Como a matemática pode prever e frear surtos de dengue no Recife
Estudo inédito analisa a mobilidade urbana para identificar ruas que funcionam como "artérias" do vírus
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Um estudo inovador desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) promete revolucionar as estratégias de combate à dengue na capital pernambucana. Utilizando modelos de matemática aplicada, o grupo de cientistas criou um sistema capaz de prever surtos da doença com semanas de antecedência.
A pesquisa, que já foi publicada em uma revista científica internacional, baseou-se na análise de dados do Recife coletados entre os anos de 2015 e 2024. O grande diferencial do estudo é ir além do mapeamento de focos de água parada, focando em como a população se movimenta pela cidade.
O papel da mobilidade urbana na transmissão
Tradicionalmente, a prevenção da dengue concentra-se na eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti, muitas vezes associados a problemas de infraestrutura em bairros com menor renda. No entanto, o professor Marcílio Ferreira, do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE, explica que a doença não se espalha apenas pelo voo do inseto.
A mobilidade urbana é um fator crucial: quando um indivíduo infectado se desloca de um ponto a outro da cidade, ele carrega consigo o patógeno. Dessa forma, bairros e ruas que concentram um grande fluxo de pessoas apresentam uma transferência de casos muito mais intensa.
A matemática das "artérias" do vírus
Para mapear essa rede complexa de transmissão, os pesquisadores utilizaram uma métrica matemática chamada curvatura, que avalia a conexão entre ruas e bairros através do fluxo humano. Eles descobriram que vias específicas funcionam como verdadeiras "artérias" para a disseminação do vírus.
O professor de matemática aplicada Cleiton Ricardo utiliza uma metáfora visual para explicar o conceito: se jogarmos grãos sobre uma folha de papel plana, eles se espalham por igual. Mas, se curvar a folha como uma colher (curvatura negativa ou côncava), ela acumulará mais grãos.
Otimização de recursos para a gestão pública
O objetivo principal da pesquisa é entregar uma ferramenta prática para os gestores públicos. Em cenários de orçamento limitado, aplicar recursos de forma genérica por toda a cidade é ineficiente.
Com o novo modelo, as prefeituras podem priorizar as ações de combate. "Imagine que a gente tem 5.000 ruas no Recife. (...) Pelos nossos estudos usando a curvatura, a gente percebe que 1.000 ruas são cruciais na disseminação da doença", exemplifica o professor Marcílio Ferreira. Ao focar o tratamento nesses pontos centrais de difusão, o poder público consegue um efeito muito maior na mitigação da doença.
Próximos passos e ampliação do modelo
Os pesquisadores da UFPE ressaltam que estão de portas abertas para firmar parcerias com as prefeituras, visando aplicar o modelo na prática e aprimorar a coleta de dados georreferenciados.
A expectativa para o futuro é promissora: a mesma lógica matemática aplicada hoje para a dengue tem potencial para ajudar no controle de outras arboviroses e até mesmo de doenças respiratórias transmissíveis, como a COVID-19.
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*Texto escrito com auxílio de inteligência artificial, com base em conteúdo original da Rádio Jornal, e sob supervisão e análise de jornalistas profissionais.