Frente ao avanço do nível do mar, relatório propõe adaptação urgente no Recife
Relatório detalha a urgência de uma reforma urbana radical para enfrentar a elevação do nível do mar, que pode atingir dois metros até 2100
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O Recife não tem a opção de ignorar o avanço do oceano. Classificada como uma das cidades mais vulneráveis do planeta à emergência climática, a capital pernambucana recebeu na última semana, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o detalhamento das estratégias de sobrevivência elaboradas pelo workshop internacional RXN 2025 (Recife Exchange Netherlands).
O documento, fruto de uma colaboração entre especialistas brasileiros e holandeses, projeta um cenário em que a adaptação não é apenas uma escolha estética, mas uma necessidade de segurança pública.
Com uma altitude média de apenas quatro metros, o Recife enfrenta o fenômeno da elevação do mar em uma velocidade acelerada, passando de 1 mm para cerca de 4 a 5 mm anuais.
As projeções indicam que o nível do mar pode subir 0,5 metro até 2050 e chegar a 2 metros no final do século. Sem intervenções, o diagnóstico aponta para o colapso de infraestruturas críticas e a perda de vastas áreas habitadas.
Recife como um anfiteatro
A vulnerabilidade do Recife é indissociável de sua formação urbana. Enquanto os colonizadores portugueses ocupavam os morros, a influência holandesa priorizou a ocupação das áreas baixas e estuarinas.
"Somos uma cidade anfíbia que precisa parar de dar as costas para os rios e passar a valorizar a água como um ativo estético, ambiental e urbanístico", afirma o arquiteto Roberto Montezuma, professor da UFPE e coordenador do projeto Recife Cidade Parque.
Essa característica geográfica torna a cidade um "anfiteatro" em semi-círculo, onde o palco é o solo encharcado e os morros, a plateia.
A professora de Oceanografia, Maria Christina Araújo, explica que a combinação de marés altas com a malha hídrica saturada já causa alagamentos mesmo sem chuvas. "O oceano aquece e se expande, as geleiras derretem e o ciclo de chuvas e secas se torna muito mais extremo", destaca a pesquisadora.
Diretrizes para políticas públicas e sobrevivência
O relatório RXN 2025 estabelece orientações claras para que a gestão pública inicie uma transição estrutural. O foco central é a substituição do "cinza" (concreto) pelo "azul e verde" (infraestrutura natural).
As recomendações para as políticas habitacionais e de infraestrutura incluem:
- Habitação adaptativa em áreas de risco: o relatório sugere a implementação de arquitetura anfíbia, especialmente em Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Isso inclui o uso de pilotis e soluções que permitam a permanência das comunidades em áreas alagáveis com segurança.
- Sistemas de proteção multifuncionais: em vez de muros de contenção simples, propõe-se barreiras que funcionem como espaços públicos e parques. Os "parques alagáveis" são fundamentais nessa lógica, áreas desenhadas para receber a água durante as cheias e retornar ao uso social após o escoamento.
- Recuo estratégico e restauração: a recuperação de ecossistemas como manguezais e restingas é apontada como a defesa mais eficiente contra a erosão costeira. "Para proteger o que resta, a vegetação de restinga é fundamental, pois ela segura o sedimento e impede que a areia seja levada", explica Araújo.
O desafio da Orla de Boa Viagem
Um dos pontos mais críticos é a situação da praia de Boa Viagem, onde 50% da área já sofre com erosão severa. A proposta técnica envolve medidas que podem ser impopulares, mas são consideradas vitais pelos especialistas.
"É vital que a população entenda esses riscos para que aceite intervenções necessárias como, talvez, ter que retirar parte da Avenida Boa Viagem para criar dunas de proteção", alerta Maria Christina Araújo.
A ocupação histórica de faixas de areia com prédios e calçadões impediu a dinâmica natural do mar, e a reversão desse processo é vista como urgente para os próximos 30 a 40 anos.
Para Roberto Montezuma, o Recife do futuro, especialmente em seu quinto centenário em 2037, depende de uma mudança cultural profunda.
"Precisamos de processos técnicos de adaptação que comecem agora, pensando em uma perspectiva de 100 anos para proteger as futuras gerações", conclui o coordenador.
O relatório reforça que a adaptação climática não é apenas um projeto de engenharia, mas um pacto social entre a preservação histórica e a sobrevivência sustentável.