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Apoio de petista a CPI reforça dúvida sobre unidade do PT no apoio à candidatura de João Campos

Presidente do PT-PE, Carlos Veras, disse que gesto foi decisão pessoal do vereador. Episódio reacende debate interno sobre unidade partidária

Por Ryann Albuquerque Publicado em 02/03/2026 às 16:48 | Atualizado em 02/03/2026 às 17:09

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O apoio do vereador Osmar Ricardo (PT) à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a gestão do prefeito do Recife, João Campos (PSB), inseriu um novo elemento nas articulações para as eleições de 2026 em Pernambuco e ampliou a pressão sobre o Partido dos Trabalhadores, que segue sem definição formal sobre qual palanque apoiará na disputa pelo Governo do Estado.

A reação do presidente estadual da sigla, Carlos Veras, indicou um desconforto interno e buscou delimitar o gesto como uma iniciativa individual do parlamentar.

“Esse assunto não foi discutido pelo partido no Recife, nem na bancada de vereadores e nem na Federação Brasil da Esperança. Osmar me comunicou depois de ter assinado e ele é que pode esclarecer os motivos. Quinta-feira, quando voltar de Brasília, vamos conversar para entender essa decisão pessoal dele”, afirmou Veras.

Embora a declaração tenha o objetivo de afastar qualquer leitura de decisão institucional, a assinatura pode ser interpretada, nos bastidores, como um movimento politicamente relevante em um cenário pré-eleitoral já tensionado.

O presidente estadual do PSB, Sileno Guedes, procurado por meio da assessoria, informou que não irá se pronunciar neste momento. Já o líder do PSB na Câmara do Recife, Rinaldo Júnior, reforçou a avaliação de que se trata de um ato individual, mas admitiu surpresa.

“Eu acredito que essa não seja uma decisão do Partido dos Trabalhadores, que tem uma aliança histórica com o PSB em Pernambuco e no Brasil. Inclusive, nosso vice-presidente é um dos principais quadros do nosso partido. [Acredito que] isso seja uma decisão pessoal do vereador Osmar Ricardo. De forma republicana e democrática, não existe problema nenhum. Mas a gente não esperava, eu não esperava essa decisão de assinar uma CPI requerida pelo PL. A gente está vendo hoje aqui um vereador do PT referendando um requerimento de um vereador do PL, aliás, da extrema direita. Então a gente viu com surpresa isso.”

O JC tentou contato com o vereador Osmar Ricardo, mas até a publicação desta matéria, não houve retorno.

O caso que motivou a CPI

A comissão foi protocolada por vereadores de oposição na Câmara do Recife, tendo como principal articulador o vereador Thiago Medina (PL), legenda que polariza nacionalmente com o PT e que deve repetir o embate em 2026.

O pedido busca investigar a alteração na classificação final de um concurso para procurador do município realizado em 2022. A mudança resultou na nomeação de um candidato inicialmente classificado em 63º lugar, após a apresentação de diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista dois anos depois da realização do certame.

O ato administrativo, publicado no fim de 2025, acabou sendo revertido dias depois, após repercussão pública. O requerimento da CPI aponta possíveis irregularidades, entre elas desvio de finalidade, descumprimento de pareceres técnicos, indícios de tráfico de influência e vínculos familiares do candidato com integrantes do Judiciário e do Tribunal de Contas.

Para ser instalada, a comissão precisava de 13 assinaturas — número alcançado justamente com o apoio de Osmar Ricardo (PT), único vereador do partido a aderir à iniciativa. Embora o objeto formal da investigação seja administrativo, o contexto político ampliou a repercussão do caso e o conectou diretamente ao debate eleitoral.

Também votaram a favor da abertura da CPI os vereadores Agora É Rubem (PSB), Alcides Teixeira (Avante), Alef Collins (PP), Davi Muniz (PSD), Eduardo Moura (Novo), Felipe Alecrim (Novo), Flávia de Nadegi (PV), Fred Ferreira (PL), Gilson Machado (PL), Jô Cavalcanti (PSOL), Paulo Muniz (PL) e Thiago Medina (PL).

No caso de Rubem, a adesão chama atenção por se tratar de um parlamentar do mesmo partido do prefeito. Ele tem adotado postura independente na Câmara e já havia assinado, em janeiro, um pedido de impeachment contra João Campos, embora tenha estado ausente na sessão que rejeitou a admissibilidade do processo.

PT entre João e Raquel

A disputa de 2026 em Pernambuco tende a se consolidar em torno de dois polos: João Campos e a governadora Raquel Lyra (PSD).

