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Pesquisas, debates e Justiça marcam caminho de Raquel e João até a urna; relembre a trajetória da disputa

Após sete semanas de campanha, Raquel chega numericamente à frente, enquanto João encurta a distância e mantém disputa apertada até a votação

Por Pedro Beija Publicado em 03/10/2026 às 23:50

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A disputa pelo Governo de Pernambuco chega ao dia da eleição mais apertada do que começou. Após sustentar vantagem sobre João Campos (PSB) durante boa parte da campanha, Raquel Lyra (PSD) viu o socialista reduzir a distância na reta final e chega à votação deste domingo (4) numericamente à frente nas pesquisas finais.

Na pesquisa Quaest divulgada neste sábado (3), Raquel aparece com 52% dos votos válidos, contra 47% de João. Considerando os votos totais, a governadora tem 47% e o socialista, 43%. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Já o Datafolha, também divulgado neste sábado, mostra um cenário mais estreito: 49% a 48% nos votos válidos e 46% a 45% nos votos totais, com empate técnico dentro da margem de dois pontos.

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Os números encerram uma campanha marcada pelo endurecimento do confronto entre João e Raquel, pela participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final e por embates que se estenderam à Justiça.

Para o cientista político Felipe Ferreira Lima, a principal mudança foi justamente o grau de competitividade alcançado pela disputa nos últimos dias.

“O que a gente tem é o acirramento do acirramento. Não se esperava, a certa altura da campanha, que a gente teria uma espécie de empate técnico na antivéspera ou na véspera da eleição. Pelo conjunto de pesquisas que a gente tinha, a governadora vinha com uma vantagem, não diria confortável, mas uma vantagem visual, nítida, para João Campos”, avalia.

Acompanhe a cobertura completa do SJCC das Eleições 2026:

Pesquisas: da vantagem de Raquel à reação de João

A campanha pelo Governo de Pernambuco começou em agosto com um cenário bastante diferente daquele registrado meses antes. Em abril, a Quaest mostrava João Campos com 42% das intenções de voto e Raquel Lyra com 34%. Na rodada divulgada em 28 de julho, houve a inversão: a governadora avançou para 43%, enquanto João caiu para 37%. Foi a primeira vez que Raquel apareceu à frente do adversário na série mais recente do instituto.

Quando a campanha começou oficialmente, em 16 de agosto, portanto, Raquel já havia invertido a vantagem que João mantinha meses antes.

A primeira Quaest durante a campanha, divulgada em 8 de setembro, manteve a diferença: Raquel tinha 43%, contra 37% de João. Duas semanas depois, porém, a distância caiu para dois pontos, com 41% a 39%. Em 29 de setembro, a cinco dias da eleição, os dois chegaram numericamente empatados em 42%.

Na avaliação de Felipe Ferreira Lima, João passou boa parte da campanha à procura de um elemento capaz de alterar uma disputa que, naquele momento, favorecia a estratégia de continuidade da governadora.

“A impressão que se tem é que, em determinada parte da campanha, do meio para o fim, Raquel estava em uma posição se sentindo mais confortável, e João em uma posição inquietante, porque sabia que precisava de um fato novo ou criar uma condição que o fizesse crescer”, afirma.

Fala de Raquel sobre laqueadura e visita de Lula movimentaram reta final

Felipe aponta dois episódios como importantes para compreender a aproximação registrada na reta final: a repercussão de um vídeo em que Raquel sugeriu a realização de uma laqueadura sem o conhecimento de uma mulher e a presença de Lula em um grande ato de campanha com João e aliados no Recife.

O vídeo ganhou repercussão em 20 de setembro. Raquel reconheceu que a declaração, feita durante uma agenda em Garanhuns em 2025, havia sido equivocada e pediu desculpas. No dia seguinte, voltou ao assunto e afirmou ter ficado “indignada” consigo mesma ao rever as imagens. O episódio passou a ser explorado por adversários e voltou a aparecer nos debates finais da campanha.

Cinco dias depois, Lula participou de uma caminhada e de um ato político ao lado de João no Recife. Foi a primeira passagem do presidente por Pernambuco durante a campanha eleitoral de 2026 e permitiu ao socialista reforçar a associação de sua candidatura estadual com a do petista à Presidência.

Felipe classifica a combinação dos dois episódios como um “cisne negro” da disputa.

“Teve essa questão da laqueadura, que, ao mesmo tempo, foi conjugada com a vinda de Lula, estrategicamente, por parte de João. Isso ajudou, deu uma sobrevida à campanha de João, que estava, diga-se de passagem, há cerca de três semanas buscando um fato novo que justamente causasse esse efeito”, analisa.

Gestões à prova

Se as pesquisas oscilaram, os eixos escolhidos pelas duas campanhas permaneceram relativamente estáveis.

Candidata à reeleição, Raquel procurou transformar a própria gestão no principal argumento eleitoral. Ao longo da campanha, destacou investimentos em estradas, saúde, abastecimento de água, creches, habitação e infraestrutura e sustentou que os primeiros anos do mandato foram necessários para “arrumar a casa”.

