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Desabamento com mortes no Pilar expõe drama habitacional no Recife

Morte de moradores e ferimento de outros dois por desabamento deixa comunidade em luto e revolta no Bairro do Recife

Por Maria Clara Trajano Publicado em 07/04/2026 às 15:01 | Atualizado em 07/04/2026 às 18:42

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O desabamento de um imóvel na comunidade do Pilar, no Bairro do Recife, na noite da última segunda-feira (6), deixou dois mortos e dois feridos, reacendendo o alerta sobre as condições de moradia em áreas vulneráveis da capital pernambucana. Entre os escombros, mais do que concreto, ficaram histórias interrompidas e uma comunidade marcada pelo luto.

As vítimas fatais foram Simone Maria de Oliveira, de 56 anos, e Fabiano Lourenço de Araújo, de 45. Segundo relatos de moradores, o casal era conhecido e querido na região, onde vivia há alguns anos em situação precária de moradia.

“Eles dois se davam muito bem com o povo da comunidade, o Recife Antigo todinho conhece ele, sempre foi uma boa pessoa. A gente não via ele brigando. Brincava com todo mundo, respeitava todo mundo, ajudavam como eles podiam”, conta a moradora Brenda Gomes.

Reprodução
Simone Maria de Oliveira e Fabiano Lourenço de Araújo, vítimas de desabamento no Pilar - Reprodução

Feridos seguem internados

O casal Ana Carolina da Costa Silva, de 31 anos, e Sidclei de Oliveira, de 29 anos, ficou ferido no desabamento e foi socorrido para o Hospital da Restauração. De acordo com a unidade de saúde, eles sofreram politraumatismo, mas apresentam quadro estável.

O atendimento foi realizado por equipes do Samu e do Corpo de Bombeiros, acionadas logo após o colapso da estrutura. A área foi isolada pela Defesa Civil, que segue monitorando o entorno.

Luto, revolta e medo na comunidade

Na manhã seguinte ao desabamento, o cenário era de dor entre moradores e familiares. Simone e Fabiano estavam juntos há cerca de 20 anos. Ela era mãe de oito filhos e avó; ele não tinha filhos. Os dois trabalhavam na região, sobrevivendo de atividades informais como reciclagem e flanelinha.

“O sentimento da comunidade agora é de muita aflição, luto e revolta”, afirma a liderança comunitária Ana Cláudia.

Ela explica que o casal já aguardava a entrega de uma unidade habitacional, mas vivia provisoriamente no imóvel que desabou.

“Eles já tinham sido contemplados com um habitacional no Pilar, mas estavam morando ali há poucos anos, aguardando o apartamento ficar pronto para poderem se mudar”, relata.

Única comunidade do bairro do Recife, o Pilar convive há anos com a precariedade habitacional. A poucos metros da sede da Prefeitura do Recife, a população que vive no local espera a conta gotas intervenções que visam à melhoria urbana da área.

A última ação da Prefeitura do Recife foi a publicação, na semana passada, de um edital para a construção de um conjunto habitacional com 112 apartamentos. No entanto o empreendimento, na quadra 55, é uma versão reduzida de um projeto que já estava previsto.

A comunidade espera pela construção de um total de 588 unidades desde a aprovação do projeto inicial, ocorrida ainda no ano de 2009, ainda na gestão de João da Costa (PT). Embora o Habitacional Papa Francisco tenha sido entregue no segundo semestre de 2025 para 128 famílias, o projeto de urbanização da área — que se arrasta há mais de uma década — ainda possui lacunas. A previsão total agora é de 320 unidades.

Recusa aos abrigos expõe insegurança

Apesar da oferta de abrigamento pela Prefeitura do Recife, parte dos moradores optou por permanecer na área, mesmo diante do risco. A decisão, segundo lideranças, está relacionada à falta de confiança em soluções definitivas.

“Algumas famílias optaram por não ir para os abrigos porque têm medo de não ter nenhuma resolutividade de auxílio ou uma posição oficial”, diz Ana Cláudia.

