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Trem do Nordeste, data centers e Caixa "da favela": o que promete o plano econômico de Flávio Bolsonaro

Coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques defende capital privado em infraestrutura, revisão tributária e novo papel para bancos públicos

Por Ryann Albuquerque Publicado em 18/08/2026 às 11:14 | Atualizado em 18/08/2026 às 11:20

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A disputa presidencial começa a entrar no terreno das propostas, e o Nordeste ocupa espaço central no plano econômico apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Em entrevista ao Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta terça-feira (18), a coordenadora econômica Daniella Marques detalhou medidas que vão de uma ferrovia ligando sete capitais à atração de data centers e à ampliação do crédito para pequenos empreendedores.

Ex-presidente da Caixa Econômica Federal e ex-integrante da equipe do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, Daniella resume a proposta em três frentes: infraestrutura financiada principalmente pelo setor privado, revisão de impostos e mudanças no papel dos bancos públicos.

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O Trem do Nordeste e os R$ 900 bilhões em infraestrutura

A proposta de maior impacto é a criação do chamado Trem do Nordeste, uma ferrovia de cerca de 1.400 quilômetros ligando Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. O plano também prevê a extensão da Transnordestina.

A ideia já circulava durante o governo de Jair Bolsonaro, mas não saiu do papel. O principal desafio continua sendo o custo e a execução de uma obra dessa dimensão.

Segundo Daniella, o projeto seria viabilizado com capital privado, por meio de concessões e parcerias público-privadas, sem depender diretamente do Orçamento da União. A campanha prevê R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura ao longo de dez anos.

A defesa das concessões, porém, ocorre em um momento em que o modelo também vem sendo utilizado pelo atual governo. A diferença apontada pela coordenadora está no custo do capital e nas condições oferecidas aos investidores.

Com juros elevados, o financiamento de grandes obras se torna mais caro e essa conta pode chegar ao usuário. É nesse ponto que a campanha conecta a discussão sobre infraestrutura à política econômica e à promessa de reduzir o custo do crédito.

Data centers, energia limpa e o Nordeste

A aposta na ferrovia também aparece ligada a outro objetivo: transformar o Nordeste em polo de atração para data centers.

Segundo Daniella, a região reúne uma das principais condições procuradas pelo setor: a oferta de energia renovável, especialmente solar e eólica. Mas, para disputar investimentos, seria necessário combinar energia, infraestrutura logística e qualificação de mão de obra.

A estratégia parte de um diagnóstico conhecido. Pernambuco, por exemplo, ainda registra indicadores de desemprego acima da média nacional, enquanto a renda domiciliar per capita permanece abaixo do restante do país.

A proposta é usar a infraestrutura como instrumento para atrair grandes investimentos e, a partir deles, ampliar a oferta de empregos e a atividade econômica.

Caixa e Banco do Nordeste como porta de entrada

Outro eixo do plano envolve os bancos públicos. Daniella defende uma mudança de foco, com Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste assumindo um papel mais ativo na oferta de crédito e orientação financeira para pequenos empreendedores.

Ela retomou uma expressão usada por Flávio Bolsonaro durante a campanha, segundo a qual a Caixa deveria se tornar o “Itaú da favela”. A ideia, explicou, seria oferecer atendimento e assessoria financeira a pessoas que tradicionalmente têm mais dificuldade de acessar o sistema bancário.

O CredAmigo, programa de microcrédito do Banco do Nordeste, foi citado como referência. A campanha também propõe a criação de um programa chamado “Minha Primeira Empresa”, com período de carência para empréstimos e adiamento de tributos.

Há ainda uma proposta voltada aos beneficiários do Bolsa Família que decidirem abrir um negócio. A ideia seria criar uma regra de transição de dois anos e facilitar o retorno ao programa caso o empreendimento não dê certo.

“[As pessoas] têm medo de voltar a passar fome”, afirmou Daniella ao defender uma regra que, segundo ela, reduziria o risco de perda definitiva da renda.

Cortar impostos e equilibrar as contas

O ponto mais sensível do plano está na combinação entre redução de impostos e ajuste fiscal. A coordenadora econômica defende uma revisão da reforma tributária, com foco na alíquota do IVA, e também mudanças no IOF, imposto que incide sobre operações financeiras e encarece o crédito.

Segundo Daniella, o espaço para compensar a redução de arrecadação estaria no corte de despesas, na recuperação de valores inscritos em dívida ativa e na revisão do patrimônio e das empresas controladas pela União. Entre os exemplos citados estão imóveis públicos ociosos e estatais consideradas deficitárias.

Os Correios aparecem nesse debate. A estatal fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões, embora parte significativa do resultado esteja relacionada ao reconhecimento de passivos judiciais acumulados.

A proposta também prevê que eventuais ganhos de arrecadação sejam usados para reduzir a carga tributária, e não para ampliar despesas.

É justamente nesse ponto que está o principal desafio da estratégia: reduzir impostos, estimular investimentos e, ao mesmo tempo, manter o equilíbrio das contas públicas.

A promessa é que o caminho passe por menos custo para o setor produtivo, maior participação do capital privado e um Estado mais concentrado em destravar investimentos. O resultado, porém, dependerá da capacidade de transformar essas diretrizes em medidas concretas e de fazer as contas fecharem.

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Ryann Albuquerque

klopes@jc.com.br

Jornalista em formação pela UFPE e repórter do JC. Atua na produção de reportagens para web e impresso, com foco em Política, Economia e temas sociais. Tem passagem pela Folha de Pernambuco e experiência em projetos de comunicação da UFPE.