Nacionalmente, o PSB integra a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e mantém aliança histórica com o PT no Estado. Já Raquel Lyra pertence ao Partido Social Democrático (PSD), que deve lançar candidatura própria à Presidência, mas ocupa espaços relevantes na Esplanada e mantém interlocução institucional com o governo federal.

A governadora, inclusive, tem destacado parcerias administrativas com Brasília em agendas públicas recentes. Nos bastidores, circula a avaliação de que um eventual gesto mais explícito de aproximação com Lula poderia influenciar o posicionamento do PT em Pernambuco — hipótese que não é confirmada oficialmente, mas integra o cálculo político das duas campanhas.

Até o momento, o partido afirma que a decisão será coletiva e tomada “no tempo adequado”, após a consolidação das chapas.

Divisão interna

Dentro do PT pernambucano, diferentes correntes defendem caminhos distintos. A senadora Teresa Leitão tem se posicionado a favor do palanque único com João Campos e da manutenção da aliança histórica com o PSB.

Já o deputado estadual João Paulo, ex-prefeito do Recife, defende que o partido preserve margem de autonomia. Ele já mencionou publicamente a possibilidade de dois ou até três palanques no Estado, sob o argumento de ampliar o arco de alianças em torno do presidente Lula. Em declarações anteriores, também já sinalizou simpatia pela reeleição de Raquel Lyra, evidenciando estratégia distinta da defendida por Teresa.

O PT integra atualmente a gestão municipal do Recife com dois nomes: Felipe Cury, na Secretaria de Habitação, e Oscar Paes Barreto, na pasta de Meio Ambiente — ambos ligados ao grupo político de Teresa Leitão. A presença de quadros petistas na administração reforça a interlocução institucional com a Prefeitura, mas não elimina o debate interno sobre o posicionamento eleitoral.

Pressão por definição

A direção estadual tem reiterado que a definição sobre 2026 ocorrerá nos fóruns partidários. Ainda assim, o episódio da CPI elevou a pressão por um posicionamento mais claro.

João Campos busca consolidar uma frente ampla com apoio declarado do PT. Raquel Lyra trabalha para ampliar interlocuções e, segundo interlocutores, avalia-se que uma eventual neutralidade petista poderia alterar o equilíbrio da disputa.

O presidente Lula ainda não se manifestou publicamente sobre o cenário local, mas esteve em Pernambuco nos últimos meses cumprindo agendas ao lado tanto de João quanto de Raquel, inclusive no período do Carnaval, gesto interpretado como sinal de cautela estratégica.

Dessa forma, o apoio de um vereador a uma CPI municipal extrapolou o plano administrativo e passou a ser lido como reflexo de um impasse maior. O PT permanece no centro do tabuleiro político pernambucano, dividido entre a manutenção da aliança histórica com o PSB, a hipótese de neutralidade estratégica e a prioridade de preservar seu projeto no Senado.

Enquanto a decisão não é formalizada, movimentos pontuais como o de Osmar Ricardo tendem a continuar sendo interpretados à luz desse cenário mais amplo — no qual cada gesto ganha peso proporcional à indefinição do partido.

O Senado como peça-chave

O principal foco estratégico do PT em Pernambuco é garantir a reeleição do senador Humberto Costa. A disputa pelas duas vagas ao Senado é considerada o ponto mais sensível das negociações e pode definir o alinhamento no plano estadual.

No campo de João Campos, são citados como possíveis nomes para compor a chapa, além de Humberto, o ministro Silvio Costa Filho, a ex-deputada Marília Arraes e o ex-prefeito Miguel Coelho. A definição envolve cálculos eleitorais e o desafio de evitar sobreposição de bases regionais.

Miguel também já foi citado como possível nome no campo da governadora Raquel Lyra, mas a definição depende diretamente da federação União Progressistas (União Brasil + PP). Em Pernambuco, o PP já declarou apoio a Raquel, o que coloca Eduardo da Fonte, principal liderança do partido no estado, alinhado ao palanque da governadora. Miguel, por outro lado, é uma das principais lideranças do União Brasil e ainda não definiu posição, já que a federação nacional não bateu o martelo sobre o alinhamento estadual.

A equação ganhou novo elemento com a Operação Vassalos, da Polícia Federal, que teve como alvos o ex-senador Fernando Bezerra Coelho e os filhos Miguel Coelho e Fernando Filho, investigados por suspeita de desvios de emendas. O caso ainda tem impacto eleitoral incerto, mas adiciona imprevisibilidade às articulações para 2026.

Do lado de Raquel Lyra, seguem as articulações para montar uma chapa competitiva ao Senado. Uma das vagas é tratada como estratégica para Eduardo da Fonte, enquanto o senador Fernando Dueire enfrenta indefinições internas no MDB. O desenho final das chapas pode impactar diretamente a decisão do PT.

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