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EUA e Israel atacam Irã em ofensiva histórica; analistas alertam para risco de escalada regional

Em entrevista à Rádio Jornal, especialistas classificam ataque como um dos episódios mais graves da história recente do Oriente Médio

Por JC Publicado em 28/02/2026 às 10:57 | Atualizado em 28/02/2026 às 11:00

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Os Estados Unidos e Israel desencadearam neste sábado (28) ataques militares contra o Irã, em uma ação que especialistas em política internacional classificam como um dos episódios mais graves da história recente do Oriente Médio.

Para cientistas políticos ouvidos pela Rádio Jornal, a ofensiva representa o ápice de quase cinco décadas de tensão acumulada, e abre um capítulo de profunda incerteza geopolítica.

O cientista político Thales Castro situou a ação no tempo. Para ele, o ataque não pode ser compreendido sem recuar até 1979, quando a Revolução Iraniana derrubou a monarquia e inaugurou um ciclo de confronto direto com o Ocidente.

O marco inicial desse conflito, segundo Castro, foi a invasão da embaixada americana em Teerã por estudantes revolucionários e o sequestro de diplomatas americanos, mantidos em cativeiro por vários dias.

"O Irã não só patrocina o terror por meio do Hamas e do Hezbollah, mas também alimenta toda sorte de fraturas e ataques ao longo dessas últimas décadas no Oriente Médio", afirmou Castro.

O analista destacou que o Irã, com 93 milhões de habitantes e 1,6 milhão de quilômetros quadrados, é um ator geopolítico de peso, sendo membro fundador da OPEP, e que sua impunidade diante de décadas de provocações tornou a resposta militar inevitável. Para Castro, o presidente Donald Trump fez em seu pronunciamento um resgate histórico dessas provocações, classificando o Irã como o principal patrocinador estatal do terrorismo no mundo.

"Trump foi muito incisivo quando mencionou que o Irã é o número um no mundo de patrocínio de terrorismo, um estado que utiliza os recursos oriundos do petróleo para retroalimentar toda sorte de ações violentas, de terrorismo e, obviamente, também de posturas incisivas no campo político", disse Castro.

O cientista político avaliou que as negociações diplomáticas realizadas em Genebra, na Suíça, serviram apenas para ganhar tempo. Segundo ele, as tratativas em torno das usinas nucleares de Isfahan, Natanz e Fordow não produziram garantias concretas de verificação. Para Castro, há fortes evidências de que o Irã desviava o uso da energia nuclear de fins civis para o enriquecimento de urânio em nível suficiente para a produção de uma bomba atômica.

"A retórica de que houve avanços, a perspectiva de que houve um diálogo franco, não se materializava no fato concreto. Esse jogo de dizer que a diplomacia estava funcionando não teve nenhum tipo de evidência concreta de que iria melhorar", afirmou.

Para Castro, Trump, já em segundo mandato e sem preocupações eleitorais, tomou uma decisão que outros presidentes americanos evitaram. O analista também chamou atenção para o tom do discurso oficial, no qual Trump afirmou que membros da Guarda Revolucionária Iraniana seriam poupados caso depusessem as armas — e que, do contrário, "enfrentarão morte certeira".

Castro projeta que os ataques devem ser prolongados e abrangentes, atingindo não apenas as usinas nucleares, mas também instalações da Guarda Revolucionária espalhadas pelo vasto território iraniano. "Estamos começando um capítulo histórico, perigoso, ainda de muita hesitação, de muita incerteza, e nós seremos testemunhas oculares desse fato maiúsculo começado hoje", avaliou.

Preocupação com escalada

O cientista político Ricardo Rodrigues compartilhou da preocupação com a escalada, mas foi mais cauteloso em relação aos planos americanos. "Penso que os planos de Donald Trump, nesse sentido, estão equivocados", afirmou, sem deixar de reconhecer que os ataques, por ora, têm buscado evitar baixas civis. "Estão atacando alvos militares em Teerã e em outros lugares no Irã, tentando evitar ao máximo alvos que ampliariam o número de fatalidades entre civis", observou.

Rodrigues alertou para os riscos imediatos de retaliação iraniana dentro e fora da região. Segundo ele, as bases militares americanas no Oriente Médio já são alvos diretos, e o ataque iraniano à sede da Quinta Frota dos EUA, no Bahrein, é um sinal concreto disso. Mas o analista foi além e apontou o risco de ações terroristas em solo americano.

"Pode sim haver episódios de terrorismo nos Estados Unidos, porque tem muita gente que entrou no país e que tem ligações com Teerã", disse Rodrigues, citando a presença de imigrantes afegãos e sírios com possíveis vínculos ao regime iraniano como um fator de vulnerabilidade interna.

O analista também apontou a possibilidade de ações desestabilizadoras por parte da CIA no interior do Irã. Segundo ele, o governo iraniano já acredita que agentes americanos e do Mossad israelense estiveram envolvidos nos protestos recentes que resultaram em confrontos sangrentos no país, e que Washington conta com essa frente paralela para enfraquecer o regime por dentro.

"Penso que os Estados Unidos estão contando exatamente com esse tipo de ação de pessoal infiltrado para a promoção dessa instabilidade", afirmou Rodrigues.

Sobre Israel, o cientista político foi categórico quanto à vulnerabilidade do país diante do arsenal balístico iraniano. O sistema de defesa antiaéreo Domo de Ferro, segundo ele, possui limitações estruturais frente ao volume de mísseis que o Irã pode mobilizar.

"O Irã tem um arsenal muito grande. A partir do momento em que passa a usar esse arsenal, tem condições de exaurir as forças antiaéreas israelenses e conseguir atingir alvos lá dentro. A população de Israel deve estar ansiosa nesse momento, deve estar preocupada, e com razão", concluiu Rodrigues.

Impactos econômicos

Os impactos econômicos da ofensiva devem ser sentidos de forma imediata nos mercados internacionais. Thales Castro destacou que o Irã, apesar das inúmeras sanções econômicas que enfrenta, ainda é um fornecedor relevante de petróleo de alta qualidade para toda a sua circunvizinhança.

Na avaliação do analista, a instabilidade geopolítica deve provocar a alta do barril de petróleo tipo Brent, o derretimento de bolsas internacionais e turbulências em toda a cadeia petroquímica.

Castro chamou atenção ainda para um efeito indireto frequentemente ignorado. Já impedido de negociar livremente no mercado global por conta das sanções, o Irã passou a vender seu petróleo com grandes descontos para a China, a segunda maior economia do mundo e principal rival estratégico dos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos também estão indiretamente impactando o fornecimento de petróleo para a China. A gente está vendo algo que, de tabela, impacta também a economia chinesa", afirmou o cientista político, sugerindo que a ofensiva militar carrega, embutida, uma dimensão de disputa econômica global.

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