Editorial JC: Sorrisos de aproximação
Encontro de serventia política para os dois presidentes manteve a distância de assuntos difíceis – mas a boa relação é melhor para os países
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Depois de longos períodos de tensão política e econômica, a relação entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos parece entrar em fase de admiração mútua. Em visita sem armadilhas nem surpresas à Casa Branca, em Washington, Lula foi recebido com abraços e sorrisos que devolveu, com a teatralidade comum a ambos. Os elogios de Donald Trump soaram estranhos, à luz das pressões exercidas sobre o governo brasileiro, que tiveram como fatores de impulsionamento, entre outros, uma afinidade assumida de Trump com a família Bolsonaro. Para os petistas, acolher a gentileza do presidente dos EUA deve ser tão difícil quanto admitir semelhanças com os principais adversários atuais no próximo embate eleitoral, em outubro.
Mas o fato é que o acalorado comportamento de Trump não incomoda Lula, que retribui com a mesma desenvoltura, como se jamais tivesse havido rusgas entre os dois. Do ponto de vista institucional, o exercício do respeito mútuo já seria suficiente, garantindo tranquilidade diplomática e condições de trabalho para as equipes de governo. O entusiasmo transmitido em largos sorrisos, apesar de representar ótima notícia, também pode mostrar um alinhamento oportuno para líderes que enfrentam, em seus territórios, quedas expressivas de popularidade. Ainda que a interpretação verde-amarela prefira enxergar a conquista do Planalto na recepção oferecida por Trump a Lula, é sempre importante recordar que o republicano se destaca, no presente mandato, pela oscilação de humores diante de interlocutores que considera relevantes para o proveito de sua própria imagem.
Uma agenda de trabalho aberta é o melhor dos rumos para as duas nações, assim como para os governos. É preciso que a via de mão dupla seja mantida, e os afagos revertam em medidas concretas de aproximação, como por exemplo a questão tarifária, que se mantém como incógnita na sanha arrecadatória de Trump e aliados. O duelo retórico superado e o fim do espetáculo de represálias devem seguir como a normalidade da relação entre os presidentes, deixando livre o trânsito para as negociações técnicas, políticas e econômicas. Desta forma, o encontro de dois populistas, ao invés de confronto, é capaz de gerar uma sintonia – nada surpreendente – que seria indesejada por suas claques, até pouco tempo atrás, antes da “química” acontecer.
A troca de sorrisos levou a promessas de novos encontros, cujos temas não foram adiantados, mas devem atender a pautas conhecidas, entre as quais, as alíquotas de importação e a balança comercial. Os desdobramentos políticos no Brasil dependerão das medidas a serem anunciadas nos próximos meses pela Casa Branca, sendo difícil a esta altura imaginar consequências que venham de lá para cá no resultado eleitoral. Seja como for, apesar de manifestações duras contra os EUA, Lula não hesitou em aceitar o convite e os sorrisos, da mesma forma que Trump se portou com calculada admiração pelo “dinâmico presidente” brasileiro.
O que as populações dos dois países esperam é que os sorrisos se traduzam em atos de aproximação entre os povos, deixando para trás arengas improdutivas.