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Pesquisa aponta amnésia legislativa entre eleitores do Recife

À Rádio Jornal, cientista político Felipe Ferreira Lima analisa esquecimento do voto para deputados e efeitos na fiscalização dos mandatos

Por Pedro Beija, Ryann Albuquerque Publicado em 21/01/2026 às 12:25 | Atualizado em 21/01/2026 às 17:34

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Uma pesquisa realizada pela Unifafire com eleitores da Região Metropolitana do Recife revelou um dado preocupante para a democracia representativa: quase 70% dos entrevistados não lembram em quem votaram para deputado federal nas eleições de 2022.

O levantamento, apresentado pelo advogado e cientista político Felipe Ferreira Lima em entrevista à Rádio Jornal, aponta um cenário de forte polarização política, mas de baixo acompanhamento dos mandatos legislativos, fenômeno que o pesquisador classifica como “amnésia” ou “apagão legislativo”.

Segundo Ferreira Lima, o objetivo do estudo foi fugir das pesquisas tradicionais de intenção de voto e analisar o comportamento do eleitor após as eleições.

O levantamento ouviu 801 pessoas em municípios como Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho, a partir de 18 perguntas sobre memória eleitoral, acompanhamento de mandatos e posicionamento político.

“O Recife esqueceu em quem votou na última eleição legislativa. Isso mostra não só o esquecimento em si, mas também o desinteresse pelo acompanhamento do mandato e pela forma como o voto se transforma em representação política”, afirmou o professor.

De acordo com ele, o apagão é mais evidente nas eleições proporcionais, como as de deputado estadual e federal. Já nas disputas majoritárias, como para presidente e governador, a memória do eleitor tende a ser maior, impulsionada pela presença constante desses cargos no cotidiano da população.

Memória varia conforme o cargo

Os dados completos da pesquisa indicam que a lembrança do voto cresce à medida que o cargo se aproxima do Executivo.

Enquanto 69,83% dos entrevistados não lembram em quem votaram para deputado federal e 64,32% não recordam o voto para deputado estadual, a memória sobe para 67,53% no caso da eleição para governador e alcança 88,21% na disputa presidencial de 2022.

Para Felipe Ferreira Lima, a diferença reflete o caráter mais personalista e visível das eleições majoritárias.

“O Executivo concentra poder, visibilidade e impacto direto na vida das pessoas. Isso faz com que o eleitor acompanhe mais e guarde melhor o voto”, avalia.

Polarização sem politização

A pesquisa também identificou um eleitorado altamente polarizado. Dados citados durante a entrevista mostram um empate técnico entre eleitores que se declaram de direita (23,81%) e de esquerda (23,68%) no Recife. Para o cientista político, no entanto, a polarização não significa maior consciência política.

“Polarização é diferente de politização. Desde 2018, houve um aumento da intensidade do embate político, especialmente na eleição presidencial, mas isso não se traduziu em maior acompanhamento do Legislativo”, explicou.

Outro dado destacado pelo pesquisador é que, entre os poucos eleitores que lembram em quem votaram, a maioria acompanha o mandato e afirma que votaria novamente no mesmo parlamentar.

A pesquisa mostra que, entre os eleitores que lembram em quem votaram para deputado estadual ou federal, a fidelidade ao mandato é elevada. Mais de 70% afirmam que votariam novamente no mesmo parlamentar caso ele dispute a reeleição. Já na eleição para governador, o cenário é mais volátil: 54,42% dizem que repetiriam o voto, enquanto 45,58% afirmam que poderiam mudar de escolha.

Segundo o cientista político, isso indica que o Executivo estadual, embora mais acompanhado, também é mais exposto ao desgaste político ao longo do mandato.

O levantamento também aponta que uma parcela expressiva do eleitorado da Região Metropolitana do Recife não se identifica com rótulos ideológicos tradicionais. Segundo a pesquisa, 31,08% dos entrevistados afirmaram não se considerar nem de direita nem de esquerda, enquanto o centro político aparece com baixa adesão.

Para Felipe Ferreira Lima, o dado revela um eleitor mais pragmático.

“Há polarização, mas também há rejeição a classificações ideológicas rígidas. Parte do eleitor decide o voto sem uma vinculação partidária clara”, afirma.

Faixa etária não explica o apagão

Questionado sobre a relação entre idade e esquecimento do voto, o professor afirmou que a pesquisa não fez recorte etário específico.

Ainda assim, ele destacou que estudos semelhantes indicam que a amnésia legislativa está mais ligada ao perfil e ao interesse do eleitor pela política do que à idade.

“Não é uma questão geracional. O esquecimento varia muito mais pelo nível de interesse do eleitor do que pela faixa etária”, disse.

Na avaliação de Felipe Ferreira Lima, os dados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre educação política no Brasil. Para ele, o desconhecimento sobre o funcionamento do sistema proporcional contribui para o distanciamento entre eleitor e representantes.

“Se o eleitor não entende como funciona a eleição para deputado, como o voto vai para o partido e não apenas para o candidato, ele tende a personalizar a política e se afastar do acompanhamento institucional”, afirmou.

Segundo o pesquisador, a pesquisa da Unifafire busca justamente estimular reflexões mais profundas sobre a relação entre sociedade e poder público, especialmente em um ano pré-eleitoral.

“Confirmar esse apagão legislativo nos obriga a discutir educação política de forma mais direta, e não apenas como pano de fundo do debate eleitoral”, concluiu.

Polarização e impacto nas relações sociais

Além do comportamento eleitoral, a pesquisa identificou efeitos sociais da polarização política. Segundo o levantamento, 39,83% dos entrevistados afirmaram já ter sofrido algum tipo de discriminação por causa de sua posição política.

Para o pesquisador, o dado indica que o embate político ultrapassou o campo institucional.

“Quando quase 40% da população relata preconceito por suas ideias, há um sinal de deterioração da tolerância democrática e do diálogo no espaço público”, analisa Felipe Ferreira Lima.

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