Xico Graziano lança livro com relatos de bastidores da política brasileira ao lado de FHC
Livro "O Caipira e o Príncipe - História sincera da política brasileira" revisita episódios centrais da trajetória de Fernando Henrique Cardoso
Clique aqui e escute a matéria
O professor, escritor e ex-deputado federal Xico Graziano lança, nesta quinta-feira (11), no Recife, o livro “O Caipira e o Príncipe – História sincera da política brasileira”. O lançamento ocorre às 17h, na Livraria Jaqueira do Paço Alfândega, na região central da capital.
A obra revisita episódios centrais da vida pública nacional a partir da convivência do autor com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, definido no título como “o Príncipe”, alcunha pela qual FHC se tornou conhecido como “o príncipe dos sociólogos”.
Graziano, que se coloca no papel do “Caipira”, recupera histórias, embates, decisões e dilemas que marcaram a gestão tucana.
Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta terça-feira (9), o autor antecipou trechos do livro e relatou bastidores que testemunhou durante a formulação do Plano Real, quando atuava internamente no Ministério da Fazenda de São Paulo e acompanhou de perto a equipe econômica liderada por Fernando Henrique.
“Um dos capítulos do meu livro se chama 'Eu vi o Plano Real Nascer'. Naquela época, ele [Fernando Henrique] estava no Ministério da Fazenda. Eu acompanhei todos aqueles meses em que aquela equipe se reunia, auxiliando o então ministro. Ele ficava com uma paciência de professor como ele é, explicando o que vinha vindo. Quem é do meio jornalístico lembra que toda manhã ele entrava nas rádios do Brasil inteiro explicando, e depois que chegou ao Plano Real ele explicava o que era URV. E funcionou. O Brasil realmente se livrou do processo inflacionário. O Plano Real estabilizou a moeda e deu as novas bases para o desenvolvimento brasileiro", contou Xico.
“E quem capitalizou esse processo foi o Lula, que venceu as eleições depois, né? Ele fez a campanha descendo o pau no Fernando Henrique, descendo o pau no Plano Real e depois que se elegeu não mudou nada, ele manteve tudo porque realmente a estabilização da moeda é o pressuposto para qualquer país sério", avaliou.
A reeleição de Fernando Henrique
Graziano também aborda no livro os efeitos políticos da emenda da reeleição e o impacto que ela teve na trajetória de Itamar Franco.
Ele comentou: "Itamar Franco gostaria de ter voltado ao poder. Mas com a emenda da reeleição, Itamar não pôde concorrer, e FHC se reelegeu. Eu faço essa pergunta no meu livro: 'e se não tivesse havido a reeleição?' Fernando Henrique teria cumprido o seu mandato, possivelmente ele seria estendido para 5 anos, e possivelmente o Itamar voltaria. Porque Fernando Henrique chegou porque o Itamar lhe deu as chaves do Ministério da Fazenda. Então é preciso fazer justiça ao Itamar Franco. Ele certamente voltaria, mas com a reeleição ele caiu fora", contou Graziano.
"Muitos temiam que se ele [Fernando Henrique] não se reelegesse, o Plano Real seria interrompido. Porque na época o PT votou contra, era contra, fazia discurso contra. E o Plano Real, que é um plano de estabilização da moeda, ele precisaria de alguns anos para se consolidar", relatou.
Ele prossegue ao tratar da autocrítica de FHC: “Ele escreve um artigo onde corajosamente diz: ‘Foi o meu grande erro, né? [A reeleição]’".
O ex-deputado relata ainda um episódio curioso da campanha de Fernando Henrique no Nordeste, quando o então candidato apareceu comendo buchada durante agenda pública.
“Ele foi lá comer a buchada e os jornais do Sul e do Sudeste pegaram no pé do Fernando. ‘Come até uma buchada para aparecer’. E eu escrevo no livro: se você tá fazendo uma campanha política, está no Nordeste, não é conhecido... como é que você faz para conversar com o eleitorado? Você tem que usar gestos simbólicos, não é pelo discurso racional', analisou.
A sucessão de FHC
Na entrevista, Graziano também rememorou a disputa interna no PSDB sobre quem deveria suceder Fernando Henrique ao fim de seu segundo mandato.
“O Fernando Henrique gostaria que Mário Covas o sucedesse, que era governador de São Paulo. Mas Covas adoeceu e acabou falecendo antes de terminar o segundo mandato. Naquela época, o Serra, que sempre foi guloso pelo poder, sempre se colocava assim. Fernando Henrique gostava muito do Tasso Gereissati, que tinha sido um excelente governador e tinha uma experiência de gestão já reconhecida. Tinha Paulo Renato de Souza, que vinha sendo um excelente ministro da Educação, também se insinuava e poderia ser um nome novo nessa equação que teria que enfrentar o Lula, mas o Serra se impôs", relatou.
Graziano reconheceu, porém, o peso da atuação de José Serra como ministro.
“José Serra foi um grande ministro da Saúde. Botou o SUS em ordem, a história do remédio genérico. O Serra é obstinado. O Serra fala: ‘Nós vamos resolver isso aqui’ e ele resolvia. Ele enfrentou o programa de AIDS, fez os programas contra tabagismo no Brasil. Então é curioso. Um economista foi o melhor ministro da Saúde que nós já tivemos e quem acabou com a inflação foi o sociólogo, não foi o economista, foi o Fernando Henrique Cardoso", lembrou.
