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Apenas 48 guarda-vidas atuam no litoral de Pernambuco; número pode comprometer resposta a incidentes com tubarão

Falta de investimentos em salva-vidas e infraestrutura dos postos pode comprometer atuação do Corpo de Bombeiros em todo o litoral

Por Laís Nascimento Publicado em 30/01/2026 às 15:24

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O ataque de tubarão que matou um adolescente de 13 anos na Praia Del Chifre, em Olinda, nesta quinta-feira (29), expõe uma demanda antiga em Pernambuco: o abandono da infraestrutura e a insuficiência de investimentos no Corpo de Bombeiros para atuação no litoral.

Apesar do reforço anunciado pelo Governo do Estado para o período de alta estação, desde dezembro, apenas 48 guarda-vidas têm atuado nas praias pernambucanas, número considerado insuficiente diante da extensão da costa e do fluxo de banhistas. Em outras épocas do ano, a média é de 30 guarda-vidas.

Mesmo com a atuação rápida das equipes em casos de incidentes com tubarão e afogamentos, o efetivo ainda não é suficiente para atender às demandas da população.

À TV Jornal, Maria do Bom Parto, vizinha da vítima, afirmou: “Nunca vimos o Corpo de Bombeiros aqui. Eu tenho 42 anos e nunca vi. Estamos perdendo mais um menino dentro do mar”.

A denúncia da falta de fiscalização e alto índice de afogamentos também foi feita pelos familiares do adolescente e frequentadores da Praia Del Chifre.

Em Itamaracá, litoral norte do estado, também há queixas pela falta de pontos fixos do Corpo de Bombeiros. Joseilda Maria destacou que o apoio é necessário devido aos riscos do banho de mar na região.

“Nessa área do Rio Âmbar não tem salva-vidas e já aconteceram vários acidentes, com crianças batendo a cabeça em pedras. O mar está avançando cada vez mais e a gente fica sem segurança nenhuma”, lamentou a visitante.

Há três anos, o Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, que age por meio do Grupamento de Bombeiros Marítimos (GBMar), afirmou estar estudando uma nova estratégia para o efetivo que trabalha nas praias, principalmente em Boa Viagem.

Porém, o cenário atual é de abandono, com postos de guarda-vidas degradados ou desocupados, sem oferecer a infraestrutura adequada para os profissionais. Os equipamentos são de responsabilidade da gestão estadual.

O que diz o Corpo de Bombeiros

DIVULGAÇÃO/Prefeitura de Jaboatão
Corpo de Bombeiros afirmou que tem um planejamento operacional dinâmico e que passa por constantes reavaliações - DIVULGAÇÃO/Prefeitura de Jaboatão

Em nota, o Corpo de Bombeiros afirmou que tem um planejamento operacional dinâmico e que passa por constantes reavaliações.

"Embora não haja postos fixos na área da Praia de Del Chifre, em Olinda, são realizadas rondas periódicas com o emprego de embarcações e equipes em terra, seguindo uma rotina baseada na ocupação das praias e na identificação de pontos com maior risco de afogamento", pontua o texto.

O CBMPE destaca, ainda, que na presente data "as rondas operacionais foram reestruturadas, com o objetivo de intensificar as ações de fiscalização, especialmente na Praia de Del Chifre, priorizando a orientação preventiva aos frequentadores quanto às situações de risco existentes no local".

As ações estão reforçando a orientação junto aos banhistas e moradores da comunidade do entorno para que deixem a água e evitem a prática de esportes náuticos na área, em virtude dos riscos identificados.

"Vale ressaltar, ainda, que a Praia de Del Chifre possui sinalização indicativa de perigo e restrição ao banho de mar. O planejamento do Grupamento de Bombeiros Marítimo prioriza a otimização do efetivo nos postos fixos distribuídos ao longo da orla com maior concentração de público, considerando critérios técnicos relacionados ao risco e ao fluxo de pessoas", ressalta o texto.

Projeto Orla Segura: promessa de 2013 que não saiu do papel

Em 2013, seis estruturas fixas de guarda-vidas foram instaladas na orla de Boa Viagem, parte do Projeto Orla Segura, lançado pelo ex-governador Eduardo Campos (PSB). Com investimento de R$ 4 milhões, a iniciativa previa a prevenção de crimes, acidentes, afogamentos e eventuais ataques de tubarões.