“Existe um receio muito grande de que, se saírem, as pessoas invadam e furtem seus pertences”, acrescenta.

Atualmente, cerca de 17 famílias permanecem no entorno da área afetada, convivendo com o medo de novos desabamentos.

JAILTON JR./JC IMAGEM
Única comunidade do bairro do Recife, o Pilar convive há anos com a precariedade habitacional - JAILTON JR./JC IMAGEM

Histórico de risco

De acordo com o advogado da comunidade, Marcone Lins, já existia um laudo apontando o risco estrutural do imóvel. Ainda assim, moradores alegam que não houve suporte efetivo para a desocupação.

Em setembro de 2024 a prefeitura do Recife entrou com uma ação judicial e o judiciário concedeu decisão favorável ao despejo.

Após o desabamento, equipes de diferentes órgãos municipais foram mobilizadas, incluindo Defesa Civil, assistência social, Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) e Guarda Municipal. Além do isolamento da área, foi oferecido auxílio funeral às famílias das vítimas.

Os moradores da comunidade do Pilar seguem à espera de soluções concretas e já articulam a formação de uma comissão para dialogar com autoridades e cobrar respostas. Na manhã desta terça-feira (7), os moradores organizaram uma manifestação na Avenida Cais do Apolo, no Bairro do Recife.

“O pessoal quer sair, mas quer sair com uma resposta concreta”, resumiu a liderança comunitária.

DEFENSORIA PÚBLICA

Em nota, a Defensoria Pública do Estado diz que, em 16 de janeiro de 2025, pessoas residentes no imóvel localizado na Rua Bernardo Vieira de Melo, n° 338, Bairro do Recife, buscaram a assistência jurídica em virtude de processo movido pelo Município do Recife, que, entre outros pedidos, buscava a remoção completa de famílias no local e do entorno.

Dessa forma, a Defensoria Pública do Estado de Pernambuco, passou a atuar no processo em uma perspectiva individual (pessoas que buscaram a instituição) e coletiva (em nome das pessoas em situação de vulnerabilidade residentes no local e no entorno), a fim de garantir os direitos das pessoas ali presentes.

"Após decisão judicial que atendeu aos pedidos do Município do Recife e determinou a remoção de todas pessoas do local e do entorno, a Defensoria Pública (frise-se, a partir da demanda dos próprios moradores) apresentou recurso ao Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco. Em acórdão proferido em abril de 2025, a 2ª Câmara de Direito Público do TJPE, por meio do Processo n° 852-68.2025.8.17.9000, determinou que o MUNICÍPIO DO RECIFE adotasse as medidas necessárias para impedir os riscos de desabamento do imóvel durante o período de negociações sobre o futuro da área. Ou seja, o próprio Tribunal de Justiça, seguindo manifestação do Ministério Público do Estado de Pernambuco, apenas autorizou a permanência de pessoas no local mediante a adoção de medidas por parte do Município".

No entanto, embora o acórdão esteja vigente desde abril de 2025, a Defensoria Pública nunca foi informada sobre a adoção das medidas determinadas pelo Poder Judiciário." A Defensoria Pública chegou a se manifestar em mais de uma oportunidade (maio de 2025 e setembro de 2025) nos processos acima mencionados, requerendo a adoção das referidas medidas, sempre com o fim de assegurar as condições de habitabilidade e a integridade física dos moradores".

Inclusive, uma das soluções defendidas pela Defensoria, foi a elaboração de estudos técnicos de viabilidade de demolição do imóvel em ruínas, com a preservação das demais moradias, o que eliminaria o risco e preservaria o direito das dezenas de famílias vizinhas

A Procuradoria do Município, contudo, ainda no final de março de 2026, opôs-se ao pedido formulado pela Defensoria Pública, já que a instituição havia solicitado ao Poder Judiciário que o Município apresentasse informações sobre as providências adotadas pela municipalidade para impedir o risco de desabamento do imóvel.

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