Estadão: Moraes editou contrato de R$ 131 milhões de Viviane Moraes com Vorcaro, indicam registros
Metadados indicam que contrato entre escritório da esposa de Moraes e dono do Banco Master foi alterado, diz Estadão
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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes aparece como responsável pela edição da última versão de um contrato de R$ 131 milhões em serviços advocatícios firmado entre o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo o Estadão, a informação consta nos metadados do documento extraído do celular do banqueiro no âmbito de uma investigação.
Alexandre de Moraes não se manifestou. A defesa de Daniel Vorcaro também não respondeu às informações.
Como mostrou o Estadão em julho, a primeira versão do contrato foi enviada por Viviane ao banqueiro a partir de seu celular pessoal, em 11 de janeiro de 2024, às 17h23. Na mensagem, a advogada informou que encaminhava uma minuta do contrato para análise de Vorcaro.
Quatro dias depois, em 15 de janeiro, o banqueiro devolveu o documento a Viviane pelo WhatsApp com marcas de revisão. Segundo a investigação, Vorcaro afirmou que havia incluído apenas uma cláusula e pediu que a advogada confirmasse se a alteração estava adequada.
As conversas foram extraídas do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
De acordo com os metadados analisados pelo Estadão, a versão devolvida por Vorcaro foi posteriormente aberta e modificada no sistema Office 365 utilizado pelo ministro do STF. O perfil responsável pela alteração aparece identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Os metadados foram obtidos a partir das informações armazenadas no próprio arquivo. Na área de propriedades dos documentos vinculados ao Office 365, sistema da Microsoft utilizado para abrir e editar arquivos, ficam registrados dados técnicos e descritivos, como autoria e datas e horários de alterações.
Nesse caso, os registros indicam que uma edição atribuída ao perfil de Alexandre de Moraes ocorreu às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, cerca de uma hora e 40 minutos depois de Vorcaro devolver o documento a Viviane.
Na versão analisada, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor original do arquivo.
Contrato previa R$ 131 milhões
O contrato firmado entre Daniel Vorcaro e o escritório de Viviane Barci de Moraes estabelecia o pagamento de pró-labore em 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, totalizando R$ 108 milhões.
A 11ª cláusula do acordo determina que os valores seriam livres de impostos. Com a incidência tributária, cada parcela teria valor bruto de R$ 3.646.529,77. Dessa forma, o montante bruto previsto no contrato chegava a R$ 131.274.351,72.
Os pagamentos foram interrompidos após a prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Na ocasião, o banqueiro estava prestes a embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Documentos fiscais do Banco Master enviados em abril à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, do Senado, indicaram que o escritório de Viviane recebeu R$ 80.223.653,84 da instituição financeira entre 2024 e 2025.
Na ocasião, o escritório afirmou que não confirmava as informações divulgadas e classificou os dados como incorretos e obtidos de forma ilícita, destacando que informações fiscais são sigilosas.
Segundo documentos obtidos pela CPI, o Banco Master realizou 22 pagamentos de aproximadamente R$ 3,64 milhões entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período em que o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira.
Revisões e assinatura do contrato
Antes da edição atribuída ao perfil de Alexandre de Moraes, as alterações feitas pela equipe jurídica de Daniel Vorcaro foram conduzidas por Leonardo Palhares, advogado do banqueiro. Ele foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, realizada em março deste ano, sob suspeita de envolvimento em pagamentos ilícitos a diretores do Banco Central. Os investigados negam irregularidades.
Em 17 de janeiro de 2024, Viviane enviou a Vorcaro a versão final do contrato, mantendo o prazo de 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos.
Cinco dias depois, em 22 de janeiro, Vorcaro questionou a advogada sobre a forma de assinatura do documento. Ele perguntou se a formalização seria feita eletronicamente ou por meio de vias físicas.
No dia seguinte, Viviane informou que estava fora do Brasil e pediu que os documentos físicos assinados fossem encaminhados a Guilherme Benazzi, administrador do escritório.
Na mesma mensagem, a advogada solicitou que os documentos fossem enviados em um “envelope lacrado e confidencial”.
Vorcaro confirmou que faria o envio e pediu o endereço. Viviane informou o endereço do escritório, na Rua Campos Bicudo, no Itaim Bibi, em São Paulo.
O contrato foi assinado pelo banqueiro em 23 de janeiro de 2024, às 15h15. A versão assinada foi enviada a Vorcaro por Fabiano Zettel, apontado como homem de confiança do banqueiro e casado com Natalia Vorcaro, irmã de Daniel.
Zettel está preso desde março e também é alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero. Ele nega participação nas fraudes investigadas.
No dia seguinte à assinatura, em 24 de janeiro, Viviane pediu que Vorcaro enviasse uma cópia do contrato assinada digitalmente para os endereços de e-mail indicados por ela.
O banqueiro confirmou que faria o envio e questionou se o escritório também gostaria de receber o documento por meio de assinatura eletrônica.