Editorial JC: Política é serviço público
Novo primeiro-ministro da Hungria tomou posse prometendo cumprir desejo de mudança, e servir ao país enquanto seu trabalho for útil
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Depois de 16 anos de Viktor Orbán no poder, a Hungria viu assumir o cargo de primeiro-ministro alguém que afirmou não desejar reinar, mas servir à nação durante o tempo que a população ver utilidade. Ao contrário de Orbán, considerado ultranacionalista da extrema direita que se afinava tanto com Donald Trump, dos Estados Unidos, quanto com Vladimir Putin, da Rússia, Peter Magyar, vencedor das eleições, representa a mudança pela valorização da democracia, ou seja, da alternância, e não, da perpetuação no poder. Magyar se situa na centro-direita húngara, e se opôs diretamente a Orbán.
Lembrando Ulysses Guimarães, a ênfase da política como serviço público não deve ser desprezada, em qualquer lugar do planeta. Para Ulysses, “O homem público é o cidadão de tempo inteiro, de quem as circunstâncias exigem o sacrifício da liberdade pessoal”. O que a política requer de quem abraça a carreira pública, portanto, é pensar mais no coletivo do que no individual, exercendo o poder como meio de fazer o bem a mais pessoas, e não menos. Daí a diferença expressa no discurso de posse de Magyar, mirando o antecessor que flertava com o autoritarismo e a redução de direitos. Um cidadão com a missão de alargar, e não suprimir a cidadania – eis o papel do cidadão político que representa outros cidadãos.
A presidente da Comissão Europeia saudou a chegada do novo primeiro-ministro como uma restauração democrática. Para Ursula von der Leyen, “a esperança e a promessa de renovação são um sinal poderoso nestes tempos difíceis. Temos um trabalho importante pela frente”, afirmou, na felicitação de posse. A democracia se renova não apenas pelo voto, mas pela crença de sua capacidade de resolver os problemas coletivos sem recorrer à violência, à exceção ou à perseguição. Várias medidas aprovadas por Orbán são tidas como afrontas ao processo democrático, e devem ser desfeitas por Magyar.
Como não é surpresa em relação aos autocratas e aspirantes a sê-lo, os gastos públicos dispararam no governo anterior, sem que a população sentisse os benefícios provenientes das despesas. O clamor da mudança resultou nas urnas, no sopro de renovação que agora demanda toda a disposição para o trabalho de um servidor público ciente das potencialidades e dos limites da democracia. O que a derrota de Orbán traz como mensagem ao Brasil, a poucos meses de mais uma eleição presidencial que pode ser marcada pela polarização que se repete, é a vitalidade da política enquanto vetor democrático, mesmo quando as opções para o voto parecem restritas. Para os políticos brasileiros, o recado do novo primeiro-ministro húngaro deveria ser recebido como mantra: servir, e não reinar. Se os poderes da República se engalfinham, e seus líderes voltam as costas aos interesses coletivos, a vontade das urnas continua soberana para dar a direção que um país precisa, sem extremismos.