Editorial JC: O escândalo continua
Encerramento da CPMI não pode significar a continuidade da sensação de impunidade, em mais um tenebroso assalto aos cofres públicos no Brasil
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Uma fraude bilionária que durou alguns anos, atravessou dois governos de presidentes antagônicos e se materializava no desvio de recursos das contas de aposentados e pensionistas do INSS. O esquema desvendado era profissional e abrangente, com possíveis nomes envolvidos do Congresso Nacional. Em ano de eleição presidencial, o encerramento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do INSS não deixa de ser um freio que o Supremo Tribunal Federal impõe à manipulação política das suspeitas e conclusões iniciais das investigações.
Mas o temor dos brasileiros é que os obstáculos do STF, que vetou a prorrogação da CPMI, passem a ser a regra, encobrindo malfeitos e protegendo, na prática, bandidos de altos escalões. Inclusive em relação a outro escândalo, ainda maior, do Banco Master, que pode ter ligações com o esquema que roubou idosos aposentados.
O indiciamento de mais de 200 pessoas é solicitado no relatório final da CPMI, entre as quais, o filho do presidente Lula, Fábio Luís, conhecido como Lulinha, e Daniel Vorcaro, do Banco Master, que já se encontra preso, e talvez em negociação de delação premiada. Um relatório paralelo pede que sejam indiciadas quase 130 pessoas, com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar, no meio dos acusados.
No cabo-de-guerra dos relatórios, a vontade de escolher suspeitos preferenciais não esconde interessante visada: se juntarmos os dois relatórios, teremos elementos cabíveis para a condenação de expoentes dos polos extremos da política nacional? Nesse caso, não seria um bem para o país, ir a fundo nas investigações, para passar a limpo as relações espúrias de qualquer um que tenha se metido com a quadrilha do INSS?
Vale recordar que o esquema começou a atuar no governo Bolsonaro, e se consolidou no governo Lula, com arrecadação maior pelos furtos nos anos do atual ocupante do Planalto. Sejam quais forem os responsáveis pelos crimes, os apontados devem responder por seus atos, estejam em um polo ou noutro da trágica polarização política brasileira. A pior hipótese é a interrupção das investigações, se a vitrine da CPMI for fechada e os trabalhos de busca pelos culpados for esquecido.
Embora a impunidade venha sendo um dos motores da corrupção no Brasil, será desconcertante para as instituições e para a democracia, caso o INSS tiver sido um lugar de assaltantes que saíram cheios de grana e confiança na injustiça. Nesse triste cenário, a porta estará aberta para novos esquemas no futuro, vitimando aposentados e outras parcelas da população, debaixo dos panos quentes dos Três Poderes da República.
A corrupção continua quando as instituições fazem vista grossa para ladrões graúdos. O escândalo continua enquanto dois lados opostos arengam pelo protagonismo de acusar, e ambos podem estar certos. E a impunidade que anima os corruptos também continua, para o descrédito das instituições, em especial a Justiça, gerando mais revolta e melancolia no duplamente assaltado povo brasileiro.