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Ultraprocessados são vistos como "conquista social" em comunidades urbanas, aponta Unicef

Pesquisa revela que famílias em comunidades do Recife ignoram rótulos de alerta e associam produtos industriais ao bem-estar e felicidade na infância

Por Maria Clara Trajano Publicado em 03/04/2026 às 0:00

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Um estudo inédito do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela um paradoxo nas periferias brasileiras: embora a saúde seja uma preocupação declarada, os alimentos ultraprocessados tornaram-se símbolos de "infância feliz" e ascensão social.

A pesquisa, realizada em comunidades urbanas de Recife (Ibura), Rio de Janeiro (Pavuna) e Belém (Guamá), aponta que a rotulagem nutricional frontal, implementada no País em 2022, ainda falha em orientar as escolhas das famílias.

No Ibura, zona sul do Recife, o cenário é crítico no que diz respeito à interpretação das informações nutricionais. Segundo os dados, 58% dos entrevistados na comunidade recifense afirmam nunca olhar o rótulo que indica alta presença de açúcar, gordura ou calorias.

Além disso, 65% dos moradores locais admitem que jamais deixaram de comprar um produto por causa da "lupa" de alerta.

Barreiras culturais e o "falso saudável"

A pesquisa identifica que o consumo de produtos industriais está arraigado à ideia de conquista geracional. Para muitos pais, oferecer alimentos que antes eram inacessíveis representa prover uma vida melhor aos filhos.

No entanto, essa percepção esbarra na desinformação. No Ibura, 18% dos participantes acreditam que itens com o rótulo de "alto em açúcar ou gordura" são mais saudáveis ou equivalentes a opções sem o alerta — o maior percentual entre as três capitais analisadas.

O conceito de "falsos saudáveis" também distorce o consumo:

  • 52% dos entrevistados consideram iogurte com sabor um alimento saudável;
  • 49% acreditam que nuggets de frango são saudáveis se preparados na fritadeira elétrica (air fryer).

Impacto no ambiente e sobrecarga materna

As escolhas alimentares não são apenas individuais, mas reflexo de um ambiente restritivo. O estudo aponta que a conveniência e o preço dos ultraprocessados, somados à sobrecarga das mães e à falta de redes de apoio, empurram as famílias para dietas de baixa qualidade.

“O estudo mostra, de forma clara, que escolhas alimentares não são apenas individuais, mas moldadas pelo ambiente, com influência de fatores como contexto familiar, acesso, preço, qualidade da informação e dos espaços disponíveis. Por isso, traz recomendações efetivas para promover ambientes saudáveis para crianças, o que exige políticas consistentes, mobilização social e compromisso”, afirma Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição no Unicef Brasil.

Insegurança limita a atividade física

Além da má alimentação, o sedentarismo é agravado pela infraestrutura urbana. No Ibura e nas demais comunidades, 87% dos participantes citam a falta de segurança no bairro como a principal barreira para que as crianças brinquem em espaços públicos.

Iluminação precária e falta de manutenção de praças completam o quadro que confina crianças em casa, onde a exposição a telas e lanches ultraprocessados é maior.

Recomendações de políticas públicas

Para reverter o avanço da obesidade infantil, que já atinge 13,5% das crianças até 5 anos no Brasil, o Unicef propõe sete eixos de atuação:

  • Regulação rigorosa: restrição da publicidade infantil e aumento da taxação de bebidas açucaradas.
  • Escolas em tempo integral: expansão de creches para reduzir a sobrecarga materna e garantir refeições balanceadas.
  • Urbanismo social: qualificação e segurança de espaços públicos para o lazer.
  • Educação alimentar: campanhas claras que expliquem o funcionamento real da rotulagem frontal.

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