Um ano de Viva Parques: gestão foca em eventos e manutenção, mas intervenções permanentes ainda não saíram do papel
Frequentadores notam melhoria na limpeza e segurança, mas intervenções estruturais de impacto, como áreas verdes e polos esportivos, seguem pendentes
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Totens de led com anúncios, pinturas e bandeirolas de patrocinadores, food trucks e containers de alimentação. Esse é o primeiro impacto para quem chega nos quatro parques do Recife operados e geridos há um ano pela concessionária Viva Parques do Brasil — Jaqueira Governador Joaquim Francisco, na Jaqueira; Santana Ariano Suassuna, em Santana; Apipucos Maximiano Campos, em Apipucos; e Dona Lindu, em Boa Viagem.
Os equipamentos continuam sendo públicos e são apenas geridos pela iniciativa privada. A concessionária venceu a licitação da Prefeitura do Recife e, desde 10 de março de 2025, é responsável pela manutenção dos espaços por 30 anos. A previsão é que R$ 413 milhões sejam investidos ao longo da operação e que nos primeiros 24 meses, novos projetos sejam entregues para a população.
De acordo com a Viva, ao longo dos últimos 12 meses, os parques registraram crescimento de público, somando mais de 4 milhões de pessoas e uma média mensal de 555 mil visitantes.
O CEO da empresa, José Aragão, afirmou que os esforços foram focados na execução de melhorias estruturais, modernização de equipamentos, reforço dos sistemas de monitoramento e proteção e organização de uma programação cultural e esportiva permanente.
"A gestão realizou uma série de investimentos em infraestrutura e serviços permanentes nos parques, com a instalação de bebedouros com água potável gratuita, implantação de rede de Wi-Fi público, soluções inteligentes de monitoramento e videovigilância, intensificação das rotinas de manutenção, limpeza e conservação das áreas comuns, além da melhoria contínua dos equipamentos e serviços oferecidos aos frequentadores. Somados, os investimentos e despesas de manutenção já alcançam cerca de R$ 17 milhões nos quatro parques", diz a concessionária.
A reportagem do Jornal do Commercio foi até os quatro locais para conferir o que mudou nesses primeiros doze meses.
Parque da Jaqueira
Ao chegar no Parque da Jaqueira, é possível perceber a instalação de bebedouros, um bicicletário com profissional de segurança privado, totens de led com o horário e propagandas, a repintura da pista de cooper com a metragem e logomarca de um patrocinador.
Segundo a Viva, as rotinas de manutenção contam com intensificação de podas, limpeza e acompanhamento técnico permanente.
Os usuários do parque elogiam a manutenção regular — reparos e pinturas dos brinquedos infantis, capinação, poda de árvores e limpeza —, a segurança no local e as novas opções de alimentação em formato de food trucks.
“Precisa de mais coisas, mas em relação aos brinquedos eu acho que deu uma melhorada. Eu achei bacana também a atitude de ter colocado o bicicletário com um segurança”, comenta Ana Paula, 33 anos, frequentadora do parque.
Uma das maiores questões envolvendo a concessão do Parque da Jaqueira foi a pista de bicicross, o BMX, esporte caracterizado por manobras na bicicleta. A Viva Parques alegou que apenas 7% dos usuários do parque frequentavam a pista, de acordo com levantamento realizado pela empresa, dado que levou à decisão de demolição do aparelho para a construção de um polo gastronômico no local, que está em andamento.
A concessionária se comprometeu a reformar a pista do Parque Santana e adequá-la à categoria “challenger”, compatível com campeonatos oficiais.
Parque Santana
A pista de bicicross do Parque Santana foi totalmente reformada, com largada em padrão challenger, adequando a estrutura às exigências técnicas da modalidade.
Gilmar Batista, que começou o projeto social dando aulas e treinando atletas de BMX na Jaqueira gratuitamente há 40 anos, com a concessão dos parques, tornou-se funcionário da Viva Parques.
Além de reformar a pista e remunerar o professor, a Viva Parques equipou o projeto com 34 bicicletas de BMX e seus respectivos equipamentos de proteção individual (EPIs).
“A gente nunca teve uma oportunidade como essa, e eu também não esperava que a Viva ia nos proporcionar tantas coisas boas, mais riso no rosto da gurizada que está chegando agora do BMX. Como essa pista, que foi reformada completamente para receber todo tipo de piloto e pode receber um campeonato brasileiro sem bronca nenhuma”, conta Gilmar.
Para praticar o esporte, basta assinar um termo de responsabilidade e não é necessário levar equipamentos. A maioria dos jovens assistidos provêm de bairros do entorno, como Alto José do Pinho, Vasco da Gama, Morro da Conceição e Macaxeira. Com a abertura da pista no Parque Santana, também novos praticantes do bairro da Torre têm se juntando à equipe.
Apesar das novidades, Tarta de Melo, 36 anos, atleta de bicicross, relata o impacto emocional na mudança de localidade.
“A principal dificuldade foi o impacto sentimental que a saída da pista de bicicross do Parque da Jaqueira nos deu. Não só a mim, mas até a outros atletas veteranos. Nós ainda estamos abalados com essa situação, mas estamos nos adaptando a todo esse cenário que estamos vivenciando”, relata.
