Zema como uma excelente candidatura”, afirmou.

Segundo D’Avila, Zema tem entregas administrativas para apresentar e ocupa um espaço mais moderado no cenário político. Ele citou a recuperação fiscal de Minas Gerais como um dos pontos que, na avaliação dele, fortalecem o governador.

Para D’Avila, Zema representa uma candidatura com perfil de centro e com discurso mais voltado à gestão.

Congresso 

A atuação do Congresso Nacional também foi abordada na entrevista. D’Avila afirmou que as comissões temáticas da Câmara e do Senado concentram debates importantes e contam com apoio técnico qualificado. “As boas discussões ocorrem nas comissões temáticas”, disse.

Apesar disso, ele avaliou que muitos projetos perdem força quando chegam ao plenário ou recebem grande quantidade de emendas. Segundo D’Avila, esse processo pode deformar propostas originalmente bem construídas.

Para ele, a influência de interesses específicos no processo legislativo reforça a percepção de que o Estado brasileiro é excessivamente capturado por grupos corporativos. “Temos um Estado brasileiro capturado por corporações”, afirmou.

Segurança e impostos 

Na parte final da entrevista, D’Avila comentou a tramitação da PEC da Segurança Pública. Ele elogiou a atuação da Câmara dos Deputados na reformulação da proposta, mas criticou a demora no Senado.

Segundo o cientista político, falta senso de urgência diante de um tema que preocupa diretamente a população. “A questão do Senado realmente é assustadora. Num momento tão grave de insegurança pública, o assunto que mais tira o sono do brasileiro, o presidente do Senado engavetar esta matéria mostra ausência de senso de urgência”, afirmou.

D’Avila também criticou a carga tributária brasileira e disse que o excesso de impostos prejudica a competitividade do país. Para ele, o tamanho do Estado e o aumento dos gastos públicos pressionam a economia e dificultam o crescimento. 

Ao comentar a reforma tributária, ele afirmou que o país caminha para ter uma alíquota elevada de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), o que, na avaliação dele, reforça o peso dos impostos sobre a produção e o consumo. “O Brasil vai ter o maior IVA do mundo, 28%. A média dos países emergentes é 19%”, afirmou.

Compartilhe

Tags