notícias | Notícia

"É um desgaste inacreditável para o governo", diz cientista político sobre ação do ICE

À rádio Jornal, Ricardo Rodriguez analisa repercussão política da morte em Minneapolis, queda na popularidade de Trump e reação do Partido Republicano

Por Ryann Albuquerque Publicado em 27/01/2026 às 13:33

Clique aqui e escute a matéria

As imagens do assassinato do enfermeiro Alex Pretti, morto com dez tiros por agentes mascarados do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em Minneapolis, intensificaram o desgaste político do presidente Donald Trump e expuseram fissuras dentro do Partido Republicano.

O caso ganhou repercussão nacional após vídeos de câmeras públicas e celulares desmentirem a versão inicial do governo, que classificou a vítima como “terrorista doméstico”.

Pretti, cidadão americano, veterano do Exército e enfermeiro em um hospital de veteranos, foi baleado durante uma operação do ICE em 24 de janeiro.

Segundo as imagens analisadas por veículos como Washington Post e New York Times, ele não estava armado no momento da abordagem e usava o celular para registrar a ação dos agentes. A arma que possuía, legalizada, estava presa à perna e foi retirada apenas depois de ele já estar imobilizado no chão.

Inicialmente, autoridades do governo Trump sustentaram que Pretti representava ameaça iminente. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, chegou a rotulá-lo como terrorista doméstico, enquanto o comandante da operação em Minneapolis, Gregory Bovino, elogiou a ação dos agentes. As gravações, no entanto, desmontaram essa narrativa.

Para o cientista político Ricardo Rodrigues, que morou por anos nos Estados Unidos, o episódio provocou um impacto político profundo.

“É um desgaste inacreditável para o governo. As imagens contradizem frontalmente a versão apresentada pelo ICE e pela Casa Branca. Todas mostram que ele não se colocou de forma agressiva”, afirmou, em entrevista à Rádio Jornal, nesta terça-feira (27).

Pesquisa indica virada na opinião pública

O caso ocorre em meio a uma sequência de episódios envolvendo o ICE em Minneapolis. No início do mês, outra cidadã americana, Renée Goode, também foi morta durante uma operação. Para Rodrigues, a repetição dos fatos deixa de ser coincidência e passa a criar um padrão político difícil de sustentar.

Esse contexto já aparece nas pesquisas. Levantamento da Reuters/Ipsos divulgado nesta semana aponta que 58% dos americanos consideram excessivo o uso da força pelo ICE, enquanto 53% desaprovam a política migratória de Trump. Em fevereiro de 2024, no início do mandato, o cenário era inverso: 51% aprovavam a condução do tema.

“Em menos de um ano, a aprovação caiu de 50% para 39%, enquanto a reprovação saltou para 53%. Isso é uma queda muito brusca e diretamente associada à forma como essa política vem sendo executada”, analisa Rodrigues.

Pressão no Congresso 

O desgaste já alcança o Congresso. Parlamentares republicanos passaram a se alinhar a democratas para barrar aumentos no orçamento do Departamento de Segurança Interna, ao qual o ICE é vinculado. O impasse reacende o risco de um novo shutdown – paralisação do governo federal –, cenário que já havia causado prejuízos políticos e econômicos no ano passado.

Em Minnesota, a crise produziu a primeira baixa eleitoral: o republicano Chris Madel desistiu da candidatura ao governo estadual, citando discordância com a operação federal. Em vídeo, afirmou não poder integrar um partido que, segundo ele, promove retaliações contra cidadãos do próprio estado.

Confira a entrevista completa: 

Questionamentos sobre atuação do ICE

Rodrigues destaca que a atuação do ICE tem sido alvo crescente de críticas institucionais.

“É uma força policial estranha para os padrões americanos. Os agentes atuam mascarados, em carros não identificados e sem o mesmo nível de transparência exigido de outras polícias. Além disso, não são treinados para controle de multidões ou manifestações”, afirma.

Segundo ele, a morte de cidadãos americanos altera a percepção até mesmo de setores tradicionalmente indiferentes ao debate migratório.

“Quando o alvo deixa de ser o imigrante e passa a ser o cidadão comum, o americano do interior começa a prestar atenção. Isso muda o jogo político.”

Trump não deve recuar na política, mas pode mudar a execução

Apesar da pressão, Rodrigues avalia que Trump dificilmente recuará da política migratória, uma de suas principais bandeiras. A tendência, segundo ele, é um ajuste na forma de execução.

“Para o governo, a política continua correta, o problema estaria na execução. O recuo deve ocorrer no enfrentamento direto a manifestantes, transferindo esse tipo de ação para as polícias locais, enquanto o ICE volta a focar exclusivamente na deportação”, explica.

Após o episódio, a Casa Branca retirou Gregory Bovino do comando em Minneapolis e enviou o czar da imigração, Tom Homan, considerado mais estratégico, para coordenar a operação.

Ainda assim, aliados de Trump admitem, nos bastidores, que a retórica agressiva e a violência explícita têm minado o apoio popular.

“A tendência é que a desaprovação aumente se nada for feito. O cidadão que antes estava desatento agora está atento – e isso é politicamente perigoso”, conclui Rodrigues.

Saiba como assistir aos Videocasts do JC

Compartilhe

Tags