Indefinição, polarização e ausência de debates: como Lula e Flávio chegam ao dia da votação
Petista chega numericamente à frente nas pesquisas finais, enquanto candidato do PL reduz a distância e amplia concentração de votos nos dois polos
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Quatro anos depois de uma eleição decidida entre Lula e Jair Bolsonaro, o Brasil volta às urnas neste domingo (4) com os mesmos campos políticos no centro da disputa pela Presidência, mas com uma mudança de personagem.
De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta conquistar mais um mandato. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) assumiu o espaço eleitoral do pai e chega ao primeiro turno como principal adversário do petista.
A campanha começou com Lula em vantagem e diferentes candidaturas tentando abrir espaço fora da polarização. Ao longo das últimas semanas, porém, a distância entre os dois principais concorrentes diminuiu, enquanto os demais perderam terreno e viram a corrida voltar a se concentrar entre petismo e bolsonarismo.
Na véspera da votação, os dois principais institutos mostram justamente essa aproximação. A Quaest divulgada neste sábado (3) aponta Lula com 46% dos votos válidos e Flávio com 45%, em empate técnico. No Datafolha, o petista aparece com 45% e o candidato do PL, com 42%, também tecnicamente empatados pela margem de erro.
A trajetória até este domingo passou pela busca pelo voto útil, pela mobilização das bases e por uma disputa atravessada por religião, segurança pública, economia e embates envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Lula e Flávio, apesar de concentrarem a corrida presidencial, não se enfrentaram em debates durante a campanha e chegam à votação separados por uma distância menor nas pesquisas.
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Pesquisas mostram redução da distância
Lula e Flávio começaram oficialmente a campanha eleitoral, em 16 de agosto, já posicionados como os dois principais candidatos. No primeiro Datafolha divulgado depois da largada, o presidente tinha 39% das intenções de voto, contra 33% do senador. A diferença, que havia sido de dez pontos em junho, caiu para seis em agosto.
O movimento continuou ao longo de setembro. No Datafolha divulgado no dia 14, Lula aparecia com 39%, contra 35% de Flávio, a menor distância entre os dois desde maio naquele instituto. Augusto Cury (Avante), que chegou a alcançar 8% no início daquele mês, também começou a perder espaço.
Na Quaest de 28 de setembro, Lula tinha 39% e Flávio, 34%. Uma semana antes, os percentuais eram de 37% e 33%, respectivamente. Além da distância entre os dois, a pesquisa já mostrava uma redução dos indecisos e sinais de concentração da disputa nos candidatos mais bem colocados.
O movimento ganhou intensidade na última rodada da Quaest. Lula oscilou de 39% para 40% nos votos totais, enquanto Flávio avançou de 34% para 38%. Nos votos válidos, calculados pelo instituto a partir de um modelo que considera também a propensão do eleitor a comparecer às urnas, a diferença chegou a apenas um ponto: 46% a 45%.
O Datafolha deste sábado também registrou avanço de Flávio em relação ao levantamento divulgado dois dias antes. Nos votos válidos, Lula permaneceu com 45%, enquanto o senador passou de 40% para 42%. Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 4%, enquanto Cury e Renan Santos (Missão) têm 3% cada e Romeu Zema (Novo), 1%.
Polarização pressiona demais candidatos
A aproximação entre Lula e Flávio aumentou, na reta final, a pressão sobre os eleitores dos demais candidatos e trouxe o voto útil para o centro das estratégias.
Flávio passou a fazer apelos para que eleitores de direita que ainda estavam com outros nomes concentrassem votos em sua candidatura. A estratégia buscou antecipar para o primeiro turno uma divisão que as pesquisas já mostravam em eventuais cenários de segundo turno contra Lula.
As demais candidaturas tentaram resistir a esse movimento. Cury, Caiado, Renan e Zema buscaram preservar seus espaços, mesmo diante de levantamentos que passaram a mostrar Lula e Flávio somando parcelas cada vez maiores do eleitorado.
A polarização também orientou o discurso das duas principais campanhas. Lula buscou apresentar a eleição como uma escolha entre a continuidade de seu governo e o retorno do campo político representado pela família Bolsonaro. Flávio, por sua vez, manteve o pai como principal referência política, ao mesmo tempo em que tentou construir uma candidatura própria e reunir o eleitorado contrário ao PT.
Religião e bases eleitorais distintas
A disputa também passou por uma divisão marcada entre grupos do eleitorado.
No Datafolha divulgado na quinta-feira (1º), Lula tinha 50% das intenções de voto entre católicos, contra 32% de Flávio. Entre os evangélicos, a relação se invertia: o senador aparecia com 52%, enquanto o presidente tinha 26%.
A diferença ganhou ainda mais peso depois que uma controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha. Publicações atribuíram a Flávio a intenção de retirar o título de padroeira do Brasil, o que o candidato negou. O tema provocou decisões judiciais, manifestações das campanhas e passou a ser explorado politicamente na reta final.
Os recortes mostram outras divisões. No último Datafolha, Lula mantém vantagem entre os eleitores de menor renda, no Nordeste e entre os que têm menor escolaridade. Flávio aparece à frente entre a classe média, no Sul e chegou à véspera numericamente à frente no Sudeste, região que concentra a maior parcela do eleitorado brasileiro.
A mobilização desses grupos passou a ser tão importante quanto a conquista de novos votos. A campanha de Lula demonstrou preocupação especialmente com a abstenção entre setores nos quais o presidente tem melhor desempenho, enquanto Flávio buscou ampliar a participação de uma base que chega aos últimos dias com alto grau de convicção sobre o voto.
Campanha termina sem debate entre Lula e Flávio
Lula e Flávio chegaram à véspera da eleição sem terem se enfrentado em um debate ao longo da campanha. A última oportunidade seria o encontro da TV Globo, marcado para quinta-feira (1º), mas o programa acabou cancelado.
Lula comunicou que não participaria do encontro da TV Globo, marcado para quinta-feira (1º), e optou por conceder uma entrevista ao Flow Podcast. Flávio, que inicialmente havia confirmado presença, desistiu depois de decisões judiciais alterarem as condições do programa.
Uma decisão do TSE proibiu a emissora de manter no estúdio um púlpito vazio com o nome de Lula e de direcionar perguntas ao candidato ausente. Em outra frente, uma decisão do STF determinou a participação de Renan Santos no encontro. Após as mudanças e a desistência de Flávio, a Globo cancelou o debate.
O episódio se transformou em mais um embate entre as campanhas. Flávio acusou Lula de evitar o confronto e criticou as decisões judiciais. Do lado petista, aliados também passaram a atribuir ao candidato do PL a responsabilidade pela ausência do último debate.
Sem o encontro, os dois concentraram os últimos movimentos na mobilização das bases. Neste sábado, Lula realizou uma caminhada na Avenida Paulista, em São Paulo. Flávio participou de atos no interior paulista e programou o encerramento da campanha de rua no Rio de Janeiro. Os dois fizeram apelos pelo comparecimento às urnas e falaram em buscar uma vitória ainda no primeiro turno.
A campanha chega ao fim, portanto, com Lula numericamente à frente nos dois principais levantamentos divulgados na véspera, mas com Flávio mais próximo do presidente do que esteve em diferentes momentos da disputa. Ao mesmo tempo, os demais candidatos entram no domingo pressionados pela concentração crescente de votos nos dois polos.
A definição agora passa para os 158.765.543 brasileiros aptos a votar. Caso nenhum candidato alcance mais da metade dos votos válidos neste domingo, a disputa presidencial segue para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.