Itamaraty rebate Marco Rubio após tarifaço dos EUA e afirma que negociações foram mantidas
Mauro Vieira reforçou que o Brasil manteve diálogo com autoridades dos EUA desde antes da aplicação das tarifas de 25% sobre produtos nacionais
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O Ministério das Relações Exteriores do Brasil rebateu, em nota divulgada nas redes sociais nesta quinta-feira (16), as declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não teria negociado com os EUA "de boa-fé" e teria colocado "seu próprio ego à frente de um acordo em benefício do povo brasileiro".
As declarações de Rubio foram publicadas na rede social X, antigo Twitter, após a confirmação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, anunciada na noite dessa quarta-feira (15).
Today, President Trump directed USTR to impose a 25% tariff on most Brazilian imports. Let there be no confusion about why: President Lula and his government have not negotiated with the US in good faith.
His economic policies are bad for Americans and bad for Brazilians. For… Secretary Marco Rubio (@SecRubio) July 16, 2026
Falsas afirmações
Segundo o Itamaraty, as afirmações do secretário são "inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros".
"Além de usar falsas afirmações sobre o empenho brasileiro em negociar, o secretário Marco Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo, que se empenhou pessoalmente pela abertura de canais de negociação em várias ocasiões", diz o comunicado.
Por fim, o ministério afirma que o que o secretário de Estado dos Estados Unidos classifica como "ego" "nada mais é do que a convicção inabalável do presidente Lula na defesa da soberania brasileira e dos interesses das nossas empresas e de nossos trabalhadores".
Em declaração à imprensa nesta quinta-feira (16), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também reforçou que o Brasil manteve diálogo com autoridades norte-americanas desde antes da aplicação das tarifas e destacou que, desde março de 2025, foram realizados mais de 30 contatos presenciais, virtuais ou por telefone entre representantes dos dois governos.
Segundo Veira, foram 11 contatos com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e com Marco Rubio, incluindo reuniões entre os presidentes dos dois países.
"Nesse próprio dia 2 de abril, antes do anúncio das tarifas, eu mantive uma chamada telefônica com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Naquele momento, o Brasil foi tarifado em 10%, o menor nível de tarifas aplicado pelos Estados Unidos a qualquer país", explicou.
O ministro ressaltou que o presidente Lula buscou manter o diálogo durante as tratativas. "Desde o primeiro momento, o Presidente Lula buscou o diálogo e enfatizou sua disposição de negociar qualquer tema", disse.
Sobre as declarações de Rubio, Mauro Vieira afirmou que o secretário norte-americano "ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo".
"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações. Cito, como exemplo, demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros", destacou.
Na avaliação do chanceler, as tarifas anunciadas não têm justificativa econômica. Ele citou dados comerciais para argumentar que os Estados Unidos mantêm vantagem na relação com o Brasil. "Os Estados Unidos acumularam US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos", afirmou.
Ele também rebateu os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para justificar a investigação comercial baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo ele, as alegações envolvendo o Pix são "descabidas", pois o sistema "é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil".
Decisão sem justificativa
O governo brasileiro, por meio de uma nota assinada Secretaria de Comunicação da Presidência da República, criticou a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e classificou a medida como unilateral e sem justificativa.
Em nota divulgada nessa quarta-feira (15), o Palácio do Planalto afirmou que a iniciativa representa um momento negativo nas relações entre os dois países e reiterou que o Brasil seguirá defendendo seus interesses comerciais.
“O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade. Lei esta aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. Do mesmo modo, retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”.
No comunicado, o governo argumenta que a medida não encontra respaldo na relação econômica entre Brasil e Estados Unidos. Como exemplo, cita dados do próprio governo norte-americano que apontam um superávit acumulado de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços em favor dos EUA nos últimos 15 anos.
O texto também reforça que o Brasil continuará buscando soluções por meio do diálogo e dos mecanismos previstos nas normas do comércio internacional, ao mesmo tempo em que adotará medidas para proteger a economia nacional, as empresas e os trabalhadores brasileiros diante dos impactos da nova tarifa.
"Ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pelo encerramento das investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências que refutam cada uma das alegações sobre supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil", diz o governo.
Confira a nota na íntegra
O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável.
O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil.
Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.
O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais.
Ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pelo encerramento das investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências que refutam cada uma das alegações sobre supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil.
Demonstramos que são descabidas as alegações contra o PIX e a regulação de plataformas digitais, bem como são absurdas as acusações sobre desmatamento. O PIX é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.
Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço.
O governo do Brasil seguirá adotando medidas para reduzir os danos causados à economia e à renda dos brasileiros. Continuaremos a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para nossos produtos, como fizemos ao firmar acordos do MERCOSUL com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura.
Por meio do Plano Brasil Soberano, manteremos medidas de proteção aos setores afetados por tarifas ilegais e arbitrariamente impostas pelo governo dos EUA, preservando empregos e a capacidade produtiva nacional.
O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.
Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.