"A democracia está fragilizada em toda a região", diz especialista sobre situação atual da Venezuela
Em entrevista ao programa Passando a Limpo, a professora Regiane Bressan afirmou que a queda de Maduro não garante transição democrática no país
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Durante entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta segunda-feira (9), a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Regiane Bressan, analisou o agravamento da crise política na Venezuela e os possíveis desdobramentos de uma intervenção militar dos Estados Unidos.
A especialista em América Latina destacou que o Brasil já prepara cenários diplomáticos e humanitários caso um conflito seja deflagrado. O momento é de tensão, com a eleição sendo contestada no país, a reação internacional e as ameaças de Washington reacendendo o risco de instabilidade e colocando a América do Sul em estado de alerta.
Democracia e Estados Unidos
A professora começou explicando o contexto regional ao responder sobre quem poderia assumir o comando da Venezuela em caso de uma intervenção militar dos Estados Unidos e quais seriam os desdobramentos políticos após um ataque.
“A democracia está fragilizada em toda a região. Aliás, a democracia nunca encontrou muita estabilidade na América Latina”, afirmou Bressan.
Para ela, a crise venezuelana é resultado de um rompimento gradual das cláusulas democráticas. “Hugo Chávez foi eleito democraticamente e fez reformas importantes, mas Nicolás Maduro foi rompendo com as cláusulas democráticas.”
Regiane avaliou que “o interesse dos Estados Unidos neste momento é garantir o acesso ao petróleo”, e acrescentou que eles “estão colocando a bandeira do narcotráfico porque a bandeira da democracia parece não colar mais”.
A especialista ainda relembra que, na realidade, a Venezuela não é o principal país da região envolvido no narcotráfico. O México e a Colômbia, por exemplo, são nações em que o crime organizado atua com muito mais efetividade.
Queda de Maduro não garante transição democrática
Quando perguntada sobre o cenário pós-queda de Maduro, Bressan alertou que uma intervenção americana não resultaria automaticamente em eleições livres, e que "dificilmente haverá uma eleição democrática acontecendo na sequência."
Segundo a entrevistada, um dos motivos é que as Forças Armadas seguem sendo a estrutura que sustenta Maduro no poder, já que “os militares têm acesso às riquezas e aos recursos advindos do petróleo”. Por isso, mesmo em cenário de derrubada, “algum dos seus braços direitos deve assumir o governo”.
Já sobre a possibilidade de Edmundo González assumir o comando do país, Regiane afirmou que não há certeza na transição institucional. “Não é garantia que Edmundo González, nem Juan Guaidó, nem Maria Corina Machado assumam.”
Risco de conflito armado amplo
A professora afirmou também que uma ação militar americana tende a aprofundar a crise. “Esses ataques dos Estados Unidos não vão solucionar a questão democrática. Pelo contrário, vão fragilizar e deixar o país numa situação muito mais precária."
Ela destacou ainda que o efeito imediato seria humanitário e de deslocamento em massa. “Nós fragilizaríamos muito uma região que já vem enfrentando instabilidade econômica, pobreza e muito problema migratório.”
Para além disso, o conflito também traria consequências que impactariam outros países do entorno.
Ao analisar o risco de envolvimento direto de potências externas, Regiane declarou que “os militares podem contar com ajuda militar da Rússia e da China”, o que poderia transformar o cenário venezuelano em um conflito de grandes proporções.
Postura do Brasil e silêncio diplomático
Ao final, quando questionada sobre a ausência de posicionamento do Brasil diante da morte do ex-governador oposicionista Alfredo Díaz, a professora afirmou que o país age com cautela. Segundo ela, “se o Brasil isola a Venezuela, coloca o país à mercê de relações com outros atores externos”.
Ela também avaliou que a possível reintegração da Venezuela ao Mercosul pode ampliar a capacidade regional de influência, ao “garantir acesso à informação e mais condições de influenciar no comportamento do governo da Venezuela, seja ele quem for".