Os caminhos da promessa
No Dia Estadual das Romeiras e Romeiros, histórias de devoção e milagres revelam o sentido profundo da caminhada espiritual de milhares de fiéis
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O ato de peregrinar molda a identidade religiosa e cultural do Nordeste. Muito além do deslocamento físico por estradas e ladeiras, a romaria representa uma travessia interior de desprendimento e fé. Em Pernambuco, o dia 31 de maio celebra oficialmente o Dia Estadual das Romeiras e Romeiros.
Comunhão na coletividade
Em tempos marcados pelo ritmo acelerado da rotina e pelo individualismo, as peregrinações resistem como fortes espaços de vivência comunitária.
No Santuário da Mãe Rainha, em Ouro Preto, Olinda caravanas de diversas cidades pernambucanas e de estados vizinhos reúnem-se a cada fim de semana sob o mesmo propósito de partilha. O Padre Filipe Araújo, responsável pelo local, observa que esse impacto espiritual cura e une pessoas de realidades sociais inteiramente distintas.
"A igreja, antes de ser templo, antes de ser instituição, é uma comunidade, uma sociedade. As pessoas gostam de vir porque a fé é algo partilhado, todas vivem a mesma fé", explica.
Promessas e milagres
A decisão de iniciar uma caminhada costuma brotar nos momentos mais desafiadores da experiência humana. Em 2016, Taciana Fernandes enfrentou a angústia de ver sua filha, Thaís, ser diagnosticada com meningite viral.
Diante do medo e da incerteza, ela recorreu à Romaria da Primavera, caminhando a pé desde a Igreja do Carmo até a colina do santuário para pedir a recuperação da jovem.
"Eu fui para a romaria, vim rezando, pedindo... Pedi a intercessão da Mãe Rainha para curar a minha filha. Nesse momento, eu fiz um voto de ser devota e passar a servir no santuário", relembra.
A graça foi alcançada e, anos depois, atuando ativamente nas atividades da comunidade, Taciana reflete sobre o amparo que encontrou na devoção.
"O que mais vejo da presença de Deus em minha vida é nos momentos mais difíceis. Você sente esse colo de mãe", explica. Taciana explica que os fiéis vão às romarias fazendo pedidos, agradecendo ou simplesmente para fortalecer e renovar sua fé.
Três décadas a caminho de Juazeiro
Se para alguns a romaria surge em um momento de crise, para outros ela se torna uma missão que se estende por toda a vida. É o caso de Marlene Amaro, de 82 anos, que por mais de trinta anos coordenou caravanas de ônibus saindo de Pernambuco rumo a Juazeiro do Norte, no Ceará, sempre em setembro, para as festividades de Nossa Senhora das Dores.
Marlene enfatiza que o verdadeiro romeiro não busca comércio ou passeios, mas sim levar os ensinamentos da estrada de volta para o seu lar e paróquia.
"O romeiro de verdade, como dizia o Padre Cícero, vive na fraternidade. E a fraternidade do romeiro é amar os seus irmãos. Primeiramente o seu pároco da sua igreja, dar testemunho a ele", enfatiza.
Ela encerrou suas atividades como organizadora um pouco antes da pandemia, acolhendo com serenidade as limitações físicas trazidas pelo tempo. Sua despedida das longas viagens reflete a sabedoria de quem cumpriu sua jornada.
"Basta crer que verá a glória de Deus. Eu parei por conta disso, porque a idade chegou. Eu estou com 82 anos. Uma pessoa que tem certa idade deve olhar o caminho onde pisa para não dar trabalho aos outros", conclui..