A política atual
Ainda na entrevista à Rádio Jornal, o ex-deputado federal Xico Graziano voltou-se para o cenário contemporâneo. Com um olhar crítico sobre o PSDB, o bolsonarismo e a atual configuração da democracia brasileira, Graziano fez uma leitura direta e sem suavizações do quadro político.
Questionado sobre a decisão de apoiar Jair Bolsonaro na eleição de 2018, após deixar o PSDB, Graziano disse não se arrepender, mas afirmou ter vivido uma profunda decepção.
“Eu não me arrependi, mas a minha decepção é infinita, porque não foi só eu. Milhões de brasileiros fizeram esse movimento, né? Nós fizemos o voto ‘anti’ [Lula]. Fomos apoiar Bolsonaro porque não queríamos que o PT voltasse a ocupar o poder da República, por aquilo que já tinha feito naqueles anos anteriores. Nós falávamos: ‘Não, não tem jeito, vamos apoiar o Bolsonaro, é meio complicado, tal, mas tem um grupo lá apoiando e muito bacana'", explicou.
“E ele [Bolsonaro] dizendo que ia fazer isso e aquilo, ia privatizar as coisas, ia mudar a cara do país. E ele não fez nada disso. Logo que assumiu, começou a brigar com todo mundo, brigou com a turma dele, brigou com o general Santos Cruz, que todos nós tínhamos uma grande admiração. Então, imediatamente o que aconteceu, e assim eu descrevo no livro, Bolsonaro não se apercebeu de que vencer a eleição é um processo e administrar o Brasil é outro. Ser governo é outro. Governar é chamar, você precisa de apoio político. E ele não, continuou brigando com todo mundo", avaliou Xico.
O PSDB e a eleição de 2018
Ao comentar a perda de protagonismo do PSDB, o autor afirmou que o partido já se deteriorava muito antes da ascensão de Bolsonaro.
"O PSDB vinha acabando já fazia tempo. A eleição do Serra em 2010 foi muito traumática, não foi uma campanha aglutinadora. Depois a campanha do Aécio em 2014 também não foi, começou a animar no processo, mas depois não levou a isso. Ou seja, a minha visão, e é o que eu escrevo no Caipira e Príncipe, é que o PSDB acabou pela briga interna de seus líderes", avaliou, completando que a disputa era centrada entre Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves.
"Eles se odiavam entre si e destruíram o partido, porque obrigavam o PSDB a fazer opções: você é no meu grupo, você é no meu grupo, você no meu grupo. E o PSDB ficou muito mais discutindo grupos do que pensando no Brasil", declarou.
Indagado se o partido tem condições de se reerguer, Graziano não mostrou otimismo. "O PSDB é o partido da social-democracia, é uma posição de centro-esquerda, mas não é basista, não é esquerdista, comunista. E não tem a visão liberal também da direita. Então, o PSDB se encaixou bem em um determinado momento porque ele fazia uma corrente intermediária entre a esquerda e a direita. Essa posição de centro — e não estou falando de centrão, que centrão é negativo — existe espaço na política nacional. Esse espaço hoje é ocupado pelo partido que o [Gilberto] Kassab lidera, que é o PSD. (...) Mas eu não sei se o PSDB, como ideário, vai voltar a ter a importância que teve", analisou Xico.
A direita e 2026
Ao projetar os próximos anos, Graziano disse ver uma direita dividida e marcada pelo predomínio do bolsonarismo, que, segundo ele, não representa o pensamento liberal.
“Eu sou de direita e o meu livro conta essa história. Eu na juventude fui comunista, depois fundei a social-democracia. Hoje eu sou um pensador liberal, vejo a saída para o Brasil fora do Estado. Quanto mais nós nos livrarmos do poder público, mais o Brasil vai ter chances. E o bolsonarismo não representa esse pensamento. O bolsonarismo representa um pensamento nervoso, neurótico, de que temos que tomar o poder na marra, na porrada. E eu tenho horror a esse pensamento autoritário", declarou.
Segundo ele, há muitos porta-vozes da direita liberal no cenário político e econômico atual, mas não há uma grande liderança, ainda centrada na figura de Bolsonaro. Ele, porém, faz elogios a alguns nomes.
"O Ratinho Júnior, governador do Paraná, um bom governador, um político com visão mais ampla, liberal. Eu diria de centro-direita, talvez. O Tarcísio mesmo, governador de São Paulo, que foi ministro do Bolsonaro, não pensa como Bolsonaro. Todos, óbvio, não querem contestar a liderança de Jair Bolsonaro, que é o polo extremo. Então, eu acho que nas próximas eleições vamos consolidar melhor esse aspecto político", apontou.
Ao final da entrevista, Graziano fez uma avaliação dura sobre o funcionamento das instituições e sobre o futuro da democracia do país.
"O meu livro conta a história de uma decepção da juventude que foi a minha geração nos anos 70, que brigamos muito contra a ditadura militar. Lutamos muito para conquistar a democracia. Nós conseguimos a democracia, o regime militar foi se abrindo, a democracia veio e 40 anos depois deu nisso que está aí. A nossa democracia hoje é um cambalacho político. É só negócio que se faz na política. É uma barbaridade. Se você compara com as grandes nações, o Brasil está sendo atravancado pelo seu sistema político. O Brasil não está caindo, o Brasil está sendo ultrapassado", disse o escritor, acrescentando que enxerga nas novas gerações uma possibilidade de mudança.
“Nós precisamos recuperar a capacidade de fazer política, e isso não quer dizer todo mundo pensar igual. Tem que ter esquerda, direita, tudo. Mas você pensa nos objetivos do país e não no seu bolso ou no seu negócio", concluiu.