Bilhões para matar
Volume de recursos gasto em armamentos pelos EUA contra o Irã mostra o desinteresse dos promotores de guerras por demandas urgentes da humanidade
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Em menos de dois meses de conflito contra o Irã, os Estados Unidos de Donald Trump já gastaram cerca de R$ 100 bilhões apenas em armamentos, segundo estimativas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). O valor é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de um ano de alguns estados brasileiros, como a Bahia, a Paraíba ou o Pará. E esse valor se referente apenas a mísseis, sem considerar outras despesas de logística e gestão das tropas e equipamentos em uso. A estimativa é menor do que a publicada pelo jornal The New York Times, segundo o qual a Casa Branca já queimou R$ 140 bilhões no período, nesse conflito específico.
Foram tantos disparos que o estoque de mísseis norte-americanos pode estar sendo rapidamente consumido, o que irá levar a mais bilhões para repor os armamentos utilizados. Como a Ucrânia recebe armas dos EUA para se defender e atacar a Rússia, cogita-se a fragilização dos ucranianos, nos próximos meses, enquanto a indústria bélica estiver a pleno vapor para os pedidos da Casa Branca. O mesmo pode ocorrer com Israel, que também se vale do apoio de armas do país governado por Trump. Talvez essa baixa considerável tenha levado o presidente estadunidense a reduzir o ritmo dos ataques, apesar da retórica de aniquilamento da civilização iraniana.
As negociações diplomáticas para encerrar o conflito podem ser beneficiadas pela demora na reposição dos estoques bélicos, de um lado e de outro. Além disso, o aproveitamento obrigatório de armas de menor alcance e precisão pode significar o aumento de vítimas e de custo político, ao lado do gasto econômico, para Trump e seus aliados. Mesmo que seja difícil acreditar no avanço das conversas realizadores por interlocutores instáveis quanto Trump, e desconhecidos, como as autoridades iranianas, o limite de armas disponíveis confere ao tempo da guerra por mísseis um prazo a ser respeitado de alguma forma. Como um cessar-fogo.
Os gastos militares de Israel, da Rússia, da Ucrânia, do Irã e de países que começam a investir mais em defesa – comprando armamentos e equipamentos de guerra – se somam à nova onda imperialista dos EUA, fazendo com que a civilização global se encontre num dos momentos de maior despesa bélica da história. Como os problemas da humanidade continuam desafiadores, especialmente a desigualdade que leva milhões de pessoas a passarem fome, e sentirem o desamparo em alguma medida, a economia da guerra constitui um acinte, uma afronta às demandas urgentes por comida, remédios, infraestrutura, educação, moradia e outras que diariamente são feitas por parcelas vulneráveis da população.
Os bilhões de dólares aplicados nas guerras são, no fundo, bilhões para matar, mutilar, desabrigar e fazer muita gente sofrer. Se parte desses recursos, não apenas dos EUA, mas de todos os orçamentos militares, fosse investido em agendas humanitárias, e voltadas para o desenvolvimento de economias que necessitam de estímulo, o mundo seria provavelmente diferente – quem sabe, melhor do que a imagem de dor e medo que se repete ao zunido dos mísseis e das rajadas.