Ao mesmo tempo, a campanha buscou vincular João ao desgaste dos governos anteriores do PSB no Estado. Uma das estratégias foi associar o ex-prefeito ao governo de Paulo Câmara, do qual ele participou antes de disputar a Prefeitura do Recife. João, por sua vez, concentrou as referências positivas ao ciclo socialista principalmente na gestão do pai, o ex-governador Eduardo Campos.

O socialista adotou como principal contraponto a comparação entre o que realizou na Prefeitura do Recife e os resultados de Raquel no Governo do Estado. Saúde, segurança pública, abastecimento de água, educação e infraestrutura estiveram entre os temas mais explorados, além de propostas como a construção de novos hospitais e a ampliação para o Estado de programas implementados na capital.

Outro contraste esteve na eleição presidencial. João se apresentou durante toda a campanha como aliado de Lula, enquanto Raquel evitou declarar voto para presidente, agradeceu parcerias com o governo federal e adotou o discurso de que sua candidatura deveria ser julgada a partir dos interesses de Pernambuco.

Disputa nas regiões

A geografia eleitoral é outro componente apontado por Felipe para explicar a competitividade de Raquel. Na avaliação do cientista político, a governadora conseguiu consolidar uma base mais forte no interior, enquanto João mantém desempenho mais favorável no Recife e em áreas da Região Metropolitana.

“O trunfo de Raquel é a cristalização dos votos dela no interior do Estado”, avalia.

O peso da divisão regional ganha importância em uma eleição apertada. A Região Metropolitana do Recife concentra pouco mais de 3 milhões dos 7,2 milhões de eleitores pernambucanos, o equivalente a 41,7% do eleitorado estadual.

Segundo Felipe, a força construída por Raquel fora da capital ajuda a compensar dificuldades maiores no território onde João construiu sua trajetória administrativa e política. Na Região Metropolitana, ele identifica ainda um eleitorado de direita que rejeita o candidato do PSB e tende a se aproximar da governadora, mesmo sem uma associação direta dela com o bolsonarismo.

“É como se o bolsonarismo gravitasse para ela, sem ela precisar falar dele”, afirma.

Debates

Nos debates, as estratégias construídas pelas campanhas se transformaram em confrontos diretos entre os candidatos.

No primeiro encontro, realizado pela Rádio Cidade FM 99,7, em Caruaru, em 11 de setembro, João questionou a remuneração recebida por Raquel como procuradora do Estado. A campanha da governadora rebateu e afirmou que ela não acumula salários.

No debate da TV Globo, na terça-feira (29), a discussão sobre mulheres reuniu dois episódios que marcaram a reta final. Raquel cobrou João pela permanência no PSB de um candidato condenado por violência doméstica, enquanto o socialista voltou à fala da governadora sobre laqueadura.

No último debate, realizado pelo Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC), na quinta-feira (1º), os dois voltaram a confrontar resultados de gestão, propostas, alianças e integrantes de suas chapas, já em um cenário eleitoral mais apertado do que o registrado no início da campanha.

Para Felipe, a mudança aumentou o peso dos eleitores que chegaram aos últimos dias sem uma escolha consolidada.

“Essa indefinição deu um protagonismo para o eleitor indefinido, indeciso. Lá no início a gente tinha uma vantagem de Raquel e uma falta de tempero a mais para que João chegasse perto dela. E ele ficou a campanha toda buscando isso”, avalia.

Disputa também foi parar na Justiça

O enfrentamento não ficou restrito às ruas, ao guia eleitoral e aos debates. A campanha pelo Governo de Pernambuco teve na Justiça uma de suas principais arenas paralelas.

No fim de agosto, a Frente Popular, coligação de João Campos, levou ao TRE-PE uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra Raquel Lyra e a vice Priscila Krause. A oposição reuniu acusações de suposto abuso de poder político e econômico, uso indevido dos meios de comunicação e condutas vedadas a agentes públicos, além de citar uma suposta estrutura de ataques digitais contra adversários. Raquel e o Governo do Estado negaram as acusações.

Poucos dias depois, cartazes apócrifos com ataques à governadora apareceram no Recife. A Justiça Eleitoral determinou investigação da Polícia Federal para apurar a origem, o financiamento e os responsáveis pelo material e ordenou outras diligências. Os casos seguem sem desfecho.

A judicialização alcançou até as pesquisas. Na sexta-feira (2), a coligação de Raquel questionou no TRE-PE aspectos metodológicos da Quaest que seria divulgada neste sábado e pediu a suspensão do levantamento. O relator rejeitou o pedido e, posteriormente, uma solicitação de reconsideração, ao entender, em análise preliminar, que não havia elementos suficientes para impedir a divulgação.

A resposta agora sai das pesquisas, dos debates, das ruas e dos tribunais e passa para os 7.225.744 eleitores pernambucanos aptos a votar neste domingo.

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