Quando a festa vira problema: cachês milionários acendem alerta sobre uso de dinheiro público
Especialistas apontam que contratação de artistas não é ilegal, mas exige transparência, contas equilibradas e atenção ao uso político em eventos
Clique aqui e escute a matéria
A divulgação de cachês milionários para shows em festas públicas reacendeu o debate sobre o uso de recursos públicos por prefeituras, especialmente com a proximidade do São João. Embora a contratação de artistas seja permitida por lei, especialistas alertam que a prática pode se tornar irregular quando não há transparência, planejamento financeiro ou respeito às prioridades básicas da população.
Durante debate na Rádio Jornal, o procurador do Ministério Público de Contas de Pernambuco, Cristiano Pimentel, explicou que o pagamento de altos valores não configura crime automaticamente. Segundo ele, a legalidade depende do contexto. “A prefeitura precisa estar com as contas em dia e garantir que o gasto é compatível com a realidade financeira do município”, afirmou.
A contratação de artistas ocorre, em geral, por inexigibilidade de licitação - mecanismo previsto em lei quando não há possibilidade de concorrência. Ainda assim, é necessário comprovar o valor de mercado do cachê e formalizar todo o processo administrativo. Caso contrário, o gestor pode ser responsabilizado.
De acordo com o advogado especialista em Direito Público Américo Pinto, irregularidades podem surgir quando há superfaturamento, falhas na justificativa do preço ou intermediações indevidas. “Se não houver comprovação adequada, o gestor pode responder no Tribunal de Contas e até ser obrigado a devolver recursos”, destacou.
Além da legalidade, o debate também envolve a escolha de prioridades. Em cenários de dificuldades financeiras, como atraso de salários ou falta de serviços básicos, gastos elevados com eventos tendem a ser questionados por órgãos de controle e pela própria população.
Outro ponto levantado foi o uso político dessas contratações. Para a cientista política Priscila Lapa, grandes eventos ampliam a visibilidade de gestores e podem influenciar a percepção do eleitorado, sobretudo em anos eleitorais. “Existe um limite tênue entre promoção cultural e autopromoção política”, avaliou.
Para ampliar o controle social, o Ministério Público de Pernambuco deve disponibilizar um painel de transparência com dados sobre contratações artísticas nos festejos juninos. A iniciativa se soma a plataformas já existentes, como o Portal Nacional de Contratações Públicas e sistemas do Tribunal de Contas, que reúnem informações sobre gastos públicos.
Apesar disso, especialistas ressaltam que o acesso à informação, por si só, não resolve o problema. “Hoje os dados estão disponíveis. Cabe à população acompanhar e cobrar”, afirmou Pimentel.
Os debatedores também lembraram que eventos culturais movimentam a economia e fazem parte da identidade local. O desafio, segundo eles, é equilibrar esse investimento com as demandas essenciais. “É o cobertor curto: quando se puxa para um lado, pode faltar no outro”, resumiu o procurador.
Ao final, a principal conclusão foi que o controle dos gastos públicos não depende apenas de leis ou órgãos fiscalizadores, mas também da participação ativa da sociedade.