Editorial JC: No Pilar, mortes e descaso
Estação chuvosa mostra todos os anos, em Pernambuco, a evidente falta de estrutura das cidades para a proteção dos habitantes vulneráveis
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A tragédia na Comunidade do Pilar, no Recife, em que morreram duas pessoas em decorrência de fortes chuvas, não foi causada apenas pelo fenômeno climático. O drama conhecido da população da Região Metropolitana e de outras regiões do estado, quando nuvens pesadas se formam e anunciam precipitações massivas, esperadas pela meteorologia, é o reflexo de muitos anos de falta de estrutura nas cidades – no Brasil, em Pernambuco e, no caso específico, também no Recife. Há um notório despreparo urbano que pode ser observado nas queixas que se repetem, no desamparo e na dor que se repetem, ao invés da bonança depois de uma tempestade.
A vulnerabilidade climática identificada em muitas cidades brasileiras é gerada por diversos motivos, entre os quais, a deficiência ou ausência de planejamento voltado para prevenir o que se sabe que se repete. Às vezes faltam recursos, outras vezes, vontade política e sensibilidade para aplicar o orçamento na ponta do desespero coletivo.
O resultado é um acúmulo de fatores que agravam as consequências de uma chuvarada, rebaixando a qualidade de vida nos centros urbanos, expondo as populações a riscos crescentes, na medida que as mudanças no clima tornam os fenômenos mais intensos.
Os desabamentos de edificações ocupadas apesar da vulnerabilidade conhecida na estrutura ou no terreno, são exemplos de um quadro crítico que se arrasta por muito tempo, sem que as devidas providências sejam tomadas. No Pilar, além da que desabou, outras nove estão na iminência de colapsar – em pleno Bairro do Recife, no coração da capital pernambucana.
Um laudo da Defesa Civil que data de 2024 já apontava problemas graves no prédio que desabou. A desocupação do imóvel aconteceu em setembro daquele ano. A reocupação ocorreu no vácuo entre a necessidade de recuperação e o déficit de moradias na cidade, estimulada pela fiscalização precária que, se tivesse ocorrido, poderia garantir duas vidas preservadas, hoje.
Como destacou Adriana Guarda para o JC, a tragédia que novamente castiga os recifenses é reveladora de realidade profunda: “Trata-se de um território que há décadas convive com precariedade, obras inacabadas e promessas públicas que nunca se concretizaram por inteiro”.
Na linha esticada do provisório, da solução sempre adiada, a cidade, enquanto ambiente coletivo, deixa de ser acolhedora, e passa a representar algo nocivo à integridade dos indivíduos e à tranquilidade das famílias. A mesma cidade, espaço urbano que se transforma para que a vida seja apropriada, apresenta uma inércia paralisante: a inércia da gestão pública sem horizonte, ou com a visão fixada no cabresto de um curto mandato, para o prazo de “entregas” programadas para os holofotes da próxima eleição.
O tempo arrastou para o esquecimento as promessas feitas há décadas para os moradores da Comunidade do Pilar. O déficit habitacional é um dos problemas do despreparo urbano que se torna patente numa chuva mais forte. A ineficiência da drenagem e o baixo investimento em adaptação climática são outros. Mas o mais contundente é o descompromisso que alarga a distância entre o que se diz e o que se faz, deixando o povo à espera do alagamento.