Editorial JC: A penúria do Metrô
Rotina de falhas operacionais no Metrô do Recife, nos últimos cinco anos, mostram o sucateamento que prejudica os cidadãos e trava o desenvolvimento
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A Lei de Acesso à Informação serviu de base para o levantamento da Rádio Jornal sobre a situação problemática do Metrô do Recife de 2021 a 2025. Nesse período, estão oficialmente registradas 74 falhas operacionais – uma média de quase 15 por ano, ou mais de uma por mês. E não foram pequenas falhas.
Para a população que ainda depende do sucateado transporte metroviário da Região Metropolitana do Recife, as frequentes quebras e paralisações do sistema tiveram o único significado verdadeiro: a falta de interesse do poder público em solucionar uma questão posta há vários anos.
O desinteresse não se cola a um ou outro governante, mas pode ser associado ao poder estatal de modo geral, em todos os níveis de gestão, dos largos corredores em Brasília aos estreitos caminhos administrativos no Recife. Desrespeito pelo direito dos cidadãos à mobilidade, desatenção compartilhada que atinge, na ponta, centenas de milhares de pessoas de baixa renda na capital pernambucana e cidades vizinhas.
A penúria estrutural do Metrô do Recife não é responsabilidade específica de ninguém – e talvez por isso perdure, como se não houvesse nada a ser feito, ninguém a se coçar para tirar o povo da imobilidade. E do estresse, dos prejuízos materiais e psicológicos que não poder se deslocar são capazes de causar.
É quase como uma discriminação aberta na sociedade, quando tantos vêm tão reduzido o direito ao movimento pelas cidades, pelo espaço público. Ao mesmo tempo, a cidade se degrada junto, pois as porções urbanas que deveriam se desenvolver, ao longo dos trilhos, são desvalolrizadas pela inércia de um modal em decadência – pelo menos, por aqui, ao invés de receber investimentos para se expandir, a exemplo de outros lugares do Brasil e do mundo.
A condição crítica de operação é resultado de um acúmulo de irresponsabilidades e omissões. O quadro é complexo, e o salvamento do Metrô requer muito dinheiro. Há boas novas à vista, nos próximos anos, desde que a intenção do governo estadual de conceder o Metrô à gestão privada não sucumba no horizonte, como ocorreu antes. Se os governos deixaram o sistema à beira da falência, do encerramento das atividades, em flagrante ofensa aos pernambucanos, a iniciativa privada, em um projeto bem feito e republicano de concessão, pode representar um caminho viável de recuperação.
A melhor forma de gestão é a que proporciona resultados para o interesse público. O Metrô do Recife é um exemplo gritante de fracasso. Sem manutenção devida, a rede elétrica se tornou obsoleta. Falta dinheiro para o básico. Em tudo, das estações aos veículos, o que se oferta à população é acintoso.
A qualidade do serviço é sofrível, a pontualidade, um deboche, em um sistema que apresenta falhas que duram mais de uma semana de paralisação. O colapso metroviário em Pernambuco é uma lástima, sobretudo, para os pernambucanos – mas também serve de espelho para gestores públicos que fizeram questão de se esquecer do assunto.