Editorial JC: O impasse de Ormuz
Sem acordos firmados e respeitados para dar fim à guerra na região, EUA e Irã travam bombardeios retóricos sobre a passagem de navios no Estreito
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O encontro mediado pelo Paquistão parece não ter dado em nada, e os Estados Unidos e o Irã seguem longe de chegar ao meio-termo das exigências que cada país demanda para um cessar-fogo consistente. Sem mencionar a dificuldade do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em aceitar qualquer freio na sua estratégia de defesa baseada no ataque – estratégia esse que passa por cima, inclusive, da vontade de Donald Trump.
O presidente dos EUA pode ter sido levado para a guerra no Oriente Médio contra o Irã pelos israelenses, e agora busca uma saída honrosa, enquanto sua popularidade vai derretendo entre a população estadunidense.
O conflito pode escalar decisivo degrau nesta segunda-feira, quando a Casa Branca promete bloquear o Estreito de Ormuz. Trata-se de mais uma declaração explícita de guerra, envolvendo não apenas o Irã, mas todos os países que utilizam a passagem de navios petrolíferos e outras cargas.
Os iranianos passaram a controlar o fluxo, provocando impactos econômicos no mundo inteiro, e consequências diretas no cotidiano de grandes nações asiáticas, como a Índia. A nova determinação norte-americana visa impedir que embarcações entram ou saiam da costa do Irã, mas a tendência é que as águas continuem a ser evitadas por navios de qualquer bandeira – o risco é muito grande de um fogo cruzado de mísseis por todos os lados.
Embora continue valendo parcialmente, o cessar-fogo na área pode ser completamente abandonado nas próximas horas, caso o impasse de Ormuz se agrave, levando a enfrentamentos concretos. Enquanto isso, Trump continua menosprezando a força do oponente que enfrenta há mais de um mês. "Eu poderia acabar com o Irã em um dia”, declarou, mencionando a destruição da infraestrutura de energia como alvo fácil para os militares dos EUA. Do outro lado, o Irã permanece resistindo e atacando na região, ampliando os focos da guerra e prolongando os prejuízos para a economia global.
O tom de insuperável discórdia no duelo retórico faz crescer os temores de uma escalada que vem chegando muito perto de ponto trágico, com a repetição de ultimatos e a troca de ofensas. Os crimes de guerra se sucedem, as mortes de cidadãos que não têm nada a ver com os objetivos políticos e econômicos dos líderes envolvidos, são cada vez mais desprezadas, e a confusão perdura nas negociações.
A diplomacia deve ter muito trabalho para sequer apresentar consensos para interlocutores como Trump, Netanyahu e os detentores do poder no Irã. Se o desrespeito que impera virar a esquina do descontrole total, o impasse pode sair de Ormuz e se espalhar em fronteiras da Ásia e da Europa.
Trump e seus comandados permanecem dizendo que venceram, e os iranianos não param de lançar bombas. Além do front de guerra comercial, há um impasse lógico em Ormuz: uma guerra não termina com dois vencedores opostos. Mas a derrota de todos é possível, já se configurando na deterioração das relações internacionais, e na submissão da população global a poucos senhores da guerra.