O plano era que, durante o dia, eles fossem ocupados por bombeiros e, à noite, pela Polícia Militar ou Guarda Municipal. Treze anos depois, ainda não é possível ver resultados do projeto pelo estado.

Sinalização

Tarciso Augusto/Semas
Cemit substituiu 150 placas de alerta de riscos de incidentes com tubarões - Tarciso Augusto/Semas

Em 2025, a orla do Grande Recife recebeu um investimento em sinalização. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) substituiu as 150 placas de alerta de riscos de incidentes com tubarões.

A sinalização foi reposta em um trecho de 33 km, que vai da Praia do Farol, em Olinda, até a Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, abrangendo a área identificada pelo Cemit como de atenção para banhistas. De acordo com o decreto estadual 21.402/1999, nesta área é proibida a prática de atividades náuticas, como o surfe.

As placas são numeradas e bilíngues, com o telefone 193, do Corpo de Bombeiros, para emergências, alertas sobre quedas bruscas, correntes intensas e rochas submersas, além de desestimular o banho de mar em condições como mar aberto, maré alta, águas profundas ou turvas. A sinalização também recomenda cautela caso o banhista esteja sozinho ou sob efeito de álcool.

Monitoramento e estudos

O Governo de Pernambuco anunciou, ainda, a retomada do monitoramento de tubarões na Região Metropolitana do Recife (RMR) após mais de uma década de paralisação do serviço. A volta do serviço é uma promessa que se arrasta desde 2023 pela atual gestão.

Com investimento de R$ 1 milhão e duração de 24 meses, a iniciativa tem o objetivo de observar os padrões espaciais de ocorrência e deslocamento dos tubarões no litoral.

Os resultados vão permitir a identificação de zonas de risco, a geração de dados científicos atualizados e o aprimoramento das estratégias de prevenção, comunicação e segurança aquática.

De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas), a iniciativa integra um conjunto de ações para garantir o banho de mar seguro para a população e a conservação dos tubarões e do ambiente marinho.

Formação e investimento em equipamentos

No último mês de julho, o Governo de Pernambuco formou 280 novos soldados na turma do Curso de Formação e Habilitação de Praças (CFHP) do Corpo de Bombeiros.

A cerimônia representou uma promessa do programa Juntos pela Segurança de ampliação da cobertura das forças de segurança no estado. Os 280 profissionais serão distribuídos por todo o território, do Agreste ao litoral.

Além disso, de acordo com o Governo de Pernambuco, entre 2023 e 2024, forma investidos R$ 26,2 milhões na compra de equipamentos e infraestrutura da corporação, com 20 novas ambulâncias de autorresgate, 14 motos de salvamento aquático, materiais essenciais para operações de mergulho, salvamento aquático, atendimento pré-hospitalar e combate a incêndios.

Foram adquiridos também Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) como capacetes, roupas de aproximação e botas.

Incidente

LÉO FREITAS /JC IMAGEM
Um adolescente de 13 anos morreu após sofrer uma mordida de tubarão na Praia Del Chifre, em Olinda - LÉO FREITAS /JC IMAGEM

Um adolescente de 13 anos morreu após sofrer uma mordida de tubarão nesta quinta-feira, na Praia Del Chifre, em Olinda. O jovem foi levado para o Hospital do Tricentenário e encaminhado para a ala vermelha da instituição, mas já estava sem vida.

Segundo o clínico geral do Tricentenário, Levy Dalton, o adolescente tinha uma lesão extensa na coxa direita, onde muitas artérias que irrigam o membro inferior ficam localizadas.

A mordida deve ter sido de um tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), de acordo com o Cemit. De acordo com o órgão, vinculado à Semas, a lesão apresentou 33 cm de diâmetro, indicando que o animal envolvido possuía comprimento entre 3 e 3,5 metros.

A análise realizada pelo Cemit identificou, ainda, duas características no ferimento compatíveis com os cabeça-chata: uma porção lisa e outra retalhada, padrão compatível com uma dentição do tipo “garfo/faca”.

A espécie, comum na Região Metropolitana do Recife (RMR), também tem afinidade com ambientes costeiros e próximos a estuário e à desembocadura de rios, como a Praia Del Chifre.

Com o caso, Pernambuco soma 82 incidentes com tubarões registrados desde 1992, de acordo com dados do Cemit. Este é o sexto registrado na praia de Del Chifre.

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