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Editorial JC: Desperdício de água

Com índice de perda acima de 40% na distribuição, o país chega no limite do crime ambiental e social, privando milhões de pessoas do abastecimento

Por JC Publicado em 31/03/2026 às 0:00 | Atualizado em 31/03/2026 às 7:08

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O recurso hídrico é a fonte da vida e a energia que precisa abastecer os seres vivos, diariamente. Sem água, o corpo vira máquina prestes a enguiçar: o sangue circula mal, a pressão arterial aponta um problema, a temperatura à flor da pele se desequilibra. O raciocínio começa a embotar, a boca seca dá o alerta da sede, a cabeça dói, a fraqueza muscular se espalha, e os órgãos internos trabalham em processo de colapso.

Muito além dos seres humanos, largas porções do planeta que depende da água para abrigar vida também demonstram os efeitos da aridez. O ciclo de harmonia entre as espécies é ameaçado. A vegetação que se perde compromete a biodiversidade. Onde os mananciais líquidos baixam, ou até somem, a potência e a multiplicidade da vida baixa a níveis elementares, à espera de chuva, ou de algum banho de esperança.

As secas cada vez mais intensas que acontecem em diversos países, têm elevado o custo das estiagens, em especial nos prejuízos agrícolas. Mas também levantam o medo, às vezes em forma de pânico, do desabastecimento em grandes cidades, até em megalópoles como São Paulo, quando os reservatórios ficam aquém das marcas de segurança hídrica.

A gestão da água numa época de mudanças climáticas e incerteza política global, que tensiona e adia decisões, tem que ser uma gestão rigorosa. Atenta ao que se dispõe, e invariável na busca da eficiência na distribuição. A permanência de índices altos de desperdício deveria ser definida como algo perto de um crime ambiental e social, sem protelação de soluções para evitar a continuação que se transforma em calamidade.

Os dados mais recentes do Instituto Trata Brasil sobre o desperdício de água no país acabam de ser divulgados, com informações relativas a 2023. Por dia, o volume de água que se perde no caminho entre os reservatórios e os consumidores equivale a seis mil piscinas olímpicas – de água tratada. Em um ano, isso representa quase 6 bilhões de metros cúbicos de água no ralo. O percentual de perda no processo continua acima de 40%. Se caísse para 25%, nada menos que 31 milhões de brasileiros a mais poderiam receber o precioso recurso hídrico, e ter um pouco mais de qualidade de vida.

O ralo Brasil recebe água de vazamentos, em grande parte presentes em tubulações antigas; de equívocos na informação de medidores obsoletos; e nos furtos e ligações clandestinas que fazem a água sair de seu destino planejado. Com esse tamanho de desperdício, os custos de produção aumentam bastante, fazendo com que o recurso hídrico seja insuficiente e caro para a demanda nacional.

Com menos de uma década pela frente, a meta de baixar o desperdício nos municípios ao patamar de 25% parece distante – até porque faz muitos anos que esse índice é alto, e não se consegue chegar nem perto de uma perda aceitável – se é que, em se falando de água, qualquer perda venha a ser aceitável. Numa Terra que murcha e num país com sede, não deveria sê-lo.

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