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Chuva expõe desigualdades e racismo ambiental no Grande Recife

Chuvas intensas na região metropolitana do Recife escancaram desigualdades históricas e reforçam o debate sobre justiça climática e moradia digna

Por Maria Clara Trajano Publicado em 05/04/2026 às 14:24 | Atualizado em 05/04/2026 às 14:27

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A chuva que cai sobre o Grande Recife nos primeiros dias de abril não atinge a todos da mesma forma. Enquanto em alguns bairros ela refresca o calor e embala a rotina, em outros anuncia medo, vigília e perdas.

É nas periferias que a água ganha peso, invade casas, sobe pelos becos, retorna pelos esgotos e, mais uma vez, evidencia que o clima também é uma questão de desigualdade.

Nos territórios mais vulnerabilizados, cada nuvem carrega também uma memória recente: a de tragédias que poderiam ter sido evitadas. O que se vê agora, com o acumulado de chuvas, é a repetição de um padrão que especialistas e lideranças comunitárias têm nomeado com mais precisão: racismo ambiental.

Monitoramento popular e resposta imediata

Após as fortes chuvas de 2022, que deixaram 134 mortos e mais de 125 mil desabrigados ou desalojados na Região Metropolitana do Recife (RMR), redes comunitárias têm se mobilizado para antecipar riscos e proteger moradores. É o caso da Rede GERA, que atua em diversas comunidades da Região Metropolitana.

“Desde terça a gente está fazendo o monitoramento aqui porque identificamos o início das chuvas e sabíamos que estávamos sob um pico que traz muita água. Então, estamos enviando alertas para as comunidades que a gente monitora”, explica Joice Paixão, coordenadora territorial de engajamento.

Ela relata que os problemas são recorrentes: “As situações que aparecem são sempre as mais recorrentes: canaletas entupidas, água dando retorno pelo esgoto dentro das casas e a elevação do rio”.

Sem depender exclusivamente do poder público, a rede articula uma espécie de “protocolo popular” de emergência. A comunicação, muitas vezes, acontece via WhatsApp, com apoio de lideranças locais, especialmente mulheres (as famosas “fofoqueiras da rua”), que garantem que a informação chegue a idosos e pessoas sem acesso à internet.

“Quando acionamos nosso protocolo, usamos as linhas de transmissão do WhatsApp para enviar o que eu chamo de um ‘relatório meteorológico popular’”, afirma Joice.

Justiça climática começa pela moradia

O cenário observado nas chuvas atuais dialoga diretamente com dados recentes sobre moradia e risco climático no Brasil. Segundo relatório da Habitat para a Humanidade, a população negra é 10,3% maior nas áreas de risco do que na média das cidades analisadas. Além disso:

  • A renda média nesses territórios é quase metade da geral;
  • A falta de saneamento é mais que o dobro;
  • A ausência de coleta de lixo é 1,75 vez maior.

Esses números ajudam a responder uma pergunta central: quem está mais exposto aos desastres?

Para a especialista Raquel Ludermir, gerente de incidência em políticas públicas da organização, não há dúvida de que essa distribuição desigual tem raízes estruturais.

“Ninguém mora em área de risco por escolha. Isso é resultado de uma crise habitacional que empurra as pessoas para essas áreas por falta de alternativa”, afirma.

Ela reforça que o debate sobre o clima precisa incorporar o direito à cidade. “Sem moradia digna é impossível falar em justiça climática. Não adianta pensar apenas no auxílio emergencial se as pessoas continuam sendo obrigadas a morar em áreas frágeis”.

O ciclo dos desastres

A análise do ciclo dos desastres revela lacunas que se repetem a cada período chuvoso. Segundo Raquel, no antes, há ausência de políticas consistentes de adaptação.

“No antes, há uma negligência do poder público em construir formas de adaptação para os territórios populares; a atuação geralmente foca em remover as pessoas e não em remover o risco”, aponta Raquel.

Nos momentos mais críticos, a resposta institucional costuma chegar tarde. Durante os desastres, a resposta é limitada e, muitas vezes, desorganizada. As primeiras mãos a prestarem socorro são as das próprias comunidades. E depois, a reconstrução é lenta e insuficiente.

“Já o pós-desastre é ainda mais sério, pois a reconstrução muitas vezes se limita a um auxílio emergencial que não cobre o dano material imediato. Em 2022, por exemplo, o auxílio foi de cerca de R$ 1.500,00, valor que mal dava para um colchão e um fogão de segunda mão. Como alguém que perdeu tudo recomeça do zero assim?”, questiona.

Tecnologia social e saberes da periferia

Apesar das adversidades, as periferias também produzem soluções. Planos comunitários de risco, rotas de fuga e estratégias de comunicação são exemplos de tecnologias sociais que salvam vidas.

“Nas comunidades que já têm um plano comunitário e um protocolo, é muito mais fácil. As pessoas já sabem o passo a passo: preparar a bolsa de sobrevivência e identificar para qual casa de parente ou amigo ir”, destaca Joice.

Mas esse esforço ainda enfrenta limitações estruturais. “A gente atua na ponta, mas com limitações financeiras. Eu defendo que sem financiamento não há justiça climática”, diz.

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