No Bairro do Recife, Comunidade do Pilar ainda vive entre baixa renda, informalidade e urbanização incompleta
Pesquisa revela perfil socioeconômico de comunidade marcada por trabalho precário, dependência de benefícios e acesso limitado a serviços básicos
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Enquanto o desabamento desta semana expõe riscos estruturais na comunidade do Pilar, um retrato recente ajuda a entender quem vive ali e em que condições. Pesquisa comunitária realizada em 2023 revela uma população marcada por baixa renda, trabalho informal e acesso parcial a serviços básicos, mesmo estando no coração histórico do Recife.
Resultado da pesquisa
O levantamento foi realizado pelo WRI Brasil, em parceria com a Universidade das Nações Unidas – Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana (UNU-EHS), a Aliança pelo Centro do Recife e pesquisadores locais, com participação de moradores da própria comunidade.
A pesquisa de campo aconteceu entre os dias 8 e 10 de março de 2023 e entrevistou 160 famílias do Conjunto Habitacional do Pilar, o equivalente a 64% das unidades existentes. Ao todo, foram considerados dados de 489 moradores, com informações detalhadas de 252 pessoas.
O objetivo foi preencher a falta de dados sistematizados sobre a comunidade e orientar políticas públicas e ações locais.
Renda frágil
Os números revelam uma base econômica instável. Metade dos chefes de família vive com renda entre meio e um salário mínimo. Entre os que trabalham, 76% estão na informalidade, sem vínculo empregatício formal ou acesso a direitos trabalhistas.
Além disso, 57% das famílias recebem algum tipo de benefício social, como o Bolsa Família, o que evidencia a dependência desses programas para garantir a subsistência.
Mesmo quando há ocupação, o trabalho é marcado por baixa remuneração e instabilidade. Em 13% das moradias, há pelo menos uma pessoa atuando com reciclagem ou coleta de materiais, reforçando a precariedade das alternativas disponíveis.
Infraestrutura parcial
A presença de infraestrutura não significa, necessariamente, qualidade de vida. A pesquisa aponta que 83% das famílias relatam regularidade no abastecimento de água e 77% na coleta de esgoto.
Ainda assim, os problemas persistem. Cerca de 30% dos moradores afirmam que a água que chega às casas não é limpa, o que levanta dúvidas sobre a qualidade do serviço oferecido. A energia elétrica apresenta maior regularidade, com 88% de avaliação positiva.
O cenário revela uma urbanização incompleta, em que os serviços existem, mas não garantem condições adequadas de vida.
Centro que não integra
Mesmo localizada em uma das áreas mais centrais do Recife, a comunidade enfrenta dificuldades de integração urbana.
A proximidade com áreas valorizadas não se traduz em acesso efetivo a oportunidades, serviços ou mobilidade plena. Os deslocamentos para trabalho e estudo são feitos majoritariamente a pé ou por transporte público, o que indica uma circulação restrita ao entorno.
A própria pesquisa aponta a carência de equipamentos públicos essenciais, como creches, serviços de saúde e espaços de lazer e cultura. Na prática, é um território inserido geograficamente no centro, mas ainda distante das dinâmicas que estruturam a cidade.
Promessa incompleta
Os dados dialogam diretamente com o histórico de urbanização da área. Desde 2009, a comunidade aguarda a conclusão do Plano de Requalificação Urbana e Inclusão Social, que previa a construção de 588 unidades habitacionais. Até hoje, 320 foram entregues.
As obras foram interrompidas após a descoberta de sítios arqueológicos, e nunca foram plenamente retomadas. O resultado é um território marcado por avanços parciais e lacunas persistentes.
Um retrato estrutural
Mais do que números isolados, a pesquisa revela um padrão. Baixa renda, informalidade elevada e acesso limitado a serviços básicos formam um conjunto de vulnerabilidades que se reforçam mutuamente. Em um cenário assim, o risco deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina. No Pilar, os dados não apenas descrevem a realidade. Eles ajudam a explicar por que ela persiste.