Óleo que atingiu costa brasileira em 2019 chegou à Flórida transportado por lixo marinho
Estudo internacional revela que resíduos percorreram 8,5 mil km; detritos plásticos e de vidro preservaram o material da degradação natural
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Uma pesquisa conjunta entre cientistas brasileiros e norte-americanos confirmou que resíduos do óleo que contaminou a costa brasileira em 2019 atingiram as praias de Palm Beach, no sul da Flórida (EUA). O poluente percorreu cerca de 8.500 km aderido a detritos marinhos, como garrafas de plástico, vidro e fardos de borracha.
O estudo, publicado na revista científica Environmental Science & Technology, é resultado da colaboração entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), dos Estados Unidos.
Análise forense
A confirmação da origem do material foi possível por meio de técnicas de química forense, que funcionam como uma identificação do "DNA" do petróleo encontrado nas praias americanas. Os pesquisadores cruzaram esses dados com modelos de dispersão oceânica e a análise física dos objetos encontrados.
A procedência brasileira foi reforçada por evidências diretas nos detritos recolhidos em Palm Beach:
- Rótulos de embalagens: garrafas plásticas e de vidro ainda mantinham etiquetas em português;
- Fardos de borracha: material frequentemente encontrado no litoral nordestino durante o desastre de 2019;
- Cronologia: o material levou aproximadamente 240 dias para completar o trajeto entre as duas regiões.
A professora Eliete Zanardi-Lamardo, do Departamento de Oceanografia da UFPE, explica como a análise foi validada:
“Este fato foi confirmado através de análises químicas forenses, caracterização do DNA do óleo aderido a garrafas de vidro e plásticas e a fardos de borracha, em associação a estudos prévios de modelagem de dispersão, realizados com garrafas de deriva. Muito do material recolhido em Palm Beach era de procedência brasileira, confirmado pelas informações nos rótulos em português”.
O papel do plástico na dispersão de poluentes
O resultado da pesquisa surpreendeu a comunidade científica pela distância percorrida pelo óleo sem que ele fosse totalmente degradado. Em condições normais, o petróleo no mar sofre a ação da luz solar e de microrganismos, dispersando-se ou perdendo suas características químicas em poucas centenas de quilômetros.
No entanto, a adesão ao lixo marinho criou uma espécie de proteção para o poluente. Segundo Zanardi-Lamardo, essa associação favoreceu a preservação do material durante a viagem que cruzou o Caribe e o Golfo do México até chegar à costa leste dos Estados Unidos.
Implicações para a gestão global de resíduos
O estudo aponta que a poluição plástica atua como um facilitador para o transporte de longo alcance de outros poluentes, como o petróleo. O achado levanta um alerta sobre a necessidade de gestão de resíduos sólidos, uma vez que o problema do lixo marinho deixa de ser apenas local para se tornar uma crise transfronteiriça.
Os autores do artigo destacam que os prejuízos ambientais de um vazamento de óleo não cessam quando a mancha principal é removida da superfície ou das praias, já que resíduos microscópicos ou aderidos a objetos podem continuar circulando pelos oceanos por meses.
“Demonstramos um efeito adicional da contaminação, no qual a poluição plástica facilita o transporte de longo alcance da poluição por petróleo”, afirmam os pesquisadores na publicação.