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Entre ruínas e promessas não cumpridas, Comunidade do Pilar expõe história de abandono no centro do Recife

Comunidade formada nos anos 1970 segue à espera de urbanização completa em área histórica marcada por conflitos entre moradia e preservação

Por Adriana Guarda Publicado em 07/04/2026 às 17:54 | Atualizado em 07/04/2026 às 18:59

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O desabamento que deixou dois mortos e dois feridos na comunidade do Pilar, no Bairro do Recife, nesta semana, não pode ser explicado apenas pelas chuvas. O episódio revela uma realidade mais profunda. Trata-se de um território que há décadas convive com precariedade, obras inacabadas e promessas públicas que nunca se concretizaram por inteiro.

No coração, à margem

A comunidade do Pilar está localizada em uma das áreas mais simbólicas do Recife, cercada por patrimônio histórico e a poucos metros de polos turísticos e econômicos. Ainda assim, permaneceu por décadas à margem dos processos de desenvolvimento urbano do próprio bairro.

A ocupação se consolidou a partir da década de 1970, em uma área degradada, marcada por ruínas e terrenos abandonados após intervenções ligadas à expansão do Porto do Recife.

Segundo a pesquisadora Nancy Siqueira Nery, em dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco, os moradores passaram a ocupar um espaço resultante “do processo de expansão do Porto do Recife, com algumas ruínas, ocupadas gradativamente desde a década de 1970”.

Historicamente, essa porção do bairro fazia parte do chamado “fora de portas”, área que ficou fora do perímetro mais valorizado e protegido do Recife Antigo. A exclusão territorial que marcou sua formação ajudou a consolidar um padrão de desigualdade que atravessa gerações.

Um nome que ficou

Prefeitura do Recife
Imagem da Igreja do Pilar, que deu nome à comunidade após a área deixar de ser conhecida como "Favela do Rato", no início dos anos 2000 - Prefeitura do Recife

Antes de ser chamada de comunidade do Pilar, a área era conhecida como “Favela do Rato”. A denominação não era apenas simbólica. Ela estava ligada às condições do território e também à presença de um antigo moinho de trigo na região, que atraía roedores para o entorno.

Com o tempo, a precariedade urbana — marcada por lixo acumulado, esgoto a céu aberto e moradias improvisadas — consolidou a imagem do lugar como um espaço insalubre, reforçando o estigma.

A mudança de nome ocorreu no início dos anos 2000, quando a área passou a ser oficialmente reconhecida como Comunidade Nossa Senhora do Pilar, em referência à Igreja do Pilar, construída no século XVII e um dos marcos históricos do bairro.

A nova denominação buscava romper com o estigma, mas não alterou de imediato a realidade estrutural da comunidade. Ainda hoje, moradores relatam a convivência com roedores dentro das próprias casas. Em muitos casos, alimentos precisam ser armazenados em grandes recipientes plásticos, geralmente azuis e com tampa, como forma de evitar que sejam consumidos por ratos.

A mudança de nome foi institucional. As condições que o justificaram seguem presentes no cotidiano.

Promessa de virada

Foi nesse contexto que surgiu o Programa de Requalificação Urbanística e Inclusão Social da Comunidade do Pilar, formulado no início dos anos 2000 e implementado a partir de 2010, durante a gestão do prefeito João da Costa, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal.

O projeto previa uma transformação profunda da área. Entre as propostas estavam a construção de 588 unidades habitacionais, além de equipamentos públicos como escola, creche, posto de saúde e mercado, somados à implantação de infraestrutura básica e à recuperação do patrimônio histórico.

A proposta tinha um caráter ambicioso e incomum. Em vez de remover a população pobre de uma área valorizada, buscava integrá-la ao tecido urbano formal da cidade.

Como aponta Nancy Nery, a intenção era “incluir o espaço ocupado à malha urbana formal da cidade e integrar seus moradores às redes sociais, econômicas e culturais existentes”.

Obra interrompida

Alexandre Aroeira/JCIMAGEM
Foram encontrados mais de 100 ossadas e um antigo forte. Local pode virar parque arqueológico - Alexandre Aroeira/JCIMAGEM

Mais de uma década depois, o cenário está distante do que foi anunciado. Parte das unidades habitacionais foi construída, mas o conjunto do projeto não foi concluído.

As obras sofreram paralisações, especialmente após a descoberta de importantes sítios arqueológicos na área. Cerca de 150 mil vestígios foram encontrados, entre ossadas e objetos, além de estruturas históricas como as ruínas do antigo Forte de São Jorge, construído em 1593.

Os achados ajudaram a recompor partes da história urbana do Recife ainda pouco conhecidas. Cartografias antigas já indicavam a existência de um cemitério nas proximidades, mas o local exato nunca havia sido confirmado. As escavações mudaram esse quadro.

Somente na área do Pilar, foram retirados 110 esqueletos, que ainda passam por análise e datação por Carbono 14, em um esforço para identificar o período e o perfil das pessoas enterradas ali.

A dimensão arqueológica do território trouxe novas exigências técnicas e legais, com acompanhamento de órgãos de preservação, e alterou o ritmo das obras.

O resultado é um território em suspensão. Nem totalmente urbanizado, nem plenamente abandonado. Um espaço onde convivem novas construções, estruturas frágeis e áreas ainda marcadas por ruínas.

Levantamentos recentes mostram que a comunidade segue sem acesso pleno a serviços básicos e equipamentos urbanos essenciais, evidenciando o descompasso entre planejamento e execução.

Conflito persistente

O caso do Pilar expõe um impasse recorrente nas políticas urbanas em áreas históricas. De um lado, a necessidade de preservar o patrimônio. Do outro, a urgência de garantir condições dignas de moradia para quem vive nesses espaços.

Na prática, essas duas agendas nem sempre caminham juntas. “A requalificação urbana em áreas de valor histórico muitas vezes apresenta caráter seletivo e excludente”, afirma Nancy Nery ao analisar esse tipo de intervenção. No Pilar, esse conflito não foi resolvido. Foi sendo adiado.

Risco contínuo

Décadas após o início da ocupação e anos depois do lançamento de um projeto que prometia transformação, a comunidade continua exposta a riscos estruturais.

O desabamento registrado nesta semana não é um episódio isolado. Ele se insere em uma sequência de omissões, atrasos e soluções incompletas. No centro histórico do Recife, o tempo avançou para a cidade. Para o Pilar, ele segue interrompido.

JAILTON JR./JC IMAGEM
Conjunto habitacional da Comunidade do Pilar, no Centro do Recife - JAILTON JR./JC IMAGEM
JAILTON JR./JC IMAGEM
Única comunidade do bairro do Recife, o Pilar convive há anos com a precariedade habitacional - JAILTON JR./JC IMAGEM
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Conjunto habitacional da Comunidade do Pilar, no Centro do Recife - JAILTON JR./JC IMAGEM
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Desabamento de imóvel na comunidade do Pilar, no Centro do Recife, deixou dois mortos e dois feridos - JAILTON JR./JC IMAGEM
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Única comunidade do bairro do Recife, o Pilar convive há anos com a precariedade habitacional - JAILTON JR./JC IMAGEM
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Desabamento de imóvel na comunidade do Pilar, no Centro do Recife, deixou dois mortos e dois feridos - JAILTON JR/JC IMAGEM
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Desabamento de imóvel na comunidade do Pilar, no Centro do Recife, deixou dois mortos e dois feridos - JAILTON JR/JC IMAGEM

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