Editorial JC: Em defesa do Papa
Ataques do presidente dos EUA a Leão XIV não apenas detratam a Igreja e seus valores, como bombardeiam o direito à crítica e a expressão religiosa
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Deve ser difícil para uma mente dirigida pela agressividade e para o confronto, aceitar valores que contradizem a supremacia da força bruta e da violência diante de qualquer problema. O presidente Donald Trump chamou o papa Leão XIV de fraco, por evidente não alinhamento à doutrina expansionista e armamentista do governo dos Estados Unidos sob a regência caótica de Trump.
O pontífice, como seu antecessor, o papa Francisco, abomina as guerras, discursa contra a desumanização provocada pela banalização da violência, e pede, repetidamente, que se renovem os esforços pelos consensos, ao invés de se dar continuidade aos conflitos que destroem cidades e matam, mutilam e desalojam seus habitantes.
O presidente Donald Trump poderia ser chamado de fraco. Sua palavra é cada vez menos levada a sério pelos demais líderes mundiais. Em seu país, a população, a imprensa e grande parte dos políticos, inclusive do partido que o apoia, prestam crescente atenção aos prejuízos e aos riscos impostos a todos com Trump na Casa Branca.
Cultuador da força, o magnata que posa de onipotente quando fala, enfraquece com o prolongamento da guerra contra o Irã, após conduzido a ela por Israel. E para desviar das críticas, elege alvos diferentes, com o objetivo de encontrar um novo adversário para menosprezar, diminuir, ofender.
Assim é que o papa Leão entrou na mira. E Trump, também, graças à solidariedade da face pacífica, sensata do planeta ao líder da Igreja Católica. Mas é importante dizer que os ataques do presidente dos EUA ao papa não apenas detratam a Igreja e seus valores, como bombardeiam o direito à crítica e a expressão religiosa. Por isso, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, classificou como inaceitáveis as recentes menções de Trump a Leão XIV: “É correto e natural que o líder da Igreja Católica peça paz e condene todas as formas de guerra”, sustentou, em comunicado.
A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota reafirmando a defesa da paz, da dignidade humana e do diálogo entre os povos e os indivíduos – tudo a que o presidente dos EUA se opõe. Não por acaso, Trump escreveu, enfaticamente: “Não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos”. Se Donald Trump se sente frágil, ameaçado pelo papa ou por quem quer que seja, o mundo fica em risco, pois como todo déspota – no caso, um aspirante a imperador no século 21 – ele não quer críticas. Sua perseguição à imprensa e ao Judiciário vem dessa aversão patológica à divergência.
O regime iraniano não deixa de ser tirânico porque o presidente estadunidense o copia, por exemplo, anunciando que irá bloquear o bloqueio do Irã no Estreito de Ormuz. Os terroristas não se tornam bonzinhos porque Trump, para combater o terror, embarca na trilha sangrenta de Benjamin Netanyahu contra povos inocentes. Mas o contrário também vale: um líder belicista não se torna um herói ou santo porque aponta como inimigos os representantes do mal. Leão está certo, Trump, errado.