Segundo Tarta, a maior parte das promessas feitas pela Viva Parques foi cumprida. No momento, a equipe aguarda apenas pela entrega da sala técnica, um espaço para discussão de estratégias e armazenamento de equipamentos.
“A Viva Parques se comprometeu não só com essa parte que já foi cumprida, mas também com incentivos, com elaboração de projetos para o bicicross. Estamos vivenciando isso, esperando as coisas finalizarem de fato para a gente entrar nesse processo de projeto de incentivo aos atletas”, completa o piloto.
Polo esportivo
O planejamento é tornar o Parque Santana um polo esportivo, aproveitando o que já existe no local, além da pista de BMX: um skatepark, um campo de futebol, uma quadra de tênis e uma academia da cidade.
A promessa da Viva Parques é adequar o campo de futebol ao padrão FIFA para receber campeonatos e, no dia a dia, dividi-lo em quatro para realizar aulas de formação esportiva; equipar o local com duas quadras de tênis e uma quadra de basquete.
Renovações
Ao visitar o local, não é possível ver movimentações de obras, apenas a pintura de brinquedos infantis e a reforma da arquibancada do campo de futebol. Algumas calçadas do parque necessitam de revitalização e a pintura de bancos e canteiros de árvores está deteriorada.
“A segurança melhorou bastante, instalaram bebedouro, o banheiro é mais limpo, foi basicamente isso que fizeram no parque. Também está faltando ajeitar a pista onde o pessoal caminha”, conta Ednaldo da Silva, 70 anos, frequentador regular do local.
Apesar das melhorias apontadas, os frequentadores do parque ainda têm demandas a serem atendidas.
“Melhoraram muito os banheiros, a limpeza está outra, botaram um bebedouro… mas uma coisa precisa melhorar, essa água do poço fede, a gente vai tomar um banho e fica com aquela catinga de lama, a melhora que está faltando é essa”, reclama Antônio Gomes, 63 anos.
Parque Apipucos
O Parque Apipucos, com 11 mil m², foi requalificado pela Prefeitura do Recife em setembro de 2023, um ano e meio antes de ser entregue à administração privada. O equipamento já contava com Parcão, pista de cooper, brinquedos para as crianças, banheiros públicos, quiosques e um píer flutuante no açude de Apipucos.
O projeto da Viva Parques é transformar o local num centro cultural, trazendo eventos como o Festival de Sabores, Festival De Bar em Bar e, mais recentemente, o Cine Apipucos, com exibições de filmes ao ar livre de quarta-feira a domingo gratuitamente.
A concessionária também ativou uma praça de alimentação no local, com restaurantes e lanchonetes.
“O primeiro ano aqui foi bem organizado. Os eventos têm trazido público, principalmente no final de semana. E a expectativa agora no primeiro momento, com esse projeto novo do cinema, é trazer mais gente, principalmente das periferias para ocupar esses espaços, porque é de graça, aberto pra todo mundo. É isso que a gente espera”, compartilha Diego Amaral, 32 anos, sócio-proprietário de um dos restaurantes que opera nos quiosques do parque.
Parque Dona Lindu
No Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, a marca da nova gestão é visível na organização dos serviços e na infraestrutura cultural. Assim como nos demais equipamentos, a chegada de containers e food trucks diversificou as opções de alimentação, enquanto a manutenção dos banheiros e a zeladoria ganharam reforço.
“Eu notei a diferença na parte de alimentação, tem mais opções. A limpeza também, os brinquedos todos funcionando, eu chegava aqui via essa tirolesa quebrada, os balanços… e agora tá tudo bom. As quadras também foram pintadas e estão com telas pra a bola não sair”, afirma José Ferreira, frequentador assíduo do parque.
No Teatro Luiz Mendonça, peça central do parque, a Viva Parques realizou a reforma das sancas internas e dos camarins, melhorias nos sistemas de climatização, cadeiras e infraestrutura técnica, visando dar suporte à agenda de espetáculos que se tornou mais frequente.
“Os espetáculos do teatro são mais selecionados, acontecem com mais frequência, mais shows, mais entretenimento para o pessoal”, afirma o historiador Josebias Bandeira.
De acordo com a Viva Parques, entre março e dezembro, o espaço sediou 182 apresentações, reunindo aproximadamente 43 mil espectadores e recebendo produções com artistas como Christiane Torloni, Antônio Fagundes, Helena Ranaldi, Ana Rosa, Marcelo Faria e José de Abreu.
Já a Galeria Janete Costa retomou sua programação expositiva e a esplanada do parque passou a receber eventos culturais e esportivos.
Os frequentadores também elogiam a presença constante de vigilância privada, inibindo ocupações irregulares e trazendo um ambiente mais ordenado para as famílias que frequentam a orla.
Entretanto, a extensa área de concreto, crítica antiga da população ao projeto original do parque, ainda aguarda as soluções prometidas pela concessionária. A implantação dos 900 m² de área verde, demanda prioritária do público para mitigar o calor, ainda não saiu do papel.
Além disso, ainda não foram entregues o restaurante, o café e os novos equipamentos esportivos previstos no contrato de concessão, que devem compor o mix de serviços do local ao longo dos próximos anos